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  • UMA CAMINHADA NA FLORESTA DAS ALMAS PERDIDAS

    Aquela noite de Outubro começava a cair, quando o estádio se levantou em peso num fervente aplauso. O Quaresma saiu do banco e começou a aquecer. Eu estava lá no meio, de cachecol ao pescoço, a contribuir para o barulho. Bati palmas com toda a força, com um sorriso do tamanho da Invicta, muito longe de imaginar que a 70 quilómetros de distância, um intruso estava escondido na casa onde cresci.

    Poucos minutos passaram até o Quaresma ser chamado pelo treinador do F.C. Porto. Ia entrar na partida. Mais uma vez, o trovão das palmas. E não só. 40 mil pessoas gritavam a plenos pulmões o nome de um ídolo cuja utilização era cada vez mais escassa no reino do Dragão. Eu também gritei. Como poderia não gritar?  Em Águeda, o intruso percorria a sala onde eu via desenhos animados, onde festejei tantos aniversários, onde vivi tantos anos felizes. Há algo que reluz. É aço, é frio. O intruso tem uma faca na mão.

    Uma mão cheia de minutos. Bastaram cinco minutos para os astros se alinharem numa noite aparentemente imaculada. O Quaresma recebe a bola de Brahimi no bico da área, finta um adversário, flete para o centro e dispara com o pé direito. O Guarda-redes do Atlético de Bilbao ainda toca na bola, mas o golo é imparável. Nada poderia parar aquele golo, não naquela noite. Saltei, vibrei, se calhar até chorei. Choraram todos. Lágrimas de alegria, pois um momento daqueles apaga qualquer tristeza. Tanto mais se apagaria naquela noite.

    O cigano corre 40 metros. É travado no centro do relvado, pelo abraço do Danilo. Puxa violentamente a camisola com ambas as mãos em direção ao céu, num misto de raiva e euforia. Estica-a tanto que quase a rasga. Nesse momento, já o sangue tinha inundado o chão da cozinha.

    O sopro final zuniu 15 minutos depois. O homem de negro encheu o peito e descarregou os pulmões no apito. Mais um trovão. Mais um, numa tempestade que parecia tão perfeita.
    Não abandonei a bancada, deixei-me ficar. Os instantes morrem rápido e eu queria perpetuar aquele. Acho que choveu nessa noite. E eu, que detesto conduzir com chuva, percorri animado cada quilómetro do alcatrão encharcado da A1 rumo a Águeda, a falar pelos cotovelos sobre a partida. Uma partida que eu nunca iria esquecer.

    A chuva neste momento já não era tão agradável. Escorria do telhado e eu não encontrava a chave. Até que me lembrei que tinha deixado a porta destrancada. Estranhei ver a luz desligada. “Ainda nem sequer são 23 horas”. E, no entanto, ali dentro, as horas tinham parecido dias. Arrastavam-se, vagarosas, penosas. Talvez tenham passado semanas para quem as viveu. Décadas, quem sabe.
    Avancei até à sala e estava tudo fora de sítio. O sofá arrastado, o candeeiro tombado, os quadros no chão, onde também repousam pequenas poças de um líquido qualquer, cuja cor é dissimulada pela tijoleira cor-de-vinho. Abaixo-me, passo o dedo, o líquido é morno. Quando viro a ponta do indicador para o meu rosto, noto também que é espesso, vivo; vermelho.
    Sinto um toque no meu ombro direito. “Não te preocupes que vamos por tudo no sítio”, ouço, numa voz familiar. Volto-me e não vejo ninguém. O José Pedro Lopes já se dirige, apressado, para outro lado qualquer da casa, não sem antes se virar e complementar: “Ah, e isso sai tudo com água”.

    É já o quarto dia de filmagens do filme “A Floresta das Almas Perdidas”, o terceiro na minha casa, que cedi para parte da produção deste projecto. E que projecto! Um filme de terror português. Um cenário raro no panorama cinematográfico nacional, um sonho difícil de alcançar que uma equipa jovem decidiu perseguir. Na algibeira, um orçamento irrisório e uma vontade abastada.

    Sentada no sofá, Lígia Roque aproveita agora para relaxar. Morreu 11 vezes na cozinha até o derradeiro take definir o assassinato perfeito. A faca era retráctil, mas os golpes nas costelas foram reais. Ao seu lado, o intruso, que afinal era uma intrusa, Daniela Love, que descansa alguns minutos antes de atacar a próxima vítima. Sim, vão ser assassinadas mais pessoas na minha casa, mas isso será a sala escura do cinema a contar.

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    Fotografia: Francisco Lobo

    Há várias coisas que me ligam a este projecto. O facto de ser amigo pessoal do realizador, José Pedro Lopes e da produtora, Ana Almeida. Ter sido filmado na minha cidade natal, Águeda; na pacata povoação onde passei a infância e a adolescência, Vale Domingos; na casa onde cresci; na serra que tantas vezes percorri, Caramulo. E, por último, para além de todo um grupo fenomenal que tive a sorte de conhecer e acompanhar, por uma importante lição que aprendi durante a caminhada nesta Floresta.

    Tudo começou algures em 2012, quando o José Pedro Lopes me abordou com uma ideia para uma longa-metragem. Alguns meses depois, já no ano seguinte, enviou-me o argumento e pediu-me ajuda no scouting (procura de localizações para filmar). A minha casa ele já tinha em vista, mas precisava de uma floresta densa e sombria.

     

     

    O cenário da “Floresta das Almas Perdidas” é inspirado em Aokigahara, uma vasta e densa floresta no sopé do monte Fuji, no Japão, que se tornou conhecida pela prática do suicídio.
    A relação da morte com a floresta é secular. No Japão feudal, era lá praticado o Ubasute, uma forma tradicional de eutanásia, onde um familiar doente ou idoso era abandonado para morrer num local remoto. Com a passagem dos anos, a floresta ganhou fama de assombrada. Nas povoações próximas, acreditava-se que a Aokigahara era povoada por milhares de Yurei, espíritos confusos, tristes ou revoltados com o seu cruel destino. Ninguém ousava lá entrar, a não ser para morrer.

    Em 1960, o escritor Seichō Matsumoto publica o livro “Kuroi Jukai” (traduz-se: Mar negro de árvores), que conta a história de dois amantes que se decidem suicidar em Aokigahara, por acreditarem que esse acto trágico-romântico perpetuaria o seu amor por toda a eternidade.
    Num fenómeno de culto literário muito similar ao que viria a ocorrer mais tarde com o livro do italiano Frederico Moccia, “Ho voglia di te” (Quero-te a ti) – que iconizou o acto de prender um cadeado numa ponte (a tradição começou numa ponte romana e rapidamente se espalhou por todo o mundo) – o livro de Matsumoto enraizou ainda mais a negra iconicidade do local. Desde então, a floresta tornou-se um destino popular para o suicídio, com dezenas ou centenas de ocorrências por ano. É frequente o livro de Mastumoto repousar nas mãos dos mortos.

    Fotografia: Francisco Lobo

    Devia ter 17, talvez 18 anos quando entrei lá pela primeira vez. Lembro-me de pousar a mochila na caruma e olhar para cima, espantado. Parecia de noite e no entanto o sol ardia no céu. As árvores eram tão altas e as suas copas tão densas que filtravam quase toda a claridade. Quando o sol estava a pique, a floresta era perfurada por inúmeras lâminas de luz, que ziguezagueavam à nossa volta. Durante o resto do dia, o escudo verde afastava essas investidas. Apelidei-a de “floresta negra”, em honra da congénere alemã. É um pequeno bosque no caramulo, à esquerda da subida final que leva ao Cabeço da Neve.


    Quando li o argumento, imaginei de imediato esse local como um dos palcos que o José Pedro Lopes pretendia para o filme. Penso que ele se apaixonou por ele na primeira visita. Seguiram-se mais visitas, viagens, carros abarrotados com material, enforcamentos, filmagens, entre simpáticos almoços num restaurante familiar que nos servia a qualquer hora, desde que a refeição fosse rojões de porco.

    Anos depois, na estreia no Fantasporto’17, eu iria estar colado à cadeira do Rivoli e absolutamente deliciado com a forma como o José Pedro Lopes e o Francisco Lobo (director de fotografia) captaram a atmosfera do local. É difícil descrever todo o trabalho artístico, poético, estético, semântico que conseguiram extrair daquele pequeno bosque. Nem faz sentido descrever. Há coisas que existem para ser experienciadas na tela e não na página de um texto. E, como vão descobrir mais lá para a frente, telas não vão faltar.

    Fotografia: José Pedro Lopes

    Uma espessa gota vermelha estatela-se na tijoleira branca. Segue-se outra. E outra. A ferida é grave. “Tem de sangrar um pouco mais”, alerta o realizador. Pedro Santasmarinas – assistente de realização – surge de imediato com um garrafão nas mãos, que parecem as de um assassino psicopata, “ensanguentadas” dos dedos aos cotovelos. Sorri ao verter mais algumas gotas. Foi ele que criou o sangue artificial que está a ser usado no filme. Inspirou-se na receita usada pelo Sam Raimi no clássico “Evil Dead” (1981). Xarope de milho, corante alimentar vermelho, natas não lácteas e uma pequena quantidade de corante azul. Sendo o filme a preto e branco, é necessário escurecer um pouco mais o sangue. O realismo impera na “Floresta das Almas Perdidas”. O mesmo realismo que na noite seguinte iria causar calafrios à equipa de produção.

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    Passam poucos minutos das 22 horas e um nervoso lamurio ecoa por toda a povoação de Vale Domingos. É um som estranho, uma espécie de choro motorizado.
    Estão a filmar um atropelamento e nas imagens no interior do carro é preciso captar a Daniela Love ao volante. Para além da vítima que está prestes a ser passada a ferro no asfalto, só há mais um pequeno obstáculo: A actriz não sabe conduzir. Percorre algumas dezenas de metros com o acelerador a fundo na primeira mudança. O carro queixa-se, mas o espetáculo tem de continuar. A equipa de imagem faz a sua magia e a cena é bem-sucedida. Seguem-se as sequências em velocidade. O realizador passa para o volante. O carro é dele. A fome de realismo também. A produtora e esposa, Ana Almeida, vê-lhe a determinação no olhar. “Tem cuidado, Zé”, alerta. O condutor faz um aceno, engrena a marcha-atrás até ao ponto de partida. É uma recta longa e só com mato à volta, escolhida a dedo para esta cena. A aceleração é feroz, o ponteiro do conta-quilómetros sobe a pique e o Mercedes passa pela equipa como uma flecha. Take 1! Ao terceiro ou quarto take, surgem três indivíduos. Um deles, traz uma carabina de pressão de ar ao ombro. Surpreendida e expectante, a equipa de filmagem aguarda em silêncio, quebrado pelo indivíduo mais alto, após uma longa e cinematográfica baforada no cigarro: “O que se passa por aqui, hã?”. O José Pedro Lopes cumprimenta-os e contextualiza toda a situação. O trio explica que os habitantes estavam a estranhar as constantes acelerações e travagens a uma hora daquelas e resolveram investigar. As casas mais próximas estão a algumas centenas de metros, mas o carro está farto de gritar, seja em primeira ou quinta velocidade. São convidados a ficar e observar. Anuem e permanecem durante um novo take, compenetrados num silêncio autoritário antes de regressarem à escuridão da reta, com a arma ao ombro e o sentimento de dever cumprido.
    Após me contar o episódio, o José Pedro Lopes fez sempre questão que eu estivesse presente nas filmagens exteriores naquela localidade, para estabelecer o “elo diplomático”.

    Fotografia: Francisco Lobo

    Seguiram-se várias filmagens na região. Em Águeda, no Jardim da Venda Nova, em colaboração com o Coletivo Nora, projecto artístico-cultural que requalificou esse espaço; em Lamas do Vouga, na Ponte Velha do Vouga, cujo tabuleiro central desabou numa tempestade em 2011; no Cabeço do Vouga, na antiga ponte romana, também conhecida por Ponte Velha do Marnel.
    Depois vieram outras localizações, outras viagens. A mais longa levou a equipa até Espanha, ao parque natural de Sanabria. Uma das cenas cruciais do filme foi filmada lá, no lago glaciar, onde a actriz Lília Lopes mergulhou sob temperaturas negativas.

    Fotografia: Francisco Lobo
    Fotografia: José Pedro Lopes

    O trabalho de pós-produção foi longo. O filme mudou algumas vezes na mesa de edição. Havia três finais filmados e o que acabou por ser escolhido nem sequer estava no guião. Foi filmado no Verão de 2016 e adicionado ao filme, que já estava todo editado.
    O enredo de “Floresta das Almas Perdidas” – que como já devem ter reparado eu tenho evitado descortinar ao longo deste texto – possui motivos e intenções implícitas que se descobrem nos pequenos detalhes. Esse novo final, acentua essa descoberta.
    É assim que esse filme deve ser experienciado. Como uma descoberta. Atravessar a cortina e sentar sem imaginar a lufada de ar fresco que se vai sentir na pele, no cabelo… ou na espinha!
    A Floresta é dramática mas também arrepiante. Por vezes quente, outras gélida. Dualística, como o preto e o branco; mais do que estética, uma opção semântica, que enfatiza a melancolia de toda a história. E nesta história, como ponto de partida, basta a tagline do filme: “Dois estranhos conhecem-se no local mais triste do mundo, mas um deles está feliz por lá estar”.

    Fotografia: Francisco Lobo

    Embora a ação de “A Floresta das Almas Perdidas” não decorra na floresta de Aokigahara, inspira-se nela para criar o seu palco, uma floresta fictícia portuguesa com as mesmas idiossincrasias. Durante a fase de produção do filme, foram anunciadas duas produções de Hollywood a abordar a famosa floresta dos suicídios: “Sea of Trees”, de Gus Van Sant e “The Forest”, de Jason Zada. Ambos acabaram por estrear primeiro (2015 e 2016) do que o filme português (2017).  Não é difícil de prever a primeira reação de quem toma conhecimento disso: “Oh, os portugueses afinal não foram originais, a ideia para aquele setting tão inédita e adequada ao filme afinal foi copiada aos estrangeiros”. É natural, eu próprio pensaria o mesmo, com os indícios que teria à mão. No entanto, neste caso tenho conhecimento de causa para afirmar que os indícios, por mais óbvios ou flagrantes que possam parecer, estão completamente despidos de qualquer validade.


    Eu ouvi a premissa portuguesa em finais de 2012. Sei que o realizador se inspirou no sismo do Haiti em 2010, impressionado com a quantidade de oportunistas que surgiram no rescaldo da tragédia, com histórias de tráfico humano e raptos de pessoas por parte de quem vinha de fora.“Queria explorar a ideia que existe sempre alguém que tenta tirar vantagem, um oportunista macabro qualquer, mesmo nos cenários de maior crise humanitária”, afirmou José Pedro Lopes.

    E para o palco da sua história, inspirou-se em Aokigahara. No início de 2013, eu já tinha o guião nas mãos. Só em Dezembro desse ano é que foi tornado público o projecto de Gus Van Sant, cujas filmagens começaram no verão seguinte. O projecto de Jason Zada, surgiu um ano depois.
    Não é que isto seja relevante para o usufruto do filme. Não é, minimamente. Mas é um exemplo que nos demonstra que por vezes os indícios, por mais evidentes que pareçam, estão errados e induzem-nos em erro. E essa indução pode levar-nos a ser tremendamente injustos nas conclusões precipitadas que tiramos e cimentamos nas nossas convicções. “É mais do que óbvio”, “Tá na cara!”, “Oh, claro! És crente?”, entre inúmeros outros blocos que cinicamente assentamos de forma tão sólida mas que se desfazem em pó ao primeiro sopro da realidade.

    E a realidade tem sido amiga da “Floresta das Almas Perdidas”. Foi aplaudida de pé na sua estreia no Fantasporto. Viajou por festivais ingleses, australianos, americanos, suecos, camaronenses, eslovenos, suíços e espanhóis. Venceu dois prémios de “Melhor Filme”, no Festival de Cine Fantástico de Bilbao e no Triple Six Horror Film Festival, em Manchester. Fez furor em vários websites e e-zines de cinema fantástico. Teve uma crítica bastante favorável na Variety e foi considerado um dos melhores filmes de terror de 2017 pela Newsweek.
    Estreia esta semana nos cinemas nacionais. Atreves-te a percorrer a floresta?

     



  • AS FRONTEIRAS DA GUERRA (III – Amanhecer Violento)

    Na antiguidade era diferente. Ouvia-se o rumor ameaçador dos tambores quando um exército invasor se aproximava. Por vezes, entoavam cânticos de guerra. Quando atacavam de noite, carregavam archotes e eram as labaredas que denunciavam a sua proximidade e o seu número ao olhar petrificado do povoado prestes a ser invadido. Sempre que viajo numa autoestrada de noite e vejo os milhares de pontos de luz de uma cidade próxima, lembro-me desses tempos antigos, onde o fogo acusava a progressão inimiga ou os seus acampamentos. As chamas eram uma necessidade mas, acredito, muitas vezes eram também estratégicas. Um exército ciente do seu número, usava-o como elemento intimidador. Uma forma de condicionar ou minar a confiança dos potenciais conquistados. Talvez se rendessem ao amanhecer, sem ser preciso desembainhar uma única espada. Hoje é diferente.

    Estamos prestes a ser atacados e não há um único sinal sensorial que clarifique um pouco essa evidência. Não vejo nada, não ouço nada, não sinto nada. E no entanto, sei que eles vão aparecer. Somos só três homens nesta base russa e o inimigo sabe-o. É apenas uma questão de tempo. E o tempo custa a passar quando, à minha volta, só tenho a tranquilidade cínica da cabra desta noite.
    Não dizemos nada uns aos outros. Há muito que desistimos de iniciar qualquer tipo de conversa. Estes rostos só exprimem apreensão. Pouso a máquina fotográfica no chão e esfrego o rosto, a tentar despertar ou aquecer, já nem sei. Sei que matava por um café. Um café a escaldar, cujo copo de plástico me queimasse ligeiramente as mãos ao ser envolvido. O fumo a elevar-se, o aroma a tocar-me as narinas geladas. Nem sei o que está em pior estado, se o nariz, se as orelhas. Este maldito silêncio é ainda mais frio do que a aragem da noite. Da cabra desta noite.

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    Estamos numa das extremidades da base, posicionados junto a um camião militar estacionado perto da barreira de entrada. A tenda de campanha fica mais ou menos no centro. Tenho lá a mochila principal e decido ir lá buscar as luvas, um gorro e, especialmente, a credencial de jornalista, que pode vir a dar jeito no caso de uma rendição, para coagir os gajos a cumprir as Convenções de Genebra. “A não ser que executem também o jornalista, claro”, pensei, sorridente e com passada cada vez mais larga. “Bem, não se perde nada em tentar”.

    Não é fácil vasculhar a mochila no escuro. Só me falta encontrar a credencial, que nunca devia ter saído do meu pescoço. No preciso momento que senti a fita nos dedos, pressenti um movimento na lona da entrada da tenda. Conformado, ergui os braços e virei-me devagar. Encontro quatro canos de M16 virados para mim. Um dos soldados aponta-me uma lanterna à cara. Repito insistentemente a palavra “press”, mas como resposta só obtenho um rígido: “No ti muevas”. É um pelotão espanhol da coligação da OTANA. “Tienes um cinturón bomba?”, perguntam, enquanto me revistam dos pés à cabeça. “Just a jornalist”, digo, instintivamente em inglês, enquanto ergo a credencial. Do pouco espanhol que recordo das longínquas aulas no liceu na Mãe Rússia, pareceu-me que um deles instruiu o outro a disparar sem hesitação caso eu faça algo suspeito.

    Estou a sair com eles da tenda, preocupado com o paradeiro do Frix e do Ssnke, quando ouço um barulho proveniente de um arbusto próximo. Um dos soldados aponta para lá a lanterna e grita, autoritário, “OTANA! OTANA!”. A resposta é uma rajada de tiros. Reconheço a voz da supressora do Frix, antes de me atirar para o chão. Quando levanto a cabeça, há quatro corpos estendidos. Um quinto soldado debruça-se sobre um camarada prostrado com três orifícios ensanguentados na testa, alinhados e equidistantes, como reticências fatídicas. “Tres en la cabeza, tres en la cabeza”, grita insistentemente o sobrevivente, com os olhos muito abertos, perdidos num misto de angústia e estupefação. O Frix aponta-lhe a arma e dá-lhe ordem de rendição. Mas a única reação do pobre homem é apontar para baixo e repetir “Tres en la cabeza”. É assim a guerra. Quando não mata, enlouquece.

    Há mais vozes na distância. Corremos em busca de abrigo, que encontramos na barreira blindada de uma antiaérea.

    – E o Ssnke? – pergunto.

    – Está escondido no mato, no perímetro exterior da base.

    – Achas que se safa?

    O Frix não chega a responder. O inimigo detectou-nos e os disparos voltaram. Fincadas no escudo da antiaérea, as minhas costas estremecem sempre que as balas esbarram naquela barreira de metal. Um centímetro de grossura a delimitar a fronteira entre a continuidade do mundo e o vazio. Tenho sangue no ombro. Não é meu. Escorre de um buraco escuro na farda do Frix, que está de pé a operar a supressora.

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    – Estás ferido pá, temos de nos pôr a andar daqui…

    – Antes morto que vencido! – Grita Frix, enquanto prime o dedo no gatilho com toda a raiva do mundo.

    – ANTES MORTO QUE VENCIDO!

    – ANTES MORTO QUE VENCIDOOOO!

    O terceiro grito já é entoado em esforço. O ferimento é ligeiramente abaixo das costelas. Não faço ideia se é fatal ou não, mas sei que se morre devagar com ferimentos na parte de baixo do tronco. Está inclinado contra a barreira, com os oito quilos da PKM seguros no ombro direito. Esforça-se por manter a posição, as suas botas derrapam na terra. Olho para cima e o seu olhar está cambaleante como as suas pernas. Está na hora de sair daqui.

     

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    Resolvo recorrer à arma mais potente que tenho no meu coldre. A retórica. Disparo inúmeros argumentos, como o seu cadáver não ser útil à pátria nem à filha recém-nascida que o aguarda em Moscovo, ou o facto da missão primordial estar ainda por cumprir. Ou os companheiros de armas, que podem precisar mais dele neste momento do que uma base vazia. Acrescento ainda algum tempero:

    – Pá, eu não queria dizer nada para não lixar a tua concentração, mas quando estava a ser revistado na base ouvi uma transmissão de rádio dos espanhóis, onde mencionaram que estava em curso um ataque ao hospital de campanha onde está o resto do nosso pessoal.
    Os olhos do Frix dilatam-se, como a veia que lateja na sua têmpora por baixo da alça do capacete. Larga a arma, retira uma granada do cinto e mete-a na minha mão.

    – Estás a ver aqueles carros lá ao fundo? Está lá um dos jipes da nossa companhia. Não tenho a chave, mas sei onde eles guardam a suplente. Quando eu disser, vou começar a metralhar com força. Nesse momento, corres para aqueles caixotes e lanças a granada com toda a força para o flanco contrário dos gajos. Quero-os desnorteados. – Uma violenta tosse interrompe o seu discurso. Respira fundo duas vezes e prossegue:

    – A explosão não nos dá cobertura suficiente para chegar aos carros, mas dá para chegar àquele amontoado de mercadoria. A partir daí, podemos contornar aquela tralha toda e chegar ao jipe. A volta é maior, mas estamos ocultos pela tralha e pela escuridão. Estás pronto?
    Não espera pela minha resposta e começa a cuspir fogo com a sua PKM. Corro como nunca corri na vida e atiro-me para trás de um caixote do tamanho de um Fiat Panda. Olho para a granada. Esta merda nos filmes parece fácil. É só pressionar o gatilho, retirar esta cavilha… mas depois quanto tempo tenho? Cinco segundos? Menos? Porra para isto!
    A cavilha solta-se com mais facilidade do que esperava. Lanço de imediato a granada. Os segundos passam. Começo a questionar-me se aquela porcaria vai arrebentar ou não. Tenho os ouvidos a zunir. Arrebentou.  O Frix passa por mim, cada vez mais ofegante. Amparo-o no ombro e arrastamo-nos pela escuridão. O plano está a funcionar. Falta uma última corrida.

    – Só mais um esforço – digo, entredentes. Quando o faço, vem-me à cabeça um velho anúncio de televisão da Suchard Express, que não vejo desde a infância, onde um puto escala um beliche em busca de um São Bernardo e um copo de leite achocolatado. Já estou a ficar maluco com esta merda. O esforço é suficiente. Estamos no jipe. O Frix aloja-se na parte de trás e aponta para a caixa de ferramentas.

    – Matrioska… matrioska.

    Abro a caixa, remexo freneticamente as ferramentas e encontro a boneca da madeira. Desenrosco-a e encontro outra boneca. Só no ventre da terceira é que descubro a chave da nossa sobrevivência. Arrancamos a todo o gás, deixando para trás uma nuvem de poeira que se desvanece lentamente, tal como a voz do soldado russo.

    – Antes morto que venc…

     

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    Há uma revolução em curso no hospital de campanha. Sacos de soro arrancados, muletas partidas, frascos de comprimidos esvaziados na sanita. Os feridos russos exigem ter alta antes do tempo e estão dispostos a tudo para sair daqui. Desde que chegaram as notícias da base invadida que este hospital está em estado de sítio. Inevitavelmente, conseguem o que pretendem. Frix está bem. A bala entrou e saiu sem atingir nenhum órgão. Não houve fatalidades na 605ª nem no grupo paraquedista. Engessados ou remendados, todos saem daqui pelos próprios pés. Entoam o hino na carrinha de transporte e rejubilam quando sabem via rádio que as forças russas e o exército da ENA estão neste momento a tentar reconquistar a base.

    – Acelera nisso! Não queremos chegar lá no final da festa – grita Fragatov aos ouvidos do motorista.

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    – Passa-me o tabasco – diz Sturm, que recebe o frasco das mãos de King e o entorna para dentro da lata de chili com carne.

    – Esta merda não sabe a nada! É como estar aqui nesta base reconquistada. Não sabe a nada!

    – Calma Sturm – refere Spet – os outros camaradas também têm de ter os seus momentos de glória, ou não é?

    – Era nosso dever estar cá! A culpa é dos médicos, atrasaram-nos a vida toda! – responde Sturm, nitidamente arreliado.

    – Tranquilo meu tenente, eu já disse que lhe conto a história toda, com todos os detalhes e pormenores – riposta Ssnke.

    Todo o grupo ri às gargalhadas, incluindo Sturm, resignado, após simular um gesto ameaçador com o punho cerrado.

    Ssnke mantivera-se escondido no bosque durante a ocupação da OTANA e fora instruído, via rádio, a manter a sua posição furtiva e vigiar as movimentações inimigas até à hora do ataque, organizado por forças russas e abdulianas. Foi o único elemento da 605ª a participar na reconquista da base.

    – Cão sortudo! – brinca Fragatov.

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    A confraternização russa mantém-se animada no bunker durante mais alguns minutos, até ser interrompida pelo General Midlandov. Há mais uma missão pela frente, composta por dois objetivos. O primeiro é escoltar um elemento com ligações ao governo abduliano até Khali, onde vai efetuar um discurso político. A intenção é converter indivíduos com inclinações à causa rebelde e também dissipar eventuais focos de resistência. Consta que as suas capacidades de retórica são muito valorizadas no regime e foi sublinhada ao pelotão a importância de preservar a sua integridade física. Não temos informações sobre o seu nome. Vou apelidá-lo de “bol’shoy rot”, uma expressão típica russa que significa, literalmente, “boca grande” e figurativamente, “fala-barato”.
    O segundo objetivo – que curiosamente vai ocorrer antes do primeiro – é garantir o negócio de compra de um chip de navegação – fulcral para o lançamento do míssil – a ter lugar num armazém abandonado a poucos quilómetros da aldeia. Para esse objetivo, segue connosco um negociador que será responsável pela transação.

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    Os dois pelotões russos prosseguem apeados numa longa estrada de terra batida que atravessa o bosque e a madrugada abduliana. Passo a passo, avançam cautelosos e tensos, ainda com a recordação fresca da emboscada anterior.
    Entre nós seguem dois jipes, ambos com as luzes apagadas. Um com o bol’shoy rot, protegido pelos russos e outro com o negociador, protegido por forças ENA. Olho para a silhueta deste último, no banco traseiro do jipe que segue mais adiante. Vi-o momentos antes a entrar na viatura com uma pasta nas mãos, que deduzo estar cheia de dólares, como é comum na maioria das transações clandestinas nesta região. Privilegiam a moeda do país que desprezam. Irónico.

    Saímos da estrada principal e enveredamos por um trilho que leva a uma pequena clareira. Ao fundo avista-se a silhueta negra do edifício, ligeiramente mais escura do que o céu nocturno. O condutor do jipe da frente faz o sinal combinado: uma piscadela com os faróis. Se receber resposta, é porque os contrabandistas já estão lá. Após poucos segundos, um súbito e efémero clarão informa-nos que o negócio é para avançar.

    Olho para a minha máquina, pendurada a tiracolo e solto um longo suspiro. Por motivos óbvios estou impedido de recorrer ao flash quando acompanho as missões nocturnas. É uma grande condicionante para o meu trabalho, mas é preferível estar condicionado do que morto por inadvertidamente denunciar a nossa posição ao inimigo. Como os outros artifícios para aumentar a luminosidade não são os mais adequados para situações de movimentação rápida no escuro, opto por registar mais com o olhar e gravações de voz.

    O jipe com o negociador é o único a deslocar-se. Os russos permanecem imóveis, como a viatura que protegem. Resolvo acompanhar a ENA e assistir à negociação.
    A clareira está envolta em alguma neblina. Como se a situação já não tivesse carga dramática suficiente. A cerca de 10 metros do edifício, dois vultos desvendam-se na escuridão. O negociador sai da viatura e dirige-se a eles. Saúdam-se. Conversam. Apertam as mãos. Não há nada a negociar, o preço já estava acordado. O negociador, juntamente com o oficial da ENA, inspeciona cuidadosamente a mercadoria, enquanto um dos contrabandistas se ajoelha no solo a contar o dinheiro. Um soldado da ENA – que fala inglês e a quem tirei algumas fotografias ontem – aproxima-se de mim.

    – Se calhar é o teu dia de sorte, repórter.

    – Porquê?

    – Aqueles que tanto ansiavas encontrar…

    – Estás a brincar? – questiono, com o entusiasmo a apoderar-se de mim.

    O soldado assente com a cabeça, aponta para os dois elementos e assegura, frisando cada silaba da palavra:

    – Karkarianos!

    O soldado aceita abordá-los e, caso eles aceitem falar, servir de tradutor.
    Troca algumas palavras com o elemento que aguarda que o parceiro inspecione o pagamento.
    Regressa, encara-me dois ou três segundos com uma expressão séria, até se desmanchar num sorriso e dizer:

    – Tens cinco minutos. Aproveita-os bem.

    Tenho de pagar ao Karkariano. Duas notas de vinte. Divisas do diabo, claro. A única condição, para além das notas, é não tirar qualquer fotografia.
    Sentamo-nos em dois caixotes. Observo-o por alguns instantes. Fotografo-o mentalmente. A sua pele é cor de caramelo e os seus olhos são completamente negros. Veste uma longa camisa caqui, que lhe dá entre a cintura e os joelhos, juntamente com um velho e desbotado colete militar abduliano, cheio de bolsos. Tem um shemag cinzento-escuro enrolado à volta da cabeça que lhe cobre todo o cabelo e outro à volta do pescoço, que deduzo usar quando precisa de cobrir o rosto. Aparenta estar tranquilo. Talvez demasiado tranquilo para a presente situação. Resolvo aproveitar o pouco tempo que tenho e começo a disparar.

    – Descendes do antigo povo Karkariano, que se estabeleceu no local onde se travou a primeira grande batalha pela liberdade, onde 11 reis se uniram pela defesa da sua terra contra um invasor estrangeiro?

    – Sim.

    – Como te chamas?

    – Chama-me Karkariano.

    – Seria mais credível para o meu trabalho poder ter um nome.

    – O meu nome é Karkariano!

    – Qual é a tua principal ocupação, Karkariano?

    – Sobrevivente.

    Este gajo vai ser curto e críptico nas respostas – penso. Mais vale ir directo ao assunto.

    – É verdade que serves ambas as facções desta guerra?

    – Define facções, russo.

    – A coligação defensora abduliana-sovodka e a coligação invasora OTANA?

    – Acreditas em todas elas?

    – Elas quem?

    – Todas as palavras que te saem da boca.

    Ainda estou a digerir a resposta quando ele complementa:

    – Eu não acreditaria em todas.

    – Há alguma em particular que te cause descrença?

    – Defensora. Invasora.

    – Não é verdade que o teu país está a ser invadido por um exército estrangeiro?

    – Achas que sim?

    Não lhe respondo de imediato, embora já tenha definido a resposta. Sei que vou brincar com o fogo mas se quero obter mais dele, tenho de o espicaçar.

    – Eu acho que há um legado de honra com mais de dois mil anos de idade que deixou de ser o Norte nesse vosso instrumento – aponto para uma arcaica bússola que o Karkariano tem pendurada ao pescoço por uma fina corrente e que lhe cai até meio do peito.

    Ele olha para baixo e abana a cabeça enquanto arrota um sorriso cínico, sinal que digeriu ambas as analogias implícitas. Solta umas palavras irritadas em árabe que o soldado da ENA se recusa a traduzir, aponta-me o dedo e depois leva-o à sua têmpora direita.

    – Se calhar tenho mais coração do que tu tens miolos.

    – Não sou eu que tenho dificuldade em distinguir o significado das palavras invasão e defesa.

    – Não sejas condescendente comigo, russo. Os ocidentais estão cá porque querem invadir os nossos recursos naturais. Abdul há muito que invadiu os direitos do povo abduliano. E vocês, meus caros, estão cá porque querem partilhar essa invasão e a invasão dos ocidentais. Eles invadem pela força. Vocês, pelo aproveitamento da fragilidade alheia. E Abdul invade por essa noite que parece ter-se eternizado, onde dorme o sangue guerreiro deste povo. Todos invadem! Todos são invasores, russo.
    É notório o desdém com que foi pronunciada a última palavra. Olho para o tradutor e sinto-o desconfortável com o rumo da entrevista. Vai piorar antes de melhorar, meu caro. Abro a boca, mas o Karkariano antecipa-se:

    – Por isso não me fales em legados, nem em honra… e muito menos em invasores e defensores – afirma, enquanto retira um cigarro do bolso da camisa.

    – Sentes orgulho no que o teu povo se tornou?

    – Não somos nós que mudamos o tempo. Ele é que nos muda a nós.

    – O tempo ou o que está dentro dessa pasta?

    – Deixa-me que te diga uma coisa, russo.

    Pousa o cotovelo na mesa, sustém o queixo com a ponta dos dedos e inclina-se para mim, com as pupilas dilatadas com cinismo.

    – Só é possível fazer três coisas numa guerra. Morrer, matar e lucrar.

    O karkariano solta uma baforada do cigarro recém-acendido na minha direcção, aguarda alguns segundos – como que à espera que a nuvem se dissipe para que eu lhe possa ver o olhar a desafiar o meu – e pergunta:

    – Qual é que achas que eu prefiro?

    – Gostaria que fosses tu a responder a essa pergunta. Qual das três?

    – A que faz de mim o que eu sou. Um sobrevivente.

    Escrevo algumas notas no caderno. Não porque precise de registar a informação, toda ela já está no meu gravador. Preciso é de alguns segundos para decidir a próxima pergunta.
    Um zunido prolongado passa de rompante pela minha orelha esquerda e silencia-se após um impacto seco. Levanto a cabeça e já não tenho ninguém à minha frente. Há sangue a gotejar do meu rosto. Não é meu. Descubro a sua origem quando o fogo cruzado me obriga a mergulhar para o solo. Quando abro os olhos, estou cara-a-cara com o Karkariano, que tem um buraco enorme na cabeça. A sobrevivência esfumou-se dos seus olhos abertos, condenados a contemplar o seu eterno presente.

    – Fogo aleatório – afirma Sturm. – Foi ele, podias ter sido tu, podia ter sido ninguém. Os rebeldes não têm disciplina nenhuma, parecem baratas tontas com armas nas mãos.
    Foi, de facto, uma emboscada desorganizada. Ao todo eram seis rebeldes e foram rapidamente neutralizados. A única baixa do “nosso lado” foi, curiosamente, o “sobrevivente”. O outro karkariano conseguiu entrar no jipe e fugir agarrado à sua mala.
    Continuamos a marcha pelo mesmo caminho escuro que atravessa o bosque. Botas russas, apenas. A ENA escoltou o negociador e o chip de navegação de regresso à base. Nós seguimos com o “bol’shoy rot” rumo a Khali.

     

    Há neblina na aldeia. Dá-lhe um ar ainda mais tranquilo. – Demasiado tranquilo – afirma Spet.
    O tenente Sturm agarra nos binóculos e inspeciona demoradamente cada recanto do centro de Khali. As ordens são muito claras. Estabelecer um perímetro de segurança, entrar na aldeia, revistar todos os civis que encontrarmos e, só depois, é que o “bol’shoy rot” poderá sair do jipe e cumprir a sua função. Posto desta forma parece simples, mas é uma missão muito mais complicada do que parece. Há uma forte probabilidade de emboscada à entrada da aldeia e nenhum destes homens ignora isso. Antes pelo contrário, estão a contar com ela.

    – Se fosse eu, atacava por aqui – afirma Spet, com o indicador num ponto do mapa que assinala uma colina sobranceira à aldeia. Sturm e Frix acenam em concordância.
    Definem a estratégia: Vão fazer a progressão por entre um conjunto de obstáculos – carros, árvores, muros, atrelados, etc. – preparados para se abrigarem da colina ao mínimo indício de contacto. Há riscos. Se o ataque tiver outra origem que não a colina, estarão expostos.
    O tenente russo olha para os seus 11 homens. Um olhar que perdura alguns segundos. Nesse instante passam-lhe várias coisas pela cabeça, mas da sua boca apenas saem duas palavras.

    – Spetsnaz… davai!

    – DAVAI! – Responde o grupo, baixinho mas de forma uníssona.

    A progressão é lenta e calculada. Cada movimento, cada passo, cada galho seco que se evita. Já estamos à entrada da aldeia e por enquanto tudo continua calmo. Cinicamente calmo.
    Quando passarmos determinada esquina em segurança, será dada ordem para prosseguir ao jipe, que aguarda parado num local estratégico. A tensão é palpável.

    Um estrondo na chapa de um dos carros estacionados abre as hostilidades. Os russos abrigam-se. Seguem-se alguns segundos de fogo intenso, proveniente da colina.
    Estão a usar munições tracejantes. Os tiros arrastam-se na escuridão como estrelas cadentes, deixando um rasto verde florescente. Faz lembrar as imagens na Guerra do Golfo, embora nessa altura a tonalidade esverdeada se devesse apenas às câmaras de visão nocturna que transmitiam as imagens. Aqui, são os próprios tiros que têm essa cor. Deitado na terra, olho para cima, vejo-os cruzar o meu céu e perco-me no pensamento absurdo que me sussurra que ser metralhado é um espetáculo tão lindo quanto fatídico.

    – Desta vez não são rebeldes – diz King, com um sorriso sarcástico, a Sokol. Ambos estão sentados e com as costas na carroçaria de um velho Fiat branco. Tal como os outros russos, aguardam a ordem para responder ofensivamente à emboscada. Algumas dezenas de segundos e milhares de munições gastas depois, surge o grito ansiado.

    – SPETSNAZ… DAVAI!!!

    Com rígidas manobras de cobertura e avanço, os operacionais russos vão ganhando terreno. Os seus movimentos parecem mecânicos. Disparam poucos tiros. Disparam certeiro. Disparam a matar. Pouco a pouco, vão limpando sectores e ganhando liberdade de movimentos. As forças circundantes são aniquiladas. Permanecem alguns focos de resistência na colina, por isso é formado um perímetro defensivo à entrada da aldeia. Os restantes homens prosseguem com o “bol’shoy rot” rumo ao centro nevrálgico de Khali.

    Há mais movimento do que o esperado. Estão dezenas de pessoas na praça central da aldeia. Excelente para o discurso, péssimo para o esquadrão russo que tem de os revistar a todos. Os soldados dividem-se por sectores, mas os civis são imensos e o controlo é cada vez mais complicado. Numa das esquinas da praça há um café. É um espaço rústico, com uma enorme esplanada montada numa tosca estrutura de madeira rodeada por um toldo verde e branco. Spet entra lá dentro e consegue localizar dois elementos rebeldes escondidos. Estavam armados e com ferimentos ligeiros. O russo domina-os, prende-os com algemas de plástico (flex cuffs) e conduze-os ao exterior. Há um movimento súbito na esplanada. Uma cadeira que cai, um vulto que se ergue. Dois tiros são disparados e atinguem Spet. Um abduliano de turbante negro e shemag branco é prontamente abatido pelas forças russas e deixa cair a pistola que tinha oculta nas suas vestes. Há breves minutos tinha-o fotografado, enquanto aguardava a saída de Spet do interior do café. Disparei por instinto, intrigado com a sua expressão compenetrada e sisuda, que na altura até poderia ter sido suspeita, não fosse esse o semblante de todos os abdulianos residentes em Khali.

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    Spet está bem, foi atingido no ombro e no braço e Felipov já está a tratar dele. A situação na praça está muito instável, há um sentimento de ameaça suspenso no ar. Podem existir mais civis com armas dissimuladas e a OTANA pode enviar reforços a qualquer momento. O tenente Sturm faz uma análise da situação, considera que a integridade do “bol’shoy rot” não está assegurada e decide abortar a missão. De forma tão célere e maquinal quanto entrou, o pelotão russo abandona Khali em poucos minutos.

     

    Sturm abandona a tenda de comando com palmadas nas costas. O general Midlandov considerou acertada a sua decisão. Senta-se no chão junto aos seus homens e partilha as novas instruções.

    Uma divisão é destacada para pernoitar ao relento no bunker, para defender essa extremidade da base. Os restantes russos levantam-se e deslocam-se vagarosamente para a tenda central da base. Poucos minutos depois, vejo-os a regressar, carregados com mochilas e sacos-cama, e começam a instalar-se na zona à volta do bunker. Frix, nota o meu olhar de espanto.

    – Se ficam uns a dormir no mato, ficam todos – diz-me, com um rápido piscar de olhos.

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    Observo-os naquele buraco de terra, animadamente a partilhar vodka, cigarros, mantas, histórias de guerra. Nestes momentos de confraternização em zonas de combate, entram numa espécie de sintonia colectiva que os parece envolver e deixar imunes a todas as circunstâncias exteriores. Já tivera essa sensação na noite em que cheguei a Abdul e convivi com eles no primeiro acampamento. Essa peculiar intimidade com a guerra, como aquele inimigo que se mantém próximo para controlar a sua nocividade, ou o veneno que se beberica aos poucos para ganhar resistência à sua toxicidade.
    Ouvem-se tiros distantes, disparados algures neste imenso bosque. Olho para o fumo do cigarro que se eleva no ar gelado de Abdul. Já vai a meio e mesmo assim será uma noite longa.

     

    O sol arreganha os olhos de Barna, que acorda junto ao corpo frio da sua Miss Vintorez. Pergunto-lhe sobre a alcunha. Ele sorri, com os olhos nela, e responde:

    – Sexy, fatal e silenciosa!

    A admiração é partilhada por outros olhos russos. A VSS Vintorez é uma arma de eleição nas forças SPETSNAZ. Desenhada para missões clandestinas, tem um forte silenciador, dispara munições que perfuram blindagem e desmonta-se em várias partes para ser transportada ou ocultada.

    O grupo começa a reunir. Juntam-se junto ao fogareiro, atraídos pelo cheiro de café acabado de fazer. Não há chávenas para todos, há que improvisar. Barna tira um facão de mato da cintura e corta o fundo de uma garrafa de plástico.

    – Já tenho chávena!

    Durante esses momentos de convívio matinal, fico a saber que houve um ataque de uma patrulha da OTANA durante a madrugada. Bem organizados, conseguiram penetrar na base através de um ponto de acesso vulnerável, aproveitando o facto de 70% dos operacionais estarem a dormir. Porém, não conseguiam tomar a base devido a um pronto contra-ataque das nossas tropas. Perante a iminência de um reforço das nossas linhas, não tiveram outra alternativa que não retirar.

     

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    Este sol matinal está particularmente quente. Há quem aproveite para estender equipamento, humedecido pelo orvalho e há quem esteja compenetrado com os olhos no horizonte. Um míssil nuclear vai ser lançado dentro de poucas horas.

    Sturm é chamado ao posto de comando. Há imensa curiosidade e alguma especulação entre os seus homens relativamente à tarefa que terão pela frente. Regressa com alguma apreensão no olhar. Uma das unidades de combustível sólido para o míssil foi destruída durante a noite por uma operação inimiga. Para garantir as reservas, é necessário obter uma nova unidade, enterrada nos bosques de Abdul.

    – E então, qual é o problema? – Questiona Ssnake. – Já resgatámos uma, resgatamos outra – complementa.

    – O problema, meus caros, é que esta está localizada nas imediações de uma base da OTANA – elucida Sturm.

    – Epá, mas quem foi o nabo que enterrou a unidade num ninho de vespas? – Vocifera Frix, nitidamente incomodado.

    – Foi deixada aí por um erro de cálculo por parte da equipa responsável. Após ter-se detectado o erro, o comando esperava que nunca viesse a ser precisa. Afinal vai ser precisa e nós temos a responsabilidade de a resgatar.

    O pelotão russo está de regresso à estrada. Ao mesmo caminho de terra que parece igual a tantos outros na imensidão deste bosque perdido algures no coração do Médio Oriente.

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    Quando se aproximam do local, a estupefação é geral. A base está armada até aos dentes e o ponto de extração fica a apenas 30 metros da mesma. Mas não há tempo para queixumes. O relógio está em contagem decrescente, é preciso definir a estratégia e avançar. Os homens dispõem-se num terreno ligeiramente elevado, de forma dispersa mas apoiada e avançam. O contacto é inevitável e estala poucos instantes depois. A troca de tiros é incessante. Os russos posicionam-se estrategicamente, mas o avanço é lento. Exasperadamente lento. Sturm consulta o relógio de forma compulsiva. Os ponteiros não param.

     

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    É durante este impasse que decido cometer a maior loucura de toda esta minha missão jornalística. A Oeste da base há uma pequena barreira defensiva com três soldados da OTANA. Não está na zona directa de fogo, apenas está a proteger aquele flanco, de onde eu sei, de antemão, que não advirá nenhum perigo. É a oportunidade de registar o outro lado da barricada. Se começar a racionalizar, não vou sair daqui. Levanto-me instintivamente e começo a percorrer esse caminho menos percorrido. Percorro-o com as duas mãos erguidas, uma com a máquina, outra com uma t-shirt branca que tinha no meu saco de reportagem. A cada passo, repito em pensamento: “se te fossem matar já estavas morto, se te fossem matar…”. Já estou próximo o suficiente para ver os canos da arma apontados na minha direcção.

    – Press, press – aviso, agora com a credencial erguida.

    Após revista minuciosa, permitem-me entrar na pequena trincheira. São dois soldados e um jovem, que deduzo pertencer às melícias rebeldes. Os soldados pertencem a um pelotão espanhol da OTANA. Talvez os mesmos que ontem invadiram o nosso espaço. Hoje, invado eu o deles. Um dos elementos está equipado com um lança-granadas e tem uma barba que, juntamente com os óculos escuros, faz lembrar o Chuck Norris. Pergunto em inglês se aceita falar comigo, acena que sim com a cabeça e oferece-me um cigarro. É natural de Vigo, no norte de Espanha e pertence a uma unidade militar chamada Terag. É veterano, com muitas guerras nas costas. Está nesta “de corpo e alma pela defesa da liberdade”.

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    Consigo avistar a base da OTANA à distância. Pergunto se posso usar a teleobjetiva para fotografar a entrada da base, apenas em busca de pormenores quotidianos da vida militar, nada de natureza estratégica. Contrariamente ao que esperava, diz-me que posso tirar cinco fotos, desde que ele as possa rever e comprovar que não contêm informação privilegiada. Aproveito a oportunidade sem hesitar.

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    Disparo, passo-lhe a máquina para a mão, recebo-a de volta, volto a enquadrá-lo, carrego no obturador, peço-lhe o endereço e digo:

    – Se ambos sairmos disto vivos, esta fotografia chegará à tua casa.

    Aperto-lhe a mão e inicio a caminhada para a colina russa, sem olhar para trás.

     

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    O pelotão ainda está preso no mesmo local. A base inimiga permite ao inimigo continuar permanentemente a reforçar a zona de pressão, o que impede a progressão e está a impossibilitar a execução da missão. Sturm está reunido com alguns elementos a tentar reajustar a estratégia, quando é interrompido por um contacto via rádio. É o posto de comando. O aeroporto está sob ataque e na iminência de ser conquistado pelo inimigo. O general Midlandov dá ordem imediata de retirada e requer a concentração de todos os esforços no aeroporto. O pelotão arranca de imediato.

    – Mas o míssil pode ser lançado sem a unidade de combustível que vínhamos buscar? – Alguém pergunta.

    – Era uma unidade de reserva. Uma redundância de segurança – alguém responde.

    – Tens a certeza?

    Ninguém responde, porque ninguém tem a certeza. A única convicção que têm é a necessidade de proteger o aeroporto. É impreterível que o míssil seja lançado à hora designada, caso contrário, segundo indicações superiores, o efeito surpresa estará comprometido e será necessário abortar a missão primordial. A que trouxe esta força especial a este teatro de operações. Faltam 170 minutos.

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    Quarenta minutos depois, o pelotão russo está posicionado no topo da colina de onde partiu em conquista do aeroporto no dia anterior. Terá de repetir a façanha, pois o aeroporto foi tomado pelas forças inimigas. O grupo reúne rapidamente. Vão tentar reeditar a manobra do dia anterior. Faltam 110 minutos.

    Quando estão a parcelas as tropas, alguém alerta para a presença de um grupo de civis armados na retaguarda. Todas as armas são instintivamente apontadas para lá. Sturm ordena ao grupo que permaneça onde está. O líder da milícia aproxima-se. Sturm reconhece-o.
    Lidera uma melícia anti-rebelde. Reúne com ele.

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    – Vamos executar as nossas manobras, podem seguir atrás e dar apoio, desde que não comprometam a nossa operacionalidade – informa o tenente russo.

    Nota-se um certo desconforto nos soldados russos por terem estranhos armados, lado a lado com eles. Spet avista um indivíduo a descer pelo flanco esquerdo, de shemag ao pescoço e pistola nas mãos, duas características que não lhe trazem boas recordações. Interpela-o.

     

     

    O pelotão posiciona-se e começa a descer a colina.
    Uso a teleobjetiva para espiar o aeroporto. Está cheio de forças inimigas. Numa trincheira na base da colina estão tropas da ENA, em nítida dificuldade. No bosque do outro lado do aeroporto está a força especial da ENA (Geada), a tentar a progressão por aí. O fogo inimigo é intenso e dificulta a descida dos russos. Faltam 80 minutos.

     

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    A muito custo. Atingimos a trincheira. Há inúmeras baixas no exército abduliano. A progressão para o aeroporto é impossível a partir dali. Neste preciso momento, há um veículo de transporte a reforçar a presença inimiga no local. Faltam 60 minutos.

    Sturm olha para o relógio e analisa a situação. Decide alcançar o bosque onde está a força especial da ENA. A ideia é limpar todo o sector desse bosque primeiro e depois poder atacar o aeroporto a partir do flanco sul, dividindo a atenção inimiga entre o exército da ENA a Norte e as forças especiais russas e abdulianas a Sul. O plano é arrojado e requer a travessia de um descampado na lateral do aeroporto. Dá a ordem, os soldados da ENA iniciam o fogo de cobertura e o pelotão russo avança, sem hesitar, em passo de corrida.
    Faltam 50 minutos.

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    O último russo mergulha para a caruma. Conseguiram atravessar sem baixas e já estão no bosque. Iniciam rapidamente a progressão em direcção ao som dos tiros. Numa zona densamente arborizada, encontram a unidade da ENA em acesa batalha. Posicionam-se, usam as árvores como escudo. Faltam 40 minutos.

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    Sokol, o segundo médico de serviço, agoniza no chão com ferimentos. Felipov está desaparecido. E a chuva de chumbo continua. Um militar da ENA pede fogo de cobertura, dá uma corrida e consegue resgatar o russo. Não pára de chover. Gritos em todas as línguas ecoam pelo bosque. Espanhol, inglês, abduliano… e russo. Chove. Vejo a desesperança nos olhos de alguns homens quando colocam o último carregador na arma. Será ali o fim?

    – Davai, tovarish. Davai!

    Os russos injetam confiança uns nos outros. A chuva nunca mais pára. Alguns estão encharcados e mesmo assim progridem, arrastam-se pelo mato vertendo o sangue da terra mãe neste solo infértil. Cada metro conquistado é uma vitória. “Davai!”. Quando não se diz, pensa-se. Cada abertura para fogo é aproveitada, cada tiro apaga uma vida. Chove menos.
    O último disparo troveja por todo o bosque como um relâmpago solitário. Segue-se o silêncio e uma nuvem de pólvora que se desvanece com todo o vagar do mundo, até permitir a Sturm um vislumbre do relógio. Um arrepio perfura-lhe as costas como uma bala.

     

    As hélices do helicóptero têm um som tão cadenciado que quase surtem um efeito hipnótico. Ou será que quis dizer meditativo? Talvez seja meditativo. Já dei por mim a pensar em várias coisas desde que levantámos voo. A incondicionalidade do companheirismo, o baixo custo de uma vida perante a cotação de uma ideologia, as palavras do Karkariano, todos os órfãos desta guerra e o quão frívola é a ambição de carreira que empurra um jornalista para uma realidade destas.
    Encaro a quietude desconcertante destes homens. Nenhum deles está aqui por ele próprio. Nenhum deles se submeteria a tudo isto apenas por ele próprio. Talvez seja imperativo para nós, jornalistas, interiorizar esse exemplo.
    Sturm permanece calado, no canto do helicóptero. Acabaram por conquistar o aeroporto, após mais algumas horas de combate, mas a missão foi abortada. Contemplo a sua expressão taciturna e adivinho-lhe o pensamento. Todos os triunfos alcançados no Afeganistão, Chechénia, Daguestão, Ossétia do Sul, Georgia, Crimeia. Todas as medalhas que não pode exibir por serem Operações Clandestinas. Tudo isso esvaecido neste momento e um ego que só não está vazio por causa da determinação dos seus homens, os seus irmãos de guerra, a sua única família.

    Provavelmente os seus superiores não vão tolerar o seu fracasso. Talvez até dissolvam a unidade, apesar de todos os sucessos passados. Resta-lhe então aproveitar em silêncio cada instante com os seus irmãos neste MI24 rumo a casa.

    Alguém me interrompe o momento instrospectivo com uma palmada no ombro. Olho para o lado e vejo o Frix a estender-me mais uma garrafa daquelas cervejas estranhas com sabor a limão.

    – Nadrovia, Viktov.

    Não resisto e pergunto-lhe sobre o possível estado de espírito do seu tenente.

    – Deixa-o estar. Ele está numa guerra interna neste momento. Parte dele está invadida por um sentimento de dever não cumprido. E isso é corrosivo para ele. É como mil estilhaços a ferver dentro do seu corpo. Mas depois há outra parte dele que sente alívio por voltamos todos para casa. Essa última parte vai acabar por arrefecer o resto.

    – E achas que o desfecho vai ser positivo para ele, em Moscovo?

    – É a sua extrema dedicação que o está a fazer sofrer. E vai ser ela mesma que no fim o vai proteger.

    – E o resto? O futuro a partir daqui?

    Frix encosta a cabeça ao pequeno quadrado na fuselagem do IM24 e observa o corrupio das nuvens que lá fora parecem passar por nós a correr. Tudo parece passar tão rápido. Responde-me, pausadamente, com o olhar ainda preso na janela:

    – Vou pensando no que virá depois. Vou pensando como virá o depois. Mas agora só quero voltar a casa.

     

     



  • AS FRONTEIRAS DA GUERRA (II – A Noite de Todos os Perigos)

    – É agora repórter! Chegou a minha hora das medalhas e vou estar à altura. DAVAI!!!

    O grito de Spet é repetido por todos os russos que, mesmo com noção do elevado número de tropas inimigas que têm pela frente, avançam de forma decidida.

    Horas antes, o pelotão 605 tinha sido incumbido de conquistar o aeroporto de Abdul, cercado por rebeldes e forças da OTANA. É lá que está armazenado o míssil que vai ser lançado amanhã. É fulcral limpar o terreno de todas as forças hostis.
    O tenente Sturm reuniu as suas tropas e delineou um plano arrojado. Tentar avançar sorrateiramente pelo mato e flanquear o inimigo, investindo de surpresa na sua retaguarda, nas traseiras do aeroporto.

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    Estávamos a ser bem-sucedidos na progressão quando uma patrulha do Exército Nacional de Abdul (ENA) nos avisou, via rádio, que estávamos a ir ao encontro de “um ninho de vespas”. A Otana tinha montado um acampamento nessa zona e, naquele preciso momento, havia “uma horda de inimigos” a caminhar na nossa direção. A ordem para retirar surgiu tardiamente e o contacto foi inevitável.

    [Vídeo – Recuada estratégica]

    Após uma retirada com apenas uma baixa (um ferido), o pelotão russo reagrupou. Reorganizou a força, remuniciou os carregadores e partiu novamente para combate. O plano B é subir uma colina que abraça o aeroporto do lado Este e atacar a partir daí. A subida é lenta e cansativa, mas o ânimo russo mantém-se em alta. Há quem aposte sobre quantos “invasores americanos” irá matar.
    Atingimos o topo da colina. Os confrontos lá em baixo são audíveis.
    Sturm analisa o cenário e decide parcelar as forças. Avança pela direita com os paraquedistas e encarrega SPET do comando da 605.

    [Vídeo – Planificação]

    O avanço faz-se rápido. Há imensa resistência junto à entrada do aeroporto. Há algumas baixas no local, algumas que sucumbiram súbita e inesperadamente, o que induz presença furtiva na área. Talvez um sniper na densa vegetação junto à estrada. O pelotão russo avança, tão estratégico quanto determinado.

    [Vídeo – Ataque ao Aeroporto]

    A louca bravura do médico Felipov permite recuperar alguns feridos. Já não é a primeira vez que as suas arrojadas intervenções no terreno são notadas. Na emboscada anterior, chegou a ser aconselhado pelos companheiros a resguardar-se mais, face à sua importância operacional. “Tem calma que és médico”. Ele ouviu e assentiu. Mas continua a não olhar a meios para cumprir o seu juramento de Hipócrates.

    O inimigo já estava a ser fortemente fustigado pela ENA – munida de uma viatura de combate – e foi incapaz de suster a fúria dos russos. Numa estocada final, fazem-no capitular pela terceira vez esta tarde.

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    Poucos momentos depois, levanta-se uma nuvem de poeira ao longe, bem no fundo de uma longa recta de terra que atravessa o bosque. De imediato ouve-se o barulho metálico dos carregadores a serem introduzidos. Os russos estão prontos para o que der e vier.

    – Terão tido tempo para reagrupar? Já? – questiona King.

    Sturm não responde. Continua com o olhar preso na distância.

    – Nunca vi ninguém gostar tanto de levar na tromba! – afirma Barna, com o dedo nervosamente colado ao gatilho da sua VSS Vintorez.

    – Alto homens! – grita Sturm – Está tudo bem. São os capacetes azuis.

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    É uma patrulha da ONU, que já tínhamos encontrado esta manhã em Khali. Estão em Abdul para salvaguardar a segurança das populações locais. Sturm dirige-se a eles. Já os conhecemos, por isso o diálogo é facilitado. Inspecionam o local e certificam-se que os únicos cadáveres envergam fardas militares. Uma rápida troca de continências e são novamente uma nuvem na distância.

    Sturm acompanha-os com o olhar. Quando os perde de vista, dá meia-volta, retira a bandeira da Federação Sovodka de uma mochila e, simbolicamente, volta a hasteá-la à entrada do aeroporto.

    – Foi com particular orgulho que vi o topo do mastro virar vermelho e azul, as cores da terra mãe – confessa-me Spet.

    Com a moral em alta, os russos regressam à base.

    [Vídeo – Moral Russa I]

    No confronto no aeroporto, o pelotão russo travou conhecimento pela primeira vez com a força aliada de Abdul que os vai auxiliar nesta delicada missão. Trata-se de uma unidade especial do exército nacional de Abdul (ENA), composta por seis elementos. Todos filhos de Abdul e unidos por um desígnio comum: libertar a região de qualquer ocupação estrangeira.
    Neste preciso momento, convivem com os russos na base e partilham com eles algumas garrafas de doogh. Uma bebida tradicional de Abdul, feita à base de iogurte carbonizado, pimenta e menta. Alguns russos fazem caretas ao provar, outros apreciam a sua natureza exótica.

     

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    Num canto da mesa está Maryana mawrana. É a primeira mulher a integrar o exército de Abdul. Num país cuja crença religiosa proíbe qualquer função das mulheres no exército, ela foi a primeira a lutar por esse direito. Ignorou gargalhadas e forçou a entrada nos campos de alistamento. Calou gargalhadas ao obter índices altíssimos nos testes físicos. Fez engolir gargalhadas com os furos exímios no centro dos alvos no campo de tiro. Histórias da sua resiliência chegaram aos gabinetes do ministério abduliano, tendo o líder decidido aceitar a sua presença para defender o seu país e a sua causa. Hoje, todas as gargalhadas são recordações distantes, ecos desvanecidos pelo tempo.
    Maryana permanece impávida no seu canto. Farda justa cor de noite, lábios rosados, cabelo longo castanho e um olhar assassino.

    Questiono-a sobre as suas motivações, mas a resposta de Maryana não é imediata. Pousa o copo na mesa e observa o líquido a baloiçar, como vagas de tempestade num oceano vítreo. Uma tormenta contida num invólucro sereno. Talvez também seja assim com ela.

    – Combater e expulsar os opressores daqui. E trazer a paz e um futuro melhor para as famílias e crianças de Abdul – responde-me, num inglês com sotaque carregado, a ponte linguística comum que arranjámos para comunicar.

    Começo a esboçar uma segunda questão, mas ela interrompe-me.

    – Nem é um futuro melhor… é um futuro! Entendes? Enquanto o ocidente aqui estiver não há futuro. Apenas interesses que não são os nossos.

    – O que te dá força para voltar a vestir a farda e pegar na arma, dia após dia? – Pergunto.

    – Raiva. É a raiva que me alimenta.

    O sol trespassa o vidro da garrafa de cerveja e cria um efeito de luz curioso, uma espécie de baioneta de luz, esguia e afiada, projetada no verde-escuro da mesa de campanha. A imagem apodera-se do meu imaginário e das minhas memórias. O meu bisavô materno esteve nas trincheiras da frente oriental na primeira grande guerra. Relembro as histórias que ouvi vezes sem conta sobre os dois anos que ele passou naqueles buracos, onde o companheirismo era a melhor arma de sobrevivência. Será que algum destes homens teve antepassados nessas batalhas? Serão essas memórias manchadas de tragédia ou avivadas por esperança?
    Estou longe de o saber neste momento, mas mais tarde, quando me sentar na segurança da minha redação moscovita a escrever estas linhas, será com alguma amargura que irei constatar que nunca me lembrei de obter essas respostas. Talvez. A única palavra que me resta.

    Por mero acaso, olho para a minha direita e vejo Sturm a sair em passo acelerado com a sua unidade. Deixo a cerveja a meio, agarro apressadamente na máquina fotográfica e corro na direcção deles.

    [Vídeo – Qual é a missão?]

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    O trajecto é longo. Atravessamos mato cerrado, terreno aberto, descemos encostas. Ao sair de uma zona arborizada, Sokol e Ssnke atiram-se para o chão, mesmo antes de serem sobrevoados por uma rajada de tiros. Demos de caras com uma força inimiga. Os russos reposicionam-se, desenvolvem manobras de flanqueamento e vão penetrando cada vez mais na densa vegetação, aproximando-se do inimigo. São milícias abdulianas. Após intensas trocas de tiros, estas vão recuando, o que encoraja os russos a prosseguir cada vez com mais determinação. Metro a metro, num jogo de argúcia e paciência, os russos vão conquistando terreno. Após várias baixas, as milícias acabam por retirar.
    Ninguém celebra a vitória, pois ela custou caro. Fez o pelotão perder tempo importante e desviar-se da rota de uma missão de extrema importância.

    – Papa, bravo, zero, um, escuto.

    Sturm reporta o contacto com o inimigo ao centro de comando, tal como o consequente desvio de rota. De imediato, o general Midlandov decide activar um plano de contingência e lançar mais uma unidade militar em busca do combustível. Nada mais, nada menos que a força especial da ENA.
    Essa decisão sublinha a importância da missão. O míssil de cruzeiro carece de combustível sólido, fulcral para a ignição e lançamento. O mesmo foi enterrado em diversas zonas de Abdul, uma estratégia de segurança para contornar a vigilância dos satélites da OTANA, preparados para detectar a presença deste tipo de combustível. Estão enterrados em contentores especiais. Cada contentor tem a coordenada que localiza o seguinte. O contentor que procuramos é o derradeiro e mais importante de todos.

    Após uma pequena pausa, a 605 prossegue. Percorremos vários quilómetros pelo mato. Há dúvidas sobre o trajecto. Existe a possibilidade de já se ter passado a linha de água que servia de referência na carta militar. Resilientes, os russos prosseguem, mas a fadiga começa a pesar. Perspicaz, Spet perceciona a minha percepção e aborda-me: “Repórter, à medida que o cansaço se instala, a malta começa a avacalhar a estratégia toda, é normal. Negligenciam-se posições, as armas vão apontadas para baixo em vez de irem operacionais… mas quando a acção chegar o pessoal reanima de imediato”, refere, com um piscar de olhos a antecipar um sonoro “davai, davai”.

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    Decido ajudar a levantar a moral e proponho uma foto colectiva, num ponto cénico, com as cordilheiras a perderem-se de vista no horizonte. Nunca se sabe se estes doze camaradas de armas voltarão a estar juntos.

    IMG_2462Já começa a entardecer quando deparamos com uma íngreme descida com cascalho solto. Dois jipes estão lá em baixo. Sturm requisita os binóculos. Chegámos ao nosso destino. A brigada da ENA já acompanha a equipa de transporte e o engenheiro químico, que é o único elemento autorizado a desenterrar e manusear o contentor. Após perscrutar o terreno com um detector de metais, o engenheiro químico localiza a carga e ocupa-se da sua tarefa.
    É decidido que as três brigadas vão escoltar a equipa de transporte até à base.
    Antes de iniciarmos o percurso, sou abordado por dois elementos da brigada abduliana. Não falam inglês, mas por gestos pedem-me para registar um momento único: Maryana mawrana está a sorrir.

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    O general Midlandov decidiu fraccionar as forças para gerar manobras de decepção durante o longo percurso até à base. Numa bifurcação com duas rotas florestais, parte das forças segue pela direita, outra pela esquerda. Sigo com estes últimos. Já está um pouco escuro, especialmente neste bosque denso, mas as nossas viaturas seguem com os faróis apagados, para não denunciar a nossa posição. Mas alguém não teve o mesmo cuidado. Ouve-se um motor à distância e poucos segundos depois distinguem-se dois pontos de luz. O pelotão esconde-se de imediato no mato. Serão forças aliadas, neutras ou inimigas?
    Decide-se armar uma emboscada, que será coordenada por Spet.

    – Ao meu sinal, é para bloquear a estrada. Se eles não pararem, abram fogo!

    Russos e abdulianos aguardam com a ansiedade à flor da pele. O ruído rouco do motor está cada vez mais próximo.

     – DAVAI!

    Vários homens saltam ao caminho da viatura e cercam-na. Bingo! É uma carrinha branca, de transporte de tropas da OTANA. A viatura trava. É dada ordem para desligar o motor. Não é acatada. Ouve-se uma rajada de tiros a embater na chapa e, finalmente, o ruído do motor cessa. Os dois soldados que seguem na frente levantam as mãos. Spet abre a porta traseira e nem quer acreditar. Um pelotão inteiro da OTANA capturado, sem qualquer baixa para qualquer um dos lados. A fria e cirúrgica astúcia russa, mais uma vez em acção.

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    Esta patrulha inimiga tinha sido enviada com a missão específica de impedir o transporte do combustível. Estando aniquilada, aguarda-nos um trajecto tranquilo até à base, que percorremos com índices anímicos mais fortalecidos do que nunca.

    [Vídeo – Moral Russa II]

    – Jardineira? Detesto esta merda!

    – Eu gosto, dá cá.

    Já não falta muito para cair a noite e os russos convivem numa trincheira de protecção, localizada nas traseiras da base. Chamam-lhe “o bunker”. Trocam-se rações de combate, fumam-se cigarros, erguem-se copos com vodka em nome do dia vitorioso.

    Alguns homens aproveitam o momento de tranquilidade para descansar. Outros usam o telefone satélite para ligar para casa. Têm direito a poucos minutos, por isso tentam aproveitá-los bem. Não sei do que falam, mas há olhos a brilhar deste lado da linha.
    No grupo, há três homens com russas grávidas em casa. A custo, tentam confortá-las, assegurando estar a salvo e em boas mãos no seio deste grupo. É uma meia-verdade e ambos os lados da linha têm noção disso. Fingem acreditar. Por mais confiança que cada um destes homens tenha no camarada do lado, eles sabem que a guerra é um ser traiçoeiro. Mente como um político, é inconstante como uma arma “Made in USA” e manhosa como uma víbora das estepes. Nenhum deles sabe o que os espera do outro lado da cortina da noite.

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    Um dos soldados trouxe uma caixa de umas cervejas caricatas, com sabor a limão. Os outros russos desdenham-nas. Apelidam-nas de camka napitok, “bebida de fêmea”. Mas ele é apreciador e farta-se de rir com as caretas que os companheiros fazem ao simples vislumbre da garrafa. Oferece-me uma. Aceito. O sabor é estranho, mas não é desagradável. Quando dou por mim já vou na terceira garrafa de bebida de fêmea, quando somos alertados para uma nova missão.

    O pelotão está encarregue de escoltar um emissário a uma aldeia das redondezas, onde irá reunir com três líderes de facções rebeldes. Leva consigo uma mala com dinheiro para os subornar e convencer a aderir à causa russa/abduliana. Ou, pelo menos, para assegurar uma posição neutra, sem interferências no nosso trabalho.
    O emissário segue num jipe e o nosso pelotão escolta-o a pé. É uma missão de alto risco. A escuridão é absoluta e o perigo parece espreitar por trás de todas as silhuetas das árvores.

    Salto para dentro do jipe e troco algumas palavras com o emissário. É evasivo e enigmático. Não insisto e volto para a estrada. Sigo a pé na companhia de frix. Está uma noite escura, mas tranquila.

    – Demasiado tranquila para o meu gosto – confessa Frix, com apreensão no rosto.

    Continuamos em progressão lenta, com as luzes do jipe apagadas e todos os sentidos bem acesos.

    Subitamente, dois feixes de luz emergem da escuridão e colam-se aos nossos soldados. O brilho intenso no meio de todo aquele negrume cega-nos. Não temos noção de quem nos cerca no mato. Apenas sabemos que acabamos de cair numa emboscada.

    – OTANA, rendam-se! – Alguém grita da escuridão.

    Sturm e Spet seguiam à frente. O tenente hesita por alguns segundos. Talvez as forças inimigas estejam em minoria. Talvez aproveitem o escudo noturno para tentar fazer bluff. Talvez estejam desesperados do outro lado da cortina negra.

    – Ninguém baixa as armas. Armas apontadas e prontas a disparar – ordena o oficial russo.

    – Não vamos voltar a avisar – alerta o soldado da OTANA. – Ou rendem-se ou morrem.

    – Ninguém larga as armas – grita Sturm.

    A tensão sente-se no ar. É espessa como esta aragem húmida de fim de verão. Cola-se à pele, escorre e goteja a partir das têmporas apertadas pelos capacetes.

    Spet intervém:

    – Caros amigos… Ou ambos recuamos e fazemos de conta que este contacto nunca existiu. Ou então partimos para a estupidez.

    Olho para o lado e vejo Frix, Sokol e Ssnke com os dedos famintos no gatilho.

    – É para partir para a estupidez?

    Não chega a haver resposta. As rajadas de tiros ecoam por todos os lados. Balas a voar na escuridão em todas as direções. Há gritos ensurdecedores. Alguns de raiva, outros de dor. O caos impregnado numa noite sórdida de Abdul.

    Paramos de correr. Tentamos a todo o custo ouvir passos e ruídos denunciadores à distância, mas é impossível silenciar a nossa respiração ofegante. Há incontáveis minutos que corremos sem parar pelo meio do mato. Devemos ter sido perseguidos por um pelotão inteiro. É possível que os tenhamos conseguido despistar. Estou com o Frix e o Snnke. Frix contacta Sturm pelo rádio. À quarta tentativa consegue estabelecer contacto. Temos 10 feridos, alguns graves. A nossa manobra evasiva desviou a atenção do inimigo e permitiu que o jipe que nos acompanhava pudesse resgatar os feridos. Alguns agonizavam de dor, mas insistiram que a viatura passasse primeiro por Khali para deixar o emissário. Primeiro a missão, depois o hospital. São assim os russos.

    Frix guarda o rádio com orgulho estampado no rosto.

    – Missão cumprida. Vamos para a base.

    Após cerca de hora e meia de caminhada nocturna, avistamos finalmente a bandeira russa. Avançamos para a guarita. Não está ninguém a tomar conta do portão. As tendas estão às escuras. O silêncio é absoluto. Rendemo-nos às evidências: Estamos sozinhos na base.
    As forças da ENA devem estar noutra missão. O alto comando está reunido em localização secreta com o engenheiro químico. A esmagadora maioria da nossa unidade está no hospital de campanha. Estamos entregues a nós próprios.

    Vou ao meu saco buscar uma cerveja. Está morna, mas vai ter de dar. Procuro o Frix. Está junto ao Bunker. Dirijo-lhe algumas palavras mas ele não responde. Acho que nem me ouviu. Está com os olhos presos na escuridão à nossa volta. Noto-lhe a apreensão no rosto. Ele sabe que o inimigo tem noção da nossa posição fragilizada e que um ataque à base é iminente.

    Dois soldados e um repórter e uma base inteira para defender.



  • AS FRONTEIRAS DA GUERRA (I – Fúria ao Entardecer)

    Não sei quanto tempo já passou, mas o sol já não está no mesmo sítio e o olhar continua preso nesta enorme macha de sangue que se alastra pela folha do caderno e que, caprichosamente, contornou uma frase e a deixou legível. Aos meus olhos, aos outros sentidos e, por último, à razão. Quando a ouvi e anotei, pareceu-me apenas uma citação interessante. “Só é possível fazer três coisas numa guerra. Morrer, matar e lucrar”. Agora, após 48 horas com sabor a dez anos, as palavras do Karkariano ganharam outra dimensão.
    O que leva a humanidade a este ponto sem retorno?
    Chamo-me Viktov Malu. Esta é a história que trouxe de Abdul. A história que trouxe da guerra.

    Era madrugada quando finalmente vi a placa à beira da estrada. Os caracteres eram arábicos mas eu estava bem ciente do que significam. Saí do jipe e de imediato estranhei o ar nocturno, que era quente. Trocara o frio de Moscovo pela aragem morna do Médio Oriente, mas não fora a temperatura aprazível a levar-me a Abdul. Como qualquer repórter, sonhava ser enviado para uma guerra. Já efectuara reportagens em prisões, em território de gangues, em palcos urbanos de tiroteios e homicídios, mas nunca numa situação de conflito internacional. Tinha agora uma nas mãos e, sinceramente, não sabia o que esperar. Quem esperava por mim era um pelotão russo da federação Sovodka, que eu ia acompanhar durante o conflito.

    O acampamento fica numa pequena clareira à entrada de um bosque. Há uma rede militar a delimitar o perímetro e uma enorme bandeira russa que ondeia com a brisa da noite, sobre o único ponto de acesso. Contemplo-a por alguns instantes e penso nos homens que estou prestes a encontrar. Todos eles estão ali por pura convicção e com um sentido de missão frio e duro como granito. Todos estão prontos para lutar e morrer pela Mãe Rússia. Como receberão um compatriota que não está ali para lutar e sangrar ao seu lado, mas apenas para documentar a sua luta e o seu sangue? Que em vez de uma Kalashnikov, carrega uma lente de 300 milímetros? Um golpe seco desperta-me da súbita introspeção. O oficial que me deu boleia empurrou, vigorosamente contra o meu peito, um capacete militar e um colete à prova de bala com a palavra “PRESS” escrita nas costas. Olhou-me nos olhos, resmungou “boa sorte”, entrou no jipe e arrancou.

    – Nasdrovia!

    Sturm ergue o copo a pedir um brinde, talvez seja o último de uma noite que já vai longa.

    – Nadrovia! – respondem todos.

    – Bebe repórter! Não há melhor manta do que esta, quente e transparente.

    Ao todo são seis homens que formam esta unidade de operações especiais, a 605. Sturm (tenente), Frix (sargento), Sokol, Ssnke, King e Spet (soldados). A maioria dos nomes são alcunhas que obtiveram na vida militar. Não as explicam. Preferem manter o seu significado implícito e expressam-no apenas com olhares e sorrisos de cumplicidade, entre baforadas no cigarro.

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    Dentro de poucas horas, quando o sol surgir, alguém lhes vai tentar tirar a vida. Esta noite pode ser a última para qualquer um deles. Parecem imunes a esse facto e convivem com incrível naturalidade. A guerra parece correr-lhe nas veias. A vodka aquece-lhes as saudades de casa, é o manto quente que de noite substitui os corpos das mulheres que deixaram na velha pátria. Mas talvez seja a guerra, a intimidade que têm com ela, o que os mantém vivos.
    – À 605!
    – Nasdrovia!

    A manhã desperta com orvalho e cheiro a café. O bosque está em silêncio e o sol cresce atrás dos pinheiros e espalha uma luz suave sobre a clareira. Um cenário idílico, contradito pelos carregadores espalhados pela mesa, que indiciam o que está para vir.
    Fala-se de armas ao pequeno-almoço. Alguém está com problemas com a sua Aks-74.

    – Não dispara, talvez tenha o pistão partido – refere Ssnke.

    O tenente Sturm agarra na arma, pousa-a na mesa e desmonta-a em três tempos. Há uma mola fora do sítio, uma peça minúscula, mas suficiente para encravar a arma. Terminada a operação, entrega-a ao seu soldado. “Está pronta para matar americanos!”.

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    Dentro de uma hora vamos ser transportados para a base, no coração do conflito, onde Sturm reunirá com o comandante russo e receberá um briefing com a missão que os espera. Ninguém sabe o que é, apenas se sabe que é de extrema importância. Daí, inclusivamente, o meu súbito envio por parte da RT (Russian Today).

    Entretanto, o pelotão termina os preparativos. Sincronizam-se as frequências de rádio a utilizar, prepara-se o equipamento táctico. Um rolo de fita preta passa de mão em mão.

    – Isto dá jeito para tudo – afirma Spet. – Dá para atenuar luzes que em certos momentos podem ser denunciadoras, prender a presilha das armas, e até minimizar o ruído do tilintar das balas nos coldres e carregadores, apertando-as.

    O transporte está atrasado, mas os homens não aproveitam o momento para relaxar. Já estão em modo batalha, focados. Revêem-se estratégias de combate no chão, dispondo pinhas na caruma que usam para estabelecer movimentações, os critérios para visibilidade reduzida e boa visibilidade, as reacções a emboscadas próximas e afastadas, as progressões em coluna por dois em zig-zag e em cunha.

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    – É importante manter a cunha – frisa Spet, o mais experiente operador do grupo. – Quando ouvirem tiros é deitar e identificar a origem do fogo. Em cunha todos têm linha de fogo!

    Ouve-se o ruído pesado da carrinha de transporte.

    – Está na hora!

    Frix agarra na sua pesada PKM, uma arma de supressão e caminha pausadamente na direção do veículo. Oito quilos de poder de fogo! Faz lembrar a arma do Schwarzenegger no filme “Predador”. O cinto de balas tilinta ligeiramente com o movimento.

     – Mete fita preta nisso – alguém sugere.

    Frix lança um sorriso malandro. – Quando ouvirem isto, já estão fodidos!

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    Paramos para abastecimento numa pequena povoação. Está quase tudo destruído, excepto meia dúzia de casas, as bombas de gasolina e o pequeno café em cuja esplanada estou sentado. Dois caixotes de madeira fazem de cadeiras e um líquido escuro e com sabor queimado faz de café. Há uma velha edição do jornal Abdulian Post no chão. Sacudo-lhe a terra e folheio-o. “Aquele  que  foi  considerado  como  o  País  das  Maravilhas  pelo  escritor  Jonh  Wells,  é  hoje,  em  grande  parte  do  seu  território,  um  mar  de  escombros  e  de corpos”. Uma brisa matinal abana as folhas do jornal e o meu cabelo. É uma brisa ligeira, confortante, quase apaziguadora. E no entanto estou numa terra onde a paz é uma mera recordação distante.

    Durante a última década levantou-se uma crise social e política na região que a deixou instável. Nos primeiros dias de 2011, um grupo de cinco jovens viajou para Abdul. Alguns desses jovens eram filhos de figuras proeminentes na europa. Sedentos de aventura, os jovens viajaram por várias regiões no interior do país. Foram raptados por um grupo terrorista, que reivindicou o sequestro poucos dias depois. Um dos reféns foi executado. O facto de serem filhos de figuras públicas aumentou o apetite dos média, que explorou o assunto de forma voraz. Grande parte dos países integrantes da OTANA pressionou uma operação de resgate, que Abdul autorizou na primavera de 2011. Após uma complexa operação, foi possível localizar, resgatar e conduzir os reféns até ao ponto de extração.

    Após a incursão da OTANA em Abdul, o governo local constata que foram assaltadas instalações governamentais e desviados documentos confidenciais. A OTANA nega qualquer implicação e acusa Abdul de fabricar um pretexto para gerar conflito. Abdul devolve as acusações e acusa a OTANA de ter estado por trás do sequestro para artificialmente conduzir Abdul a uma posição de guerra e ter um pretexto para intervir militarmente e conquistar a região e os seus recursos naturais.

    Seguem-se negociações diplomáticas que falham e culminam numa declaração de guerra de Abdul à OTANA. A decisão divide Abdul. Alguns partidos da oposição começam a financiar secretamente movimentos de guerrilha.  As forças leais ao regime formam linhas de defesa em todo o território. É instaurada lei marcial e inicia uma autêntica caça às bruxas. O líder de Abdul persegue a oposição. Alguns são presos, outros executados publicamente.

    Há relatórios de presença de armas químicas e de um alegado extermínio de uma aldeia inteira (Khali). A OTANA intensifica operações em Abdul e, em parceria com as guerrilhas locais, tenta capturar o líder de Abdul e levá-lo para julgamento nos tribunais internacionais.

    O cerco intensifica-se e o líder de Abdul refugia-se na Federação Sovodka, que decidiu intervir no conflito. Os russos concedem asilo político ao ditador, o que causa mal-estar na comunidade internacional, pois a Federação Sovodka é integrante da OTANA.

    A OTANA determina a aplicação de sanções económicas sobre a Federação Sovodka e aumenta a presença de tropas aliadas em território de Abdul.

    De seguida, a Federação Sovodka anuncia a coligação com o Exército Nacional de Abdul (ENA) e afirma que não irá permitir qualquer avanço militar no território, pelo que exige a retirada imediata de tropas da OTANA.

    Para o efeito, alega ter provas inequívocas de que alguns países membros da OTANA estão a manipular esta última para assumir o controlo de Abdul, país que faz fronteira com o território da federação Sovodka, situação que colocaria em causa a integridade das suas fronteiras.

    A OTANA, sentindo-se ameaçada, começa a ponderar autorizar a invasão militar de Abdul. Anunciam ainda ter provas inequívocas da construção de armas de destruição massiva a Norte de Abdul, território controlado pelo Exército Nacional, em coligação com as forças Sovodkas. Perante este novo facto, o Conselho Geral da OTANA agendou uma conferência de imprensa, em vista a anunciar as medidas que iria tomar contra o governo de Abdul e a Federação Sovodka.

    Isto é o que aconteceu na conferência de imprensa:

    E hoje aqui estamos. Perante 48 horas que ameaçam ser determinantes em todo este conflito.
    Há rumores que a coligação russa/abduliana irá lançar uma ogiva nuclear contra países da Otana. Um ataque preventivo.

    – É improvável – diz um dos soldados russos. – Acho que vai ser planeado um ataque cirúrgico a uma figura importante das milícias.

    No fundo ninguém sabe. Nem o verdadeiro motivo deste conflito, nem que missão os espera dentro de poucas horas. Estes homens só sabem que a Mãe Rússia exigiu a sua presença neste território para a defender.

    – E para a defendermos, vamos ao fim do mundo! – afirma Ssnke.

    – Davai!  – Gritam todos, sem hesitação.

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    Chegamos à base a meio da manhã. Há uma grande movimentação e sente-se a ansiedade no ar. Sturm é chamado à tenda dos oficiais. Regressa poucos minutos depois. Há uma missão preliminar a cumprir antes do briefing da missão principal, que ocorrerá depois, numa reunião com todos os comandantes das subdivisões.

    Para já, há relatos de focos de insurreição em Khali e é fundamental ir à aldeia, e impedir que os rebeldes corrompam as forças civis e aliadas na região.
    Nesta missão, vamos ser reforçados com seis elementos de uma unidade paraquedista russa (VDV), que se vão juntar a nós num ponto predeterminado a caminho da aldeia.

    Decidimos arrancar de imediato e almoçar mais cedo, para poupar tempo e aproveitar a proximidade da base para proteção. Acabamos por assentar numa pequena encosta no bosque, protegida por densos arbustos. Eu tinha levado alguns mantimentos, começo a prepará-los até que sou interrompido por Frix.

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    – O que é isso, repórter? Não precisas disso. Espera!

    Volta poucos segundos depois e oferece-me uma ração de combate para 24 horas. A caixa tem um pouco de tudo, é estrategicamente organizada para garantir portabilidade e o máximo de calorias para manter os níveis de energia. O meu almoço vai ser exótico. Rancho de Viseu, uma cidade no centro de Portugal. Aqueço a lata num fogareiro e uso um chapéu militar para me proteger da sua superfície quente. Não sou grande apreciador do petisco, mas no mato, naquelas circunstâncias, é um autêntico banquete.

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    Partilham-se bebidas, cruzam-se conversas.

    – Quem faz o café?

    – Atenção que alguém tem de estar de vigia!

    – As mulheres do Kosovo são qualquer coisa…

    – As nossas russas não lhes ficam atrás.

    – Eu tenho duas. Uma está dentro da barriga da minha mulher.

    – É rapariga? Estás lixado!

    – Eu tenho armas em casa!

    Após um almoço curto, mas animado, continuamos por um carreiro de terra batida. Avança-se em silêncio, num passo disciplinado e com as distâncias estratégicas respeitadas.

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    – O Objectivo é reduzir a zona de morte – refere Spet. Explica-me que manter uma distância de 10 a 15 metros entre cada elemento reduz a probabilidade de sucesso de uma emboscada inimiga.

    Recebemos uma comunicação por rádio sobre o posicionamento dos paraquedistas. Estão a poucos minutos de nós, numa clareia a Oeste. Avistamo-los. São seis. Fragatov, Alexei, Tetsuo, Dani, Barna e Filipov. Há camaradas que se reconhecem.
    A breve confraternização é interrompida pela estática do rádio. Há um aviso que uma viatura não identificada pode estar a caminho. O batalhão decide esconder-se na vegetação junto à estrada e aguardar.

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    Durante esse período de espera e hesitação, apontei a câmara para Fragatov e lancei-lhe a mais óbvias das questões.

    https://www.youtube.com/watch?v=vzONB18a6jY

    Passam alguns minutos e a informação não se confirma. Não passa qualquer viatura, pelo que retomamos o passo. Prosseguimos todos juntos em direcção a Khali. A aproximação à aldeia é estratégica. É impossível saber se vamos ser recebidos de forma hostil ou não.

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    Sturm posiciona os 605 numa posição de apoio, numa pequena elevação sobranceira sobre a aldeia. Os VDV dão destacados para uma manobra de envolvimento pela esquerda.

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    No entanto, o inesperado acontece. Ouvem-se tiros. Os paraquedistas estão a ser alvejados. Estão agora fixados no terreno pela resistência vinda da aldeia. Após uma rápida comunicação rádio, decide-se inverter os papéis. Com apoio do fogo dos paraquedistas, os 605 manobraram sobre a aldeia e empurram a resistência para um vale na retaguarda. Os tiros cruzam acima de nós de todas as direções. Não pode ser apenas um grupo de rebeldes. Uso a teleobjectiva e descubro na distância fardas militares. A OTANA está com os guerrilheiros.

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    O enxame de balas continua a sobrevoar a aldeia e há vários elementos feridos no terreno. Rastejo até uma zona mais afastada do bosque, levanto-me, agarro na câmara e gravo um pequeno depoimento.

    https://www.youtube.com/watch?v=fLTIJsreZFo

    Após momentos de fogo intenso, a aldeia é tomada. Reagrupam-se as forças, faz-se a contagem dos feridos, revistam-se todos os civis que encontramos.

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    Todos os que lá permaneceram são fiéis ao regime e estão contra a força invasora. Recebem-nos bem, oferecem-nos comida e bebida. Uma jovem tenta vender uma cerveja a Fragatov, que reage de imediato.

    – Os russos não compram nada minha querida. Conquistam e limpam tudo.

    Devido às muitas necessidades de assistência médica do nosso pelotão, temos de permanecer em Khali algum tempo. Os nossos homens tentam desanuviar, beber um copo e mandar piadas, mas há um nervosismo latente no ar. Eles sabem que este interregno dá tempo e oportunidade ao inimigo para reagrupar e se reorganizar.

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    Aproveito para conversar com uma habitante local. Chama-se Alahra, tem 26 anos e estabeleceu-se em Khali após o massacre do início da década, onde perdeu grande parte da família. Regressar à aldeia da sua infância e contribuir para a sua reconstrução é o que lhe dá alento para acordar todos os dias. Responsabiliza a OTANA pela destruição de Khali e renega os rumores que a chacina tenha sido ordenada pelo líder de Abdul. Aproveito para satisfazer uma curiosidade muito peculiar que trouxe na minha bagagem jornalística. Há relatos em Moscovo da presença de Karkarianos nesta zona, povo descendente daquele que travou a batalha de Karkar, em 853 A.C. Alguns afirmam tratar-se apenas de um mito e garantem que eles estão extintos, tal como a cidade milenar de onde provêm. Mas há quem assegure que eles existem, que se movimentam na sombra e dominam negócios obscuros na região, como o tráfico de drogas e armas. São mercenários dos tempos modernos, servem ambos os lados do conflito e tentam tirar o máximo de dividendos da guerra.

    – Não, nunca ouvi falar deles – afirma Alahra. Noto que os seus olhos não partilham da mesma convicção das suas palavras.
    Estou a pensar na forma mais subtil de insistir no assunto mas ela antecipa-se.
    – Desculpe, tenho de ir, tenho trabalho para fazer.

    Olho para ela a afastar-se, intrigado. “Tenho de arranjar forma de chegar a um”, penso, cada vez mais convencido da veracidade dos relatos.

    O ruído arrastado de um veículo de combate e a súbita movimentação das tropas russas desperta-me desse tema. A OTANA está a lançar uma contra-ofensiva, desta vez apoiada por veículos e armas pesadas. Os russos abrigam-se nas viaturas e atrelados abandonados na aldeia.

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    No fundo da estrada há um jipe com uma supressora a disparar intensamente. O ruído ensurdecedor das balas a esbarrar na chapa e no metal não é suficiente para desencorajar a ideia estúpida que acabei de ter. Viro o colete ao contrário, com as palavras PRESS agora bem visíveis no meu peito, tiro o capacete para não ser confundido com um soldado, enrolo um lenço branco à volta da objectiva e corro para a estrada.
    “Estou nas mãos da consciência do soldado que está do outro lado”, penso.

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    Dois de tiros zunem por cima de mim, mas permaneço na estrada a disparar rajadas de fotos.
    Naquele instante, só penso no filme “Salvador”, do Oliver Stone, na cena em que um dos jornalistas vai para o meio de uma avenida que está a ser metralhada por um avião e tenta obter a foto perfeita da aeronave que, sempre a disparar, voa na sua direção. Não correu muito bem para ele. Espero que corra melhor comigo.
    Um dos soldados contínua com a arma apontada na minha direção, mas não volta disparar.
    Respiro fundo, obtenho mais um par de imagens e dou uma corrida para o local onde os russos estão abrigados.
    A ofensiva terrestre que nos tentava flanquear já foi neutralizada. Há um plano para o veiculo. O Frix vai usar a sua supressora para dar cobertura a alguns companheiros que vão tentar flanqueá-lo. “Raz… dvah… tri”. Frix levanta-se, apoia a sua PKM nas traseiras de uma velha carrinha de carga e começa a cuspir fogo. Mantém o gatilho premido durante imenso tempo, enquanto grita palavras indecifráveis. O barulho é indescritível e a arma treme de tanto disparar.

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    Olho para o lado direito e vejo os camaradas a subir a encosta em corrida, a posicionar-se e a metralhar o veículo pelo flanco. Os três soldados da OTANA sucumbem inevitavelmente à chuva de balas que os atinge por todos os lados.

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    Segurança reposta em Khali, inimigo repelido ou neutralizado e um veículo de combate capturado. Missão mais do que cumprida.
    Animados pela vitória, os russos retomam o caminho para a base, curiosos sobre o briefing e a grande missão que os espera.

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    – Foda-se! Ele já está lá há mais de uma hora – reclama King.

    A reunião prolonga-se e cá fora, os russos começam a ceder à impaciência.

    – Só espero que ao menos seja algo de jeito! – Afirma Sokol.

    – O que for… será! – diz Tetsuo, após expelir uma nuvem de fumo do seu cigarro.

    Alguém arreda a entrada de lona da tenda. Sturm sai cá para fora e caminha na nossa direção.

    – Camaradas. Ao meio dia de amanhã, no aeroporto de Abdul, será lançado um míssil contra um país da OTANA.

    Os boatos estavam confirmados. A estupefação é quase total.

    – Nós, juntamente com uma unidade especial do Exército Nacional de Abdul que nos vai ser apresentada dentro de momentos, somos os responsáveis por assegurar que todas as condições estarão reunidas para o míssil ser lançado e a missão ser bem-sucedida.

    – Mas que país é que vais ser atacado?

    – É um míssil nuclear?

    As perguntas caem em catadupa.

    – Para já, o que sabemos e o que nos interessa saber é o que vos acabei de dizer – afirma Sturm, de forma convicta. – E preparem-se, que a primeira missão nesse sentido ocorre dentro de 45 minutos.



  • A GUARDIÃ DE CAVALOS DE FERRO

    Texto: Victor Melo
    Fotos: Rui Pedro Oliveira 

    O telefone toca às 6:27. Ela levanta o auscultador e diz “32”. Acena com a cabeça, desliga e sai para a rua, onde um galo disputa o silêncio da madrugada de inverno com uma campainha cadenciada. Junta-se-lhes o som de uma corrente de metal a deslizar no alcatrão. Ainda é noite, a única claridade vem de um pequeno círculo vermelho que balanceia numa das suas mãos, expelido por uma velha lanterna. A corrente é esticada até atravessar toda a estrada e no meio é colocado um disco a sinalizar “trânsito proibido”. O pequeno círculo de luz é agora branco mas continua ténue, não ilumina, apenas sinaliza. Dois pontos brancos emergem à distância e rapidamente se propagam na sua direção. Atravessam com fúria à sua frente, agitando-lhe os cabelos grisalhos. Zita Dias não arreda pé, nem se assusta com o rugido. Há anos que ele lhe é familiar. Recolhe a corrente e reabre a passagem de nível. Este foi o primeiro comboio do dia. Faltam 21.

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    Ser guarda de uma passagem de nível é uma profissão com a qual todas as gerações anteriores ao novo milénio estavam habituadas a conviver. Em finais da década de 90 havia acima de 900 destas profissionais. Era uma presença muito assídua na vida dos condutores, embora estes desconhecessem o seu quotidiano, rico em curiosidades e peculiaridades. Hoje, já só são 99. Numa era onde a tendência é a informatização e automatização, quisemos fazer um registo documental de uma profissão que é rara no país e que um dia, inevitavelmente, deixará de existir. Zita Dias é um desses espécimes raros, que aceitou partilhar connosco o seu dia-a-dia.

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    A cavalariça   

    O relógio marcava 6:15 da madrugada quando abriu a porta do seu abrigo, no quilómetro 32 da Linha do Vouga (conhecida como “Vouguinha”), a única linha de via estreita ainda em funcionamento no país. Liga o rádio, veste a bata azul e amarela e pouco depois atenderá o telefone, onde se identificará com o número da sua passagem de nível. O telefone toca sempre 15 minutos antes da passagem de cada comboio. Por dia passam 22, 11 em cada sentido, entre Aveiro e Sernada de Vouga. O telefonema é proveniente dessa última estação, que controla o tráfego do Vouguinha.
    De seguida, Zita dirige-se a uma pequena banca de madeira, junto à janela do abrigo, onde tem um livrinho para registar a hora da comunicação, o número do comboio e a sua proveniência. Assina, faz um compasso de espera de poucos minutos e fecha a passagem. Ergue a lanterna com a luz branca. É sinal que está tudo em ordem e o comboio tem via livre. Usou a lanterna porque é de noite. Dentro de momentos amanhecerá e Zita passará a usar uma bandeira. “A não ser que esteja nevoeiro”, sublinha. “Se não tivermos visibilidade a menos de 100 metros, continuamos a usar a lanterna”.

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    São 07:22 quando o céu se tinge de azul claro. Na passagem do próximo comboio, lá está a Zita a erguer a bandeira vermelha, cuidadosamente enrolada. É sinal que está tudo bem e o maquinista pode continuar. Se estiver aberta, sinaliza perigo e o comboio deve parar. Antigamente, para além da lanterna e da bandeira, as guardas tinham de andar sempre munidas de uma corneta e de uma lata com petardos. Agora, este material já pode permanecer no abrigo até ser necessário. A corneta serve para despertar um condutor mais distraído ou afastar um animal da linha. Já os petardos são o derradeiro recurso 5para fazer parar um comboio, caso exista algum obstáculo na linha. Devem ser colocados nos carris, a 500 metros do obstáculo. A explosão alertará o maquinista, que puxará de imediato os freios do “cavalo de ferro”.
    A lata está empoeirada e presa por uma corda. Lá dentro, estão seis petardos cilíndricos de aspeto ligeiramente enferrujado. Durante todos estes anos nunca foram precisos.

    “E anos disto é o que não me falta”, deixa escapar Zita, sorridente. Tem 57, 39 deles a tomar conta desse obstinado cavalo de ferro que lhe ocupa o dia a correr de um lado para o outro.

    Memórias da primeira cavalariça

    Sábado, 7 de Junho de 1975 foi o seu primeiro dia. A linha tinha acabado de reabrir nesse mês, após três anos inativa, devido à substituição das locomotivas a vapor pelas automotoras a diesel. Zita tinha 18 anos e começou por fazer apenas as folgas da colega, aos fins-de-semana. Era o trabalho ideal para ela naquela altura. Tinha um filho de dois anos, não existiam infantários e a mãe trabalhava no campo todo o dia. Ao fim-de-semana era quando tinha tempo livre para trabalhar.

    O seu posto era no “25”, na zona de Eirol. Resumia-se num poste com uma caixa de chapa pregada, com um telefone e uma lanterna lá dentro, que ela trancava com um embude quando acabava o turno. Não havia abrigo, nem sequer uma cadeira. Mas o desconforto era o menor dos seus problemas. “Era uma zona muito medonha, cheia de arvoredo, escura e isolada, metia medo”. Muitas vezes o marido fazia-lhe companhia. Quando não podia, ela sentia-se insegura. “Uma vez andavam lá uns homens a tirar areia do rio. Começaram a mandar bocas mal-educadas e um deles chegou mesmo a fazer porcarias virado para mim”. Zita não teve meias medidas. Mandou parar um carro e perguntou ao condutor, de forma bem audível: “Não tem ai um cacete? Aqueles andam-se a portal mal”. Terá sido remédio santo. “Nunca mais me importunaram”. Pouco a pouco, a jovem e franzina menina foi-se habituando às condicionantes da zona, foi alargando o seu horário e superando todos os receios. Esteve lá 20 anos.

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     Em 1995, passou para uma passagem de nível um quilómetro acima. O “26”, na zona de Eixo. Esse posto já era abrigado, já tinha luz e água. E era um bocadinho mais perto de casa. “Metia-me lá em três minutos de motoreta”. Aqui, o inconveniente era outro. “A passagem de nível ficava numa grande reta, passavam lá imensos carros e em grande velocidade. Por vezes queríamos fechar e não conseguíamos, as pessoas pura e simplesmente não paravam”.  Ao longo dos 15 anos que lá esteve, foram constantes os sustos. Incluindo aquele que a obrigou a fugir para a linha, quando um carro desgovernado se espetou contra a cancela. “Vinham de Águeda e vinham xispados. Até larguei um chinelo a fugir”. Felizmente, ao longo das quase quatro décadas de profissão, Zita nunca presenciou um incidente grave no seu turno. Já uma colega sua do “26” não teve a mesma sorte. “Espetaram-se lá dois de mota e morreram. Foi um bocado traumático para ela, que era tão certinha. Teve azar”.
    Esta passagem foi automatizada em 2010 e Zita Dias veio parar ao “32”.

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    Vicissitudes do ofício 

    Passam poucos minutos das oito da manhã quando Zita se senta, finalmente, para tomar o pequeno-almoço. Trouxe de casa um termo com leite e café, que acompanha com alguns “pãezinhos bem cozidos”, que comprou numa padaria madrugadora a caminho do trabalho. Trouxe também o almoço, como é hábito sempre que faz o turno da manhã, das 6:15 às 14:15.
    É o seu turno preferido. “Passa mais rápido, parece que tenho mais tempo livre e aproveito melhor o dia”. O outro é das 12:30 às 20:30, agora torce-lhe o nariz, mas nem sempre foi assim. “Antigamente gostava bem mais de dormir durante a manhãzinha”, refere, com o dedo erguido e um sorriso prolongado.

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    Levanta-se e vai à “cozinha”, um exíguo espaço no canto do abrigo, composto por um lavatório de pedra, um pequeno frigorífico e um micro-ondas. Uma divisória de cimento e uma cortina de plástico separam esse espaço de uma sanita. Um luxo comparado com o passado. Durante muitos anos não existiu uma casa de banho no “25”. “Tentava-se a ir a casa de alguém conhecido que vivesse la perto”. Conta que depois acabaram por montar lá uma pequena divisão, embora sem água. “No inverno íamos às poças com um balde para arranjar água para despejar na sanita”. Foram anos duros, que Zita foi superando através da capacidade de adaptação e um sólido sentido de dever. Algo que nem sempre é reconhecido pelos utentes, cuja impaciência muitas vezes lhes tolda a realidade mais crua e óbvia: o facto de aquela pessoa estar a zelar pela sua segurança. Por vezes um pequeno atraso de um ou dois minutos na automotora é o suficiente para a ira ser descarregada na guarda da passagem de nível. “Mas felizmente também há muita gente compreensiva e cívica”, clarifica Zita. Parece ser o caso nesta manhã. São oito os carros atrás da cancela e já estão parados há mais tempo do que seria o normal. “Este vem sempre queimado”, afirma Zita, referindo-se ao 5180 proveniente de Águeda e recorrendo à gíria habitual que significa “atrasado”. Vislumbram-se alguns olhares impacientes atrás dos volantes, mas ninguém verbaliza a impaciência.

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    Já a velocidade excessiva, aqui não é um problema. É uma zona calma e precedida de lombas. O único susto de relevo remonta a uma tarde de inverno, quando um idoso não terá visto a corrente e embateu contra ela, passando por baixo e projetando o disco contra a parede do abrigo. Felizmente aconteceu poucos momentos após Zita fechar a passagem, ainda a alguns minutos da passagem do comboio. “Parou lá à frente, saiu devagarinho, inspecionou o carro, viu que estava tudo em ordem, entrou e foi à vida dele. Nem se lembrou de perguntar se estava tudo bem ou era preciso alguma coisa”, recorda.

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    No trilho da linha   

    A manhã vai a meio, quando desponta uma silhueta ao fundo da linha. É um jovem, que vem a tocar guitarra enquanto percorre o caminho-de-ferro. O momento é caricato, mas perigoso. E esse perigo tornou-se uma rotina diária aqui no “32”. Durante o turno da manhã são incontáveis as vezes que Zita Dias intercepta pessoas a circular a pé na linha. Sempre paciente, aborda-as uma a uma, aponta para as placas sinalizadoras de proibição e tenta consciencializá-las para o perigo desse acto. Mas se a paciência de Zita é inesgotável, também o parece ser a teimosia dos peões. “Fazem ouvidos moucos, é um corrupio de manhã à noite”. Explica que encaram aquele troço de linha como um atalho para encurtarem caminho para a escola, para o infantário e para o mercado. A zona já esteve vedada, “mas eles derrubaram o muro”. Ele foi arranjado e reforçado com uma rede. A rede foi “esburacada”. Ainda é vívida a recordação do dia que testemunhou uma senhora a passar, meticulosamente, os seus sacos de couves pelo buraco, antes de, a esforço, passar ela própria por lá. Zita abordou-a. E foi presenteada com uma resposta cheia de naturalidade: “Quem mandou fecharem? Dá tanto jeito”.

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    A Irmandade das Guardiãs

    Mais uma campainha do telefone, mais um “32”. Toda uma vida de serviço equipou Zita com pequenos hábitos que já se tornaram intrínsecos. Calcula o tempo entre o telefonema e o fecho da passagem com afinada exatidão, reconhece pelos números os comboios que tendem a vir horas ou os que “raramente vêm à tabela”, sabe antever se as carruagens virão cheias ou vazias consoante o horário. São anos a observar aquele animal metálico, aprendeu-lhe os costumes e os temperamentos. Cá fora, enquanto conversa connosco, mesmo fora dos horários de passagem, é frequente o olhar escapar para as duas linhas que rasgam longitudinalmente a terra. É uma profissão rigidamente regulamentada, com várias contingências de actuação que se mecanizam com a passagem do tempo. Todos os focos de distração são controlados. Para Zita poder falar connosco, a Refer disponibilizou um colega adicional para estar presente durante o turno, que garante “a redundância de serviço”. Uma contingência de segurança da empresa. Zita desempenha as suas funções normalmente, mas tem um colega presente a certificar-se que nenhuma distração causada pela equipa de reportagem se revela fatal.

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    No entanto, por entre essa rigidez horária sobram imensos tempos mortos. Zita aprendeu a aproveitá-los. Põe a leitura em dia, com preferência por jornais diários e revistas ou ouve música portuguesa no seu fiel rádio que lhe inunda a solidão matinal com voz humana. Por vezes, simplesmente olha pela janela e pensa no futuro.

    Nas horas de sobreposição de turnos, tem as colegas para conversar. Foi no decurso de uma conversa que aprendeu a bordar. “Fiz aqui os cortinados para a minha casa”, afirma, complementando de seguida, com um sorriso nos olhos: “ensinamos muitas coisas umas às outras”. Zita está neste momento sentada num velho sofá de napa verde a bordar uma toalha para o próximo Natal. O sofá pertencia a uma antiga colega, que o usava para passar aqui a noite. Na linha estreita não há horários noturnos, mas algumas guardas são de longe e só vão a casa nas folgas. A sua colega era de Oliveira de Frades (48 km de distância). Quando a linha local fechou, deram-lhe trabalho aqui no “32”. “Quem precisa, não recusa”.
    Zita sempre trabalhou na sua área de residência, mas ao longo das décadas foi tendo colegas de longe. No “25”, teve uma colega de Pinheiro de Lafões (43 km), a quem deu guarida na casa da mãe: “Ela lá lhe arranjou um quartinho para dormir, ainda durante uns aninhos”.

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    O abrigo é frio, especialmente no inverno. “Não imagino que sejam noites agradáveis”, refere Zita. Foram tantas as vezes que chegou ao amanhecer ao abrigo e ouviu as confidências da colega, sobre o medo que se apoderava dela quando a cortina noctívaga descia e a solidão se aliava à escuridão. A imprevisibilidade do elemento humano ainda piorava o cenário. Alguém terá descoberto que ela ali passava a noite e divertia-se a arremessar pedras e a bater à porta durante a madrugada. As grades de ferro que hoje existem no exterior das janelas e a rede de arame no interior foram uma exigência dessa colega à Refer, na altura desses acontecimentos.
    Hoje, a Refer fornece frigorífico, micro-ondas, aquecedor, uma cadeira e uma mesa. Na altura, eram elas que “mobilavam” o abrigo para o tornar mais confortável. “Cada um levava o que podia. E quem queria dormir cá é que tinha de arranjar meio”. E com um pouco de entreajuda e criatividade, lá conseguiam transformar o posto de trabalho num aposento. Há um arame que ainda cruza o abrigo, que servia para manter uma cortina que dava privacidade a quem ali pernoitava. São vários os objectos que ainda perduram das estadias antigas das guardas de outrora. “São heranças”, diz Zita.

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    As folhas da nespereira abanam com a correria desfreada do último cavalo de ferro do dia. O último sob a guarida de Zita. São 13:20, já falta menos de uma hora para passar o turno. A ramagem da nespereira prolonga-se na horizontal, criando uma cerca natural ao abrigo. No final da primavera dá fruto. Zita contempla-a por uns instantes e relembra uma tradição antiga, que se enraizou no “25” e no “26”. As guardas criavam uma hora junto ao abrigo, onde plantavam couves, batatas, cebola e feijão. Um importante sustento ao longo do ano. Hoje perdeu-se o hábito. “Agora roubam tudo, passam e levam tudo. Eram outros tempos, outro respeito”, desabafa Zita.

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    Durante todo este tempo enraizou-se também uma convenção, que não foi semeada e cuja origem ninguém consegue explicar. O facto de a profissão ser exercida praticamente em regime de exclusivamente por mulheres. Os próprios documentos orientativos são explícitos nas suas designações. Lá dentro, pode ler-se “deveres das guardas”, num documento afixado. “Não sei porquê, foi sempre assim”, afirma. Só num passado muito recente é que começaram a surgir exceções. Inclusivamente, o guarda que vai substituir Zita no turno da tarde é homem. “Deve ser um sinal dos tempos” solta, entre uma gargalhada.

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    O relinchar do futuro

    Alguém dá dois toques na porta e pergunta o horário do próximo comboio. Zita sacia a questão, sorri e partilha connosco: “Há tanta gente ainda dependente deste comboio”. Dá como exemplo “as muitas pessoas que não possuem outros meios de se deslocarem dentro das localidades”, ou “os estudantes que utilizam diariamente a linha”, por causa do polo universitário em Águeda. “Ao fim do dia as carruagens vêm sempre carregadas deles”. Zita sente particularmente essa importância na pele quando há greves. “Muitas vezes vêm cá bater-me à porta, a perguntar se há comboio. Querem ir para aqui e acolá e depois perguntam-me como é que vão fazer”, afirma, abrindo os braços.
    Mas a linha deve sobreviver à sua função e Zita está ciente disso. “Compreendo o avanço do progresso, mas tenho pena da extinção destas profissões que foram o ganha-pão de muita gente”. Na sua voz é percetível alguma incerteza em relação ao futuro.
    A REFER é pragmática na resposta: “Tal como noutros processos de cessação de posto de trabalho a REFER, através de instrumentos de mobilidade interna e reconversão, tem promovido a integração das colaboradoras noutras funções de acordo com as necessidades da empresa”.
    Zita permanece pensativa durante poucos segundos e assegura: “Se fosse hoje a iniciar esta profissão, não sei se a queria. Na altura foi o que apareceu, adaptei-me a aprendi a gostar dela. Não me vejo a fazer outra coisa”.

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    O carinho que nutre pelo ofício é notório, mesmo quando Zita é confrontada com ele fora do horário de serviço. Quando pára de carro numa passagem de nível com guarda, não a incomodam eventuais atrasos. “Gosto de ficar a ver, apreciar os movimentos dela, acho engraçado”.
    E sente que está longe de ser incomum a afeição que as pessoas sentem por esse meio de transporte. Tem dois netos que adoram visitá-la, para ver os comboios. O mais novo tem dois anos e meio, uma idade demasiado curiosa para o poder ter lá. “Quer mexer em tudo, nos botões, vai para o telefone, não dá”, afirma, a sorrir. O mais velho tem cinco e faz questão de a ajudar nas tarefas. “Gosta de ser ele a fechar a corrente”. E depois há aquelas pessoas que aparecem por lá mais do que uma vez por dia, apenas para ver o comboio passar.
    Zita Dias acha piada ao facto de muitos troços desactivados serem convertidos em ciclovias. “Sei que há uma em Sever do Vouga. Quero lá ir um dia, com o meu neto mais velho, e andar de bicicleta onde um dia já passou o comboio. Acho que vai ser uma sensação de alegria e tristeza ao mesmo tempo”.



  • EM BUSCA DA ALDEIA PERDIDA (Parte II)

    Os antigos falam de uma aldeia alojada na serra de São Macário, chamada Cova da Serpe. Deram-lhe esse nome pois existia lá perto uma gruta onde vivia uma serpente, tão grande que a apelidavam de serpente-dragão. O bicho espalhava o terror pela pacata povoação. À noite, os habitantes trancavam as janelas e sentavam-se no chão, de costas voltadas para as paredes, enquanto ouviam, aterrorizados, o pesaroso arrastar do seu corpo escamoso pelas ruas de pedra. Inevitavelmente, ouviam à distância o bramido abafado de um animal e benziam-se. O gado costumava ser a sua presa principal, mas por vezes também atacava humanos. Todos que a enfrentaram não terão sobrevivido para contar a história. Os habitantes, fartos de sofrer à custa do vil réptil, resolveram mudar-se para outro lugar, do outro lado da montanha, num vale profundo, protegido pelas fragas colossais que estreitavam o desfiladeiro que lhe dava acesso. Pedra a pedra, construíram lá uma aldeia e passaram a viver noites um pouco mais tranquilas, embora não fosse incomum abrirem a janela de madrugada e permanecerem alguns minutos a observar as montanhas, em busca de uma silhueta ameaçadora. Viviam com mais segurança, mas sentiam imensas saudades da terra dos seus antepassados, onde tinham passado toda a sua vida. “É uma pena”, costumavam dizer. E assim, desabafo a desabafo, os anos foram passando num compasso lânguido. Nunca aceitaram bem aquela nova aldeia, um lar bastardo que lhes fora impingido e que tinham dificuldade em amar. A Aldeia da Pena.

    Há mais de três horas que estamos naquele maravilhoso terraço, coberto por videiras e com vista desafogada para o vale. Já ali escutámos histórias sobre a aldeia, já comemos e bebemos, já libertámos o olhar para os confins das cordilheiras que se perdem no horizonte. Só nos dá vontade de permanecer ali.

    Ao chegar à Aldeia da Pena, tínhamos encontrado dois homens a restaurar uma das casas de xisto. Perguntei-lhes se havia um café por aquelas bandas. Estava a derreter e desejoso pela espuma fresca de uma cerveja, pelo que a questão soltou-se sem grande convicção. Se em Covas do Rio, que é uma aldeia muito maior, não há um único estabelecimento desses, era ainda mais improvável existir numa aldeia com seis habitantes.Para meu espanto, a resposta foi positiva. A menos de 10 metros, ao dobrar uma esquina, deparei com a placa “Adega Típica da Pena” e com aquele terraço espantoso.
    Foi paixão à primeira vista. Um papagaio chamado Chico que nos cumprimenta à entrada, uma paisagem assombrosa, lajes de xisto a fazer de mesas e um mundo de pequenas peculiaridades rústicas salpicadas pelo espaço, que apenas se encontram nestes encantadores fins-do-mundo.

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    O menu é feito em ardósia, com vários petiscos anunciados a giz e preparados na hora na churrasqueira mesmo lá ao lado. Como não fazíamos ideia que existia aqui um espaço destes, trazíamos o nosso farnel nas mochilas, para um piquenique improvisado num recanto qualquer da aldeia. Perguntámos ao dono se podíamos pedir bebidas mas comer as nossas previsões, que simpaticamente acedeu. Ficámos a saber que se chama Alfredo Brito e que é um artesão, que constrói réplicas em miniatura das casas típicas da região. Exibe-as no interior do bar, que está recheadíssimo de mil e um objectos típicos, incluindo uma cabeça de javali que, não sei porquê, me evoca um ambiente cinematográfico característico do Álex de la Iglesia.

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    O Chico é um papagaio que valoriza o estilo

    Ficamos também a saber que ele tem uma casa de xisto restaurada, mesmo em frente ao café, com dois quartos que aluga por preços muito sedutores (12,5 euros por pessoa). Rapidamente fazemos planos de lá regressar um fim-de-semana, apenas com o intuito de permanecer naquele recanto mágico e usufruir em pleno. Provar os petiscos da adega, ler com as montanhas como pano de fundo, conversar e conhecer mais histórias locais. Encanta-me a perspetiva de estar naquele sítio à noite, sentir a aragem morna de verão e os sons noctívagos da natureza, a beber uma garrafa de vinho em boa companhia e a conversar sobre temas que nos massajam as costas com arrepios e nos fascinam madrugada fora.

    Antes de me meter a caminho, tinha lido alguns artigos sobre a aldeia, em particular sobre o êxodo que ela sofreu nos últimos 30 anos. Quando nasci, viviam aqui meia centena de pessoas. Hoje, são apenas seis, incluindo duas meninas, irmãs, que desde pequeninas apenas têm a companhia uma da outra para brincar. Um local que outrora já fervilhou com vida e actividade de sol a sol. Hoje fervilha de encanto. O encanto dos que teimam em manter a aldeia viva; da lenda, da tradição, da identidade; do silêncio desértico apenas suspenso pelas memórias que nunca abandonaram o local e se fazem transportar com o rumor do vento; da eterna promessa de um regresso sem data.

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    Ainda entorpecidos pelo idílico terraço, debatemos o resto do trajecto. Calculamos que faltem entre 11 a 12 quilómetros. Os próximos quatro quilómetros serão percorridos em alcatrão, pela estrada que abandona a aldeia e serpenteia montanha acima, até voltarmos a apanhar o trilho, já perto do alto de São Macário. Não nos agrada particularmente esse troço, viemos em busca de trilhos, não de estradas. Alguém sugere que seria ouro sobre azul suprimir esse troço com uma boleia. “Há um senhor que parte com um tractor e um atrelado às 17”, informa Alfredo. São 17 menos 5. Cruzamos olhares, acenamos com a cabeça e começamos a arrumar tudo nas mochilas, desenfreadamente. Sempre prestável, o senhor Alfredo já tinha ido confirmar. A boleia é nossa, se a quisermos. O ruído do tractor já se ouve por trás das casas.
    Havia ainda muito para explorar na aldeia, recantos para descobrir, conversas para ter, incluindo com a menina que nos serviu as bebidas, que tardiamente descubro ser uma das meninas referidas no artigo que tinha lido. Mas o senhor do tractor já está à nossa espera. Pelo que percebi, vai com frequência à aldeia carregar entulho, que descarrega algumas centenas de metros acima, numa pequena ribanceira. “Desde que não me sujem a terra”, solta, sarcástico, quando pedimos permissão para saltar a bordo. Atiramos as mochilas lá para dentro e prosseguimos viagem, eufóricos com a caricata situação, a coincidência com ponteiros de relógio suíço, o inesperado desenrolar de acontecimentos, o nosso corpo, que vibra por todos os lados com o movimento do tractor e o vento que nos esbarra nos rostos.

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    Há batotas toleráveis

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    O senhor do tractor é uma simpática caixa de surpresas. Pára o tractor em pontos estratégicos para termos uma vista desafogada da aldeia ao fundo do vale, fala alemão connosco, manda piadas, debate as vicissitudes do turismo rural. Até que trava as enormes rodas numa bifurcação e aponta para o caminho que teremos de fazer a partir dali. Temos de subir até aos 1050 metros do topo da serra de São Macário, depois percorrer a crista de uma cordilheira que curva à esquerda e se estende, do outro lado do vale, para lá do que podemos imaginar, até começar a descer, serpenteante, em direcção ao vale de Covas do Rio. “Por 10 euros levo-vos lá”, diz, meio a sério, meio a brincar. “Não obrigado, isso já seria batota a mais”, replicamos.
    Um a um, damos-lhe um abraço e seguimos caminho.

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    Aldeia da Pena, afundada no vale. É possível ver a estrada de alcatrão que serpenteia pela montanha, percorrida até este ponto no tractor.

     

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    A linha branca que se vislumbra do outro lado do vale é o nosso trilho

    A dado momento, vislumbro algo reluzente de forma fugaz no meu lado direito. Deduzo ser um reflexo do sol no metal das torres de alta tensão que cruzam o topo de serra. Poucos segundos depois, um ressonante trovão faz-me perceber que a minha dedução estava errada. É o cúmulo da ironia. Cancelámos o plano da Serra da Estrela devido à trovoada e agora levamos com ela, no ponto mais alto desta montanha e com um trilho que segue a crista da cordilheira durante quilómetros. Resolvemos parar uns minutos num planalto alcatifado com erva fofa e analisar as nossas opções. À primeira vista está um ambiente agradável. O sol, parcialmente coberto, deixou de nos chicotear a pele e levantou-se um vento seco e morno. Não fosse o facto de isso ser clima de tempestade iminente, seria óptimo.

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    São 17:28. Regressar à Aldeia da Pena e pernoitar lá é uma das opções, mas a menos apetecível. É um longo regresso até ao vale, não trouxemos material de campismo e nem sequer sabemos se há alojamento disponível esta noite. Podemos descer até uma altitude mais aceitável e esperar que a tempestade passe, mas isso pode significar fazer o resto do longo trajecto de noite. Ou podemos avançar, em passo acelerado, cruzar a curva da cordilheira o mais rápido possível (que é sobrevoada longitudinalmente pelos cabos de alta tensão), até chegar à crista da outra montanha, onde já estaremos a menor altitude e onde as nuvens parecem puro algodão, comparadas com as que temos agora em cima.

    Começamos então a subida. A noroeste, o Fred avista os altos muros de granito que circundam a capela de São Macário, erguidos para proteger a capela dos ventos ciclónicos que assolam o cume da montanha.
    Conta-se que Macário, um jovem da região, tinha uma profissão que o obrigava a ausentar-se por longos períodos. Numa dessas ausências, os seus pais adoeceram e a sua mulher convidou-os para recuperar em sua casa. Cedeu-lhes o quarto e saiu, já ao entardecer, para procurar lenha pois pretendia manter a lareira acesa toda a noite. Macário regressou nesse momento, entrou no quarto com o candeeiro a óleo por acender e viu dois vultos na cama. Cego com ciúmes, matou-os à machadada. Quando a mulher regressou, deixou cair a lenha que trazia debaixo do braço, ao vê-lo com as mãos na cabeça, a chorar e a repetir vezes sem conta: “Ai que desgraça, matei os meus pais”. E viu-o a sair porta fora em direcção às montanhas, com essa frase a ecoar na distância noctívaga da serra. Consumido por remorsos, Macário resolveu viver como um ermita nas montanhas. Diz-se que matou a serpente que tanto afligia os habitantes da região e que passou a viver na cova dela. Gratos, os habitantes ter-lhe-ão construído esta capela, onde ele terá vivido o resto dos seus dias.
    Um sonoro relâmpago estala bem por cima da minha cabeça e desperta-me da reminiscência da lenda. Viro o rosto e olho para a silhueta da capela, recortada no céu tempestuoso. Gostava de a visitar, mas tenho de a deixar para trás. Tal como a gruta da cobra, que muitos juram a pés juntos existir algures na serra, juntamente como as ruínas da Cova da Serpe. E tudo a trovoada levou.

    Neste momento já chove. A máquina já está guardada na mochila e percorremos a curva da cordilheira em passo de corrida. “’Bora pessoal, está quase, só mais um esforço”, repito vezes sem conta. Estamos numa zona completamente exposta e por cima de nós estão os cabos de alta tensão, que não consigo deixar de imaginar a serem decepados por um raio e a contorcerem-se furiosamente, sangrando faíscas. “Bora!”.
    A chuva é bem-vinda. Refresca-nos o corpo e o espírito. Foram cerca de 30 emocionantes minutos, sempre em passo acelerado e com clarões a serpear por cima de nós, até alcançarmos a crista da outra montanha e finalmente conseguirmos enxugar o nosso riso, até então encharcado de nervosismo.

    Prosseguimos por esta recta interminável de terra e cascalho, que ainda vai contornar toda a encosta da montanha antes de começar a descer, em direcção à estrada de asfalto que acabará por nos levar ao derradeiro destino. A determinada altura, eu e o Fred descortinamos uma via trilhada que parece precipitar-se numa diagonal pela montanha e que nos poderá poupar alguns quilómetros e imenso tempo. Decidimos enveredar pelo atalho. Durante cerca de 20 minutos, conseguimos segui-lo com relativa facilidade, mesmo quando ele decide jogar às escondidas connosco. Até que, provavelmente farto de ser descoberto, resolveu caprichar no esconderijo. Procuramos em todas as direcções e não há qualquer vestígio dele.
    Há um eucalipto que se ergue solitário, a cerca de 30 metros. Resolvemos atravessar mato cerrado que nos dá pela cintura até ele, na esperança de o trepar e avistar o trilho. Após alguns arranhões, iniciamos a nossa símia tarefa. O Fred consegue subir até ao segundo ramo, a cerca de dois metros de altura, mas não há forma de descortinar qualquer trilho. A estrada avista-se lá em baixo, mas por entre este tipo de vegetação cerrada, as distâncias e respectivas aparências são sempre ilusórias. Decidimos seguir em frente. Eu e o Fred vamos abrindo caminho, a Teresa e a Xana seguem cerca de 10 metros atrás. Este trajecto é particularmente (e literalmente) espinhoso para a Xana, que enverga calções à Tombraider. Tenta cobrir as pernas com um lenço comprido, mas o efeito prático é nulo. Resta prosseguir, devagarinho e tentar ignorar os gatafunhos que a vegetação vai rabiscando na sua pele.
    O mato já nos dá pelo peito e é impossível ver onde pisamos. Tento tactear terreno em busca de pedregulhos soltos ou outros perigos escondidos e vou sempre anunciado bem alto a sua localização aos três que seguem atrás de mim. É difícil descrever o quão penoso foi este percurso. Ainda andámos cerca de uma hora naquilo até finalmente sair dali. Já diz o velho ditado, quem se mete em atalhos…

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    Damn shortcuts!

     

     

    Já sentado no alcatrão, tento esvaziar as botas de todos os picos, folhas e outros detritos que lá entraram. Não trouxe polainas, é o preço a pagar. A Teresa foi picada na face lateral da coxa e sente imensas dores. Tento aliviar-lhe a preocupação mais imediata: Naquela localização e com aquele tipo de ferida, não é de cobra. E mesmo que fosse, não era motivo para pânico.

    Só há duas espécies de víboras venenosas em Portugal e nenhuma delas é letal para um adulto saudável. A sua toxicidade pode causar alguns efeitos secundários indesejáveis (para além da dor e dos edemas, náuseas, vómitos, hipertensão e, mais raramente, paralisia parcial de alguns músculos) mas tem um efeito lento e geralmente dá perfeitamente tempo para obter socorro e o devido tratamento. O Fred partilha alguns truques que aprendeu nos escuteiros para lidar com mordidelas de cobra, a determinado ponto já mandamos piadas com os métodos que vemos nos filmes e a preocupação dela esvai-se por entre as gargalhadas.

    A estrada, essa sim, parece uma autêntica serpente e dá voltas e mais voltas até chegar ao vale. Por sorte, nesse preciso momento, surge uma carrinha de caixa aberta a descer a estrada. Sigo mais atrás, vão passar primeiro por mim, mas os meus calções têm um buraco maior do que o da camada de ozono, provavelmente ainda me confundem com um vagabundo demente, não posso ser eu a esticar o polegar. “Tem de ser uma das meninas”, grito. Acaba por ser a Xana a fazê-lo. E segundos depois, lá estamos novamente com a alegria e o vento estampado nos rostos.

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    A boleia é curta, dura cerca de dois quilómetros. A carrinha não segue para a Aldeia, seguimos nós, alegres e a relembrar os detalhes do longo dia. Entramos em Covas do Rio num entardecer anunciado pelo fumo que flui das chaminés de pedra e nos induz a preparação do jantar daquelas famílias que ali vivem em plena harmonia com uma tranquilidade dócil que só se encontra nas aldeias do nosso interior.
    Passamos pelo carro estacionado, mas há algo que nos impele a continuar, como se nos segredasse intuitivamente ao ouvido que o dia ainda não acabou. Caminhamos até ao centro e deparamos com um magnífico coreto, onde nos sentamos durante longos minutos a ver o entardecer verter a sua luz dourada pelas encostas coloridas da montanha. Já é de noite, quando abandonamos a aldeia. Ninguém o diz, mas vamos com pena.



  • EM BUSCA DA ALDEIA PERDIDA (Parte I)

    “Devo estar a ficar velho e responsável”, pensei, após desligar o telemóvel. Acho que era a primeira vez que cancelava uma expedição devido às condições meteorológicas. Tinha combinado um trekking durante dois dias na Rota do Vale Glaciar, na Serra da Estrela, que inclui a ascensão ao ponto mais alto de Portugal continental. Era algures nesses dois mil metros de altura que me imaginava a montar o acampamento. No entanto, há quatro dias que consultava as previsões do tempo na região e o símbolo da trovoada teimava em permanecer lá. Um acampamento selvagem àquela altitude, com as condições morfológicas daquela montanha e com trovoada à mistura, seria sinónimo de uma noite memorável ou de uma dança demasiado exótica com o perigo. E eu já tivera a minha noite memorável com raios e coriscos. Em New Lowell, um parque florestal no Sudeste canadiano, vivi a noite de tempestade mais temperamental que tenho memória em todos os meus acampamentos. Os relâmpagos pareciam entrar pela tenda adentro e os trovões eram ensurdecedores. O estrondo de um deles foi tão intenso que jurei ter sentido a terra tremer. Quando o dia clareou, descobri que provavelmente tremeu mesmo, mas com o corpo inerte de uma árvore, derrubada por um raio a cerca de 400 metros da minha tenda. Os meus 19 anos coloriram o episódio, ao ponto de o tornar atrativo. Hoje descobri que devo ter arrumado esses lápis de cera pueris numa gaveta distante. Não os vou procurar. Vou antes procurar uma alternativa. Faltam menos de 24 horas para o arranque.

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    Parte do tronco da árvore abatida por um raio na floresta de New Lowell, no Canadá.

    Sempre senti fascínio pelas aldeias-fantasma de Portugal. Esses locais cheios de silêncio e memórias que vagueiam pelas ruelas de pedra e espreitam pelas esquinas de xisto. Já percorri algumas das doze que salpicam a montanha da Lousã; Já estive em Vilarinho das Furnas; já fui a Drave, que é apelidada de “aldeia mágica”, mas não nas condições ideais (estava lá um acampamento de escuteiros e quero lá pernoitar com a aldeia totalmente deserta); Colmeal está demasiado longe para tão pouca antecedência; e depois há a aldeia da Pena, de onde sempre me chegaram relatos entusiasmados, ao ponto de ser classificada como “mítica”. Fiz a proposta aos meus três companheiros de viagem e eles receberam-na com agrado. Um trekking de um dia, durante 14 quilómetros e com desnível dos 500 aos 1050 metros.

    Arrancamos sábado bem cedo. Paramos em São Pedro do Sul para tomar um café e aproveitamos para pedir algumas informações sobre a aldeia onde começa o trilho, Covas do Rio. Uma das empregadas da padaria é de lá e indica-nos o melhor caminho a seguir. No entanto, diz que há “demasiadas voltas” mais lá para a frente, pelo que nos sugere voltar depois a perguntar. Certíssimo. À saída da cidade, atravessamos uma pequena povoação com meia dúzia de casas. Não há ninguém na rua mas no pátio da última casa há duas crianças de cinco ou seis anos a brincar. Paro lá o carro, abro o vidro e pergunto: “O vosso pai está em casa?”. “Feita a pergunta dessa forma, pareces um pedófilo a averiguar se a costa está livre”, dispara a Xana, sorridente. O miúdo riu-se ao ver-nos a rir e foi a correr chamar o pai, que surge segundos depois, simpático mas com informações nada simpáticas. Diz-nos que ainda estamos a 30 quilómetros da aldeia, o dobro do que imaginava. Contra a minha religião no que diz respeito a viagens não urbanas, lá resolvemos recorrer ao GPS da Teresa, nem que seja para controlar a distância. Um braço levantado de agradecimento ao pai e arrancamos.

    Após uma longa e vertiginosa descida que se assemelha a uma montanha russa de alcatrão, chegamos a Covas do Rio pouco depois das 11 horas. É uma aldeia típica da região centro portuguesa, com ruas estreitas e casas tradicionais de xisto e ardósia, embora existam também algumas habitações mais convencionais, de cimento e telha, que destoam ligeiramente mas não o suficiente para a descaracterizar. Visitamos a povoação, conversamos com alguns locais, enchemos os cantis na fonte do centro da aldeia e arrancamos para o trilho.

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    Minutos antes, um agricultor tinha apontado para um desfiladeiro alto e rochoso que se avista à distância, sulcado entre duas enormes montanhas, onde nada se vislumbra a não ser escarpas de rocha e densa vegetação. É difícil imaginar uma passagem por aquela via, mas ele garantira que o caminho para a Aldeia da Pena era por ali. Não questionamos e arrancamos na direção daqueles gigantes graníticos. A primeira meia hora de caminhada é feita num trilho fácil de seguir, ladeado por muros de pedras cobertas de musgo. Este percurso não está marcado, não existem as típicas riscas amarelas e vermelhas. Na primeira bifurcação que encontramos, seguimos a indicação da mariola, um conjunto de pedras sobrepostas em forma de pirâmide que são uma forma de sinalização centenária criada por pastores para se orientarem nas serras. Há uma espécie de código tácito de montanhismo que sugere ao caminhante que contribua para a manutenção desses sinais valiosos, ou reconstruindo os que sucumbiram às intempéries ou adicionando uma pedra a um já existente. Tenho o hábito de o fazer.

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    Pouco a pouco, o trilho começa a ficar cada vez mais estreito, primeiro começou a ser comprimido pela vegetação, depois pela ribanceira que nos acompanha do lado direito, juntamente com o som de um curso de água lá em baixo, algures sob a copa das árvores.
    Deduzo que estamos no trilho que os locais apelidam de “Caminho Onde o Morto Matou o Vivo”. A explicação é tão trágica quanto irónica: A Aldeia da Pena situa-se num vale profundo e antigamente não tinha um cemitério. Os mortos eram transportados até à aldeia mais próxima, Covas do Rio, por um trilho ingreme e sinuoso, tão estreito que só consegue passar uma pessoa de cada vez. O caixão era carregado aos ombros por duas pessoas, uma à frente outra atrás. Numa dessas travessias fúnebres, o carregador da frente tropeçou e o caixão caiu em cima dele, matando-o.
    Uns largos minutos à frente, é possível descer ao curso de água. Resolvemos fazer uma pausa para relaxar. Estão 32 graus, sabe tirar as botas e mergulhar os pés na água fresca, deitar na superfície lisa das rochas e desfrutar da sombra do arvoredo e do som bucólico do ribeiro e das suas pequenas quedas de água. Aproveitamos para hidratar e comer uma barra de cereais.

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    Em boa hora o fizemos, a partir daqui o troço aumenta consideravelmente o declive. O esforço é maior e a energia suplementar é bem-vinda. Por vezes paramos e olhamos para a montanha do lado direito, um maciço cinzento que enverga uma túnica verde de mato que se ergue tanto que quase sentimos uma ligeira tontura ao acompanhá-lo com o olhar até ao topo. Mais à frente, avistamos uma pequena piscina natural com água cor de esmeralda e longos ramos a abrigá-la do sol ardente de final de primavera. Os raios que trespassam a folhagem oferecem uma convidativa mistura de tonalidades à água. É bem mais ampla do que a “banheira” onde nos refrescámos minutos atrás, mas já estamos vestidos, de mochila às costas e com vontade de seguir caminho, por isso optamos por declinar o convite.

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    A meio da subida está uma pequena plataforma, onde se ergue um solitário, gordo e contorcido tronco oco. Daqui, é possível avistar Covas do Rio, que parece inacreditavelmente longínqua e inacessível. Quem diria que está apenas a hora e meia de caminho. Entro no ventre da árvore e registo a sua silhueta distante com uma fotografia, emoldurada pelo tronco rugoso.

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    Continuamos a subir por entre vegetação de um verde tão vívido que parece viscoso, o ondular das folhagens é pegajoso e cola-se aos nossos sentidos e à nossa imaginação. Curiosamente, o trilho prossegue por uma zona que evoca uma floresta húmida da América Latina, com corpos graníticos tatuados a musgo e líquenes e com lianas que descaem ocasionalmente, como madeixas despenteadas. Passamos pelas ruínas de um velho moinho, já sem telhado, portas e janelas, que em tempos mais áureos terá aproveitado as águas do ribeiro para dar sustento a alguém. A partir daqui o trilho sobe a pique, numa tosca escadaria de pedra que ziguezagueia pelo penedo acima. Custa imaginar um caixão a ser transportado por aqui. Mesmo com botas de montanhismo é fácil escorregar nos calhaus soltos, num momento de distração. E não há espaço para cair a não ser para baixo.

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    Os ponteiros marcam 14: 25 quando atingimos o topo. Aqui, na crista do desfiladeiro, é possível descortinar uma passagem, um corredor natural que serpenteia entre as rochas e que, depois de percorrido, nos permite ver finalmente o que existe do outro lado da montanha. Para além de vastos planaltos acastanhados que se misturam com o verde luxuriante da mancha florestal do vale, já é possível avistar os telhados de ardósia das casas da Aldeia da Pena, que brilham com o reflexo do sol.
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    Deixo os meus companheiros seguir viagem, retiro o cantil da mochila e permaneço ali uns instantes a saborear o momento. É impressionante a existência deste tipo de trilhos recônditos, que sulcam tranquilamente locais que à distância se considerariam inacessíveis e por onde se colocaria fora de hipótese qualquer possibilidade de passagem. Surge-me na memória o filme “300”. A parte onde Ephialtes – um grego acossado pelo facto dos espartanos não o deixarem integrar o seu exército devido às suas deformações físicas – cria uma aliança com o rei invasor, Xerxes, ensinando-lhe um trilho secreto por entre as montanhas que permite ao exército persa obter uma vantagem territorial que se revelaria fulcral no desfecho da batalha. Essa influência foi sempre sendo determinante ao longo dos séculos. Viriato usou a mesma vantagem sobre os romanos na Serra da Estrela, Pelágio sobre os mouros nas montanhas das Astúrias, os vietcongs sobre os americanos nas florestas vietnamitas, os mujahidins sobre os soviéticos nos desertos afegãos. Só no presente século é que a tecnologia alterou para sempre a forma como as guerras são travadas e despiu a significância desse precioso conhecimento territorial.

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    O trilho segue por um pequeno bosque à direita, mas os planaltos parecem apetecíveis para caminhar, resolvemos atravessá-los. À medida que nos aproximamos das árvores, ouvimos o tilintar das campainhas do gado, por vezes mais próximo do que as espessas ramagens verdes nos deixam observar. Numa pequena clareira num patamar acima, está a única passagem que nos permite regressar ao trilho que desce em direção da aldeia. O único problema é que entre nós e essa passagem está um enorme boi com olhar de poucos amigos. Ou enfrentamos o bicho ou retrocedemos seis ou sete centenas de metros até à curva do trilho inicial.  Resolvemos atirar uma moeda ao ar. Caras, não seguimos em frente e coroa, voltamos para trás. Saiu caras.

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    Já no trilho, passamos a ter a companhia de dois cavalos, que nos vão seguindo, paralelamente ao caminho, separados por uma rústica cerca com paus e estacas de madeira. A Teresa não resiste a fazer-lhes uma festa no focinho e o gesto encoraja-os. Saltam literalmente a cerca e passam a seguir-nos, mas desta vez atrás de nós.

    O caminho é estreito e os seus cascos são cada vez mais audíveis no cascalho, à retaguarda. São animais amistosos mas se acelerarem o passo, não há espaço para todos. Envoltos neste caricato momento, vamos descendo aquele caminho de cabras e soltando algumas risadas que talvez escondam mais nervosismo do que outra coisa. Até que atravessamos um pequeno riacho e eles ficam por lá a beber água.

     

     

    Entramos finalmente na mítica Aldeia da Pena, com as suas adoráveis casas pequeninas de xisto e telhado de ardósia. Paramos na fonte, para passar água fresca pelo cabelo e encher os cantis. Estávamos cansados e com a sensação de objetivo atingido. Finalmente naquele lendário vale perdido, longe de tudo, incluindo da noção que a verdadeira aventura estava ainda a começar.



  • SEMEAR A INSPIRAÇÃO

    A fresta no assoalho era ligeira, mas permitia-lhe ver que o avô não estava a conseguir controlar o medo. Os seus olhos estavam gélidos e o discurso tropeçava cada vez mais, especialmente quando deparou com a nova afirmação do homem de fato negro.

    – Temos imagens que comprovam o teu crime!

    O velho jurou inocência e olhou desconsolado para o chão, quando foi ameaçado de lhe ser confiscada a sua quinta, que já passava de geração em geração há mais de 100 anos. O seu olhar ultrapassava a rusticidade das tábuas. Sabia que lá em baixo estava a sua mulher, o seu neto e a sua neta. Mandara-os esconder-se no porão, assim que viu o homem de fato negro estacionar junto à sua porta.

    – Desmente lá isto!

    O homem de negro colocou um tablet no balcão, com um vídeo da família do velho a semear milho nos campos.

    – Sabe bem que é ilegal reutilizar sementes. Não temos registo de ter efetuado qualquer compra no presente ano oficial de cultivo, logo infringiu a lei. A nossa corporação tem assim bases legais para processá-lo por Pirataria Agrícola.

    Cá de baixo, o neto via o rosto do avô cada vez mais pálido e temia vê-lo desfalecer. Sabia que ele estava a mentir. Ele estivera presente na reunião à lareira onde o avô partilhou com a Família a sua decisão. Ele tentara cumprir a lei ao longo dos anos, mas tinha-se tornado insustentável. O preço das sementes era caríssimo, não havia outras permitidas no mercado, tinha de comprar aquelas. E custava-lhe seguir a lei que estipulava que todos os anos tinha de comprar sementes novas, mesmo que lhe tivesse sobrado meio saco da semeia do ano anterior. O neto baixou os olhos e pousou-os no rosto da avó. Estava triste, numa tristeza que continha tanto de revolta como de resignação. Aprendera a semear em tenra idade, com a mãe, que por sua vez aprendera com a sua mãe, e por aí fora, numa longa linhagem de transmissão de sabedoria da terra. Semeavam na primavera, colhiam no final do verão, depois apanhavam as sementes e limpavam-nas durante o inverno, para as voltar a usar na próxima primavera. Sempre fora assim, um ciclo natural da agricultura com séculos de idade, que tinha sido interrompido no momento que a corporação obteve autorização para patentear as suas sementes. Eram alteradas geneticamente para resistir ao impacto negativo dos herbicidas e para poderem florir até em terrenos áridos. Essa era a promessa, mas a realidade acabou por ser outra. A sua utilização alterou os ecossistemas e viciou os solos, que passaram a rejeitar todas as outras. Nos solos não viciados, a corporação deu a volta à questão. Através do favorecimento político, conseguiu tornar as sementes naturais ilegais. Apenas as certificadas podiam ser usadas. Muitos desses políticos agora trabalham para a corporação, mas no meio do sofrimento quotidiano, já ninguém se lembra dessas ligações. A corporação aproveitou o monopólio para inflacionar os preços, mas não ficou por aqui. Decidiu que as suas sementes patenteadas teriam de ser compradas todos os anos. Os agricultores estavam proibidos de reutilizar as sementes que tinham à disposição na terra, após a colheita. Mesmo que ainda tivessem sementes por utilizar no saco, era obrigatório destrui-las e comprar um saco novo.
    Ano após ano, o avô tentara cumprir a lei, mas já não dava. Na primavera passada, olhou para o saco meio cheio na prateleira da arrecadação, que tanto lhe custara a comprar e não resistiu. Reuniu a família e semearam de noite, como bandidos que se tentam camuflar na escuridão.

    Hoje, descobriu que a Polícia das Sementes também usa câmaras com visão noturna. Já não sabe mais o que argumentar. As imagens são irrefutáveis.

    – Pronto, está bem, eu aceito pagar a multa – diz, desconsolado, enquanto assina o papel da admissão de culpa. O olhar cada vez mais pesado volta a pender para o chão. Não faz ideia quanto é o valor, não sabe como isso vai afetar a subsistência dos entes-queridos escondidos no subsolo, mas sabe que não tem qualquer hipótese de sobreviver a uma luta judicial contra a corporação.


    A realidade imita a ficção

    Parece um argumento de um filme passado num futuro distópico. No entanto quase poderia dizer-se que é a realidade quotidiana de muitos agricultores no mundo. Milhares têm enfrentado uma luta desigual com as multinacionais que cada vez mais controlam a agricultura. A Monsanto é um gigante empresarial líder na adulteração genética de sementes e detentora de centenas de patentes na área da biotecnologia. Outrora uma empresa de químicos, produziu algumas das substâncias mais tóxicas conhecidas, como a dioxina (considerada cancerígena pela Agência Internacional de Pesquisa do Cancro em 1997), os Pcbs (uma neurotoxina e “provável cancerígeno”, segundo a Environmental Protection Agency), e até o famigerado Agente Laranja, um herbicida tão potente que foi usado pelas forças militares americanas para debastar florestas na guerra do Vietname (foram alvos de inúmeros processos por parte de veteranos com doenças irreversíveis fruto da exposição). Usaram esses produtos durante décadas e ainda hoje se desconhece a dimensão do verdadeiro malefício ambiental e humano daí resultante.

    Em 1980, o supremo tribunal americano permitiu que sementes fossem patenteadas, como um “micro-organismo vivo criado pelo homem”. A Monsanto achou o precedente apetecível e começou a concentrar a sua área de actuação no sector alimentar. Patenteou sementes que resistem a um potente herbicida, também produzido pela empresa. Ganhou o domínio do mercado americano dos transgénicos, com particular evidência no milho, soja e algodão. Rapidamente começou a perseguir agricultores que alegadamente infringem as suas patentes. Quem compra as suas sementes está proibido de as reutilizar ou ceder a outros agricultores. O excedente deve ser destruído e todos os anos o agricultor é obrigado a comprar novas sementes. Usam um exército de investigadores privados que semeiam o medo no coração da América rural. Seguem e fotografam agricultores, filmam campos de cultivo, vasculham o lixo das quintas, infiltram-se em reuniões comunitárias. Mesmo assim, apesar de toda essa vigilância – que lhes valeu a alcunha de “polícias das sementeiras” ou “Gestapo das sementes” – o controlo integral é complicado. Por isso, muitas vezes, atiram o barro à parede.

    Foi o que aconteceu com Gary Rinehart, um comerciante numa pequena região do Missouri, que foi visitado por um desses agentes, que o acusou de estar a usar sementes patenteadas e o ameaçou com um processo em tribunal que lhe ia custar “tudo o que ele tinha”. Gary nem sequer era agricultor, por isso sabia que a acusação era infundada. Quando foi intimado para comparecer em tribunal, contratou um advogado apareceu na sala de audiência de peito aberto. Soube que o investigador o tinha filmado na época de plantação e que na acusação estava descrita até a cor do saco de sementes que teria usado. O relatório ia ainda mais longe: Quando ficou vazio, o saco voou para a estrada – em terreno público – onde o investigador pode recolher alguns grãos de soja, cujas análises em laboratório comprovaram ser “tecnologia da Monsanto”. Gary parecia estar tramado, não fosse o facto de não ser agricultor e nem sequer ter um terreno agrícola. Foi dado como provado em tribunal que o investigador se tinha “enganado no agricultor”. A Monsanto limitou-se a desistir da queixa, mas não admitiu publicamente o erro, nem sequer se ofereceu para pagar as despesas com o advogado que Gary, a muito custo, conseguiu suportar. Centenas de agricultores não têm essa sorte. Não podem pagar um advogado, nem suportar uma dispendiosa batalha judicial contra um gigante com recursos ilimitados. São vencidos pela intimidação antes sequer do primeiro assalto e pagam as multas que a Monsanto aplica, seja a acusação verdadeira ou não. A própria presença de sementes patenteadas nos seus terrenos pode ter justificações naturais, como a polinização, podem ter sido transportadas pelo vento ou por pássaros. Mas as táticas de intimidação tendem a vergar a mera possibilidade desse argumento.

    A fuga é difícil, as alternativas são cada vez menores. A corporação desdobra-se em esforços para controlar o mercado. Em 2005, compraram a Seminis (que na altura controlava 40 por cento do mercado americano das alfaces, tomate e outros vegetais) e a Emergent Genetics, a terceira maior empresa de algodão do país. As estimativas apontam que a Monsanto controla 90 por centro da produção americana de soja.


    Documentar a realidade

    A capacidade de patentear e privatizar as sementes é um precedente perigoso. Quem controla o mercado das sementes controla o fornecimento de comida de uma nação. Ou do mundo. A realidade abre cenários alarmantes e têm sido várias as vozes no mundo a se levantar em alerta. Uma delas é portuguesa. Chama-se Sara Baga e está a realizar um documentário chamado «Seed Act» que aborda toda esta problemática. Viajou e filmou em Portugal, França, Grécia, Inglaterra, Itália e Bélgica. Visitou inúmeras comunidades agrícolas e travou conhecimento com vários guardiões de sementes, “pessoas que trabalham de várias formas, com as mãos na terra, a tentar salvar a biodiversidade de sementes de polinização aberta, uma herança ancestral comum criada por agricultores ao longo de milhares de anos”. A paixão que nutre pelo tema é perceptível no seu discurso entusiasmado e compreensível pela profundidade da sua raiz. Cresceu nos anos 80 numa área periférica de Lisboa, Amadora, onde costumava passear de mão dada com a avó em campos baldios, cheios de ervas e flores. O seu sítio preferido era uma horta que uma senhora cultivava num campo junto à estação de comboios, onde existiam couves que pareciam gigantes ao lado dela. Sentia-se fascinada por esses momentos, que depois reproduzia nas suas pinturas com guaches e aguarelas.

    A arte foi conquistando espaço na sua vida e anos depois estava na Faculdade Belas-artes de Lisboa a tirar o curso de Design de Comunicação. No quarto ano, aproveita um projecto escolar para partir à descoberta desse mundo marginalizado que a fascinava, as hortas sociais que se espalhavam agora por baldios do centro lisboeta, tal como antigamente na periferia onde tinha crescido. “Era algo totalmente marginal na altura, ao contrário, do que acontece hoje, em que as hortas urbanas ganham nova cara e são vistas pelas pessoas de forma muito diferente de há anos atrás”.
    Sara foi conhecer agricultores, falar com eles, escrever sobre o que faziam, fotografar as suas hortas. A partir daí começou a olhar para os sistemas alimentares com outros olhos e a aprofundar o seu conhecimento na área. “Sobretudo pensar criticamente sobre a evolução desta sociedade, as cidades e o campo, a forma como nos alimentamos e como vemos aqueles que nos trazem o alimento”.

     

    trigo colheita 3-2Semear a primeira obra

    Em 2010, depois de um inverno frio em Amesterdão como bolseira de uma residência artística num projecto de arte social sobre gentrificação em espaço urbano, apanha um avião para a Guiné-Bissau para fazer um documentário.“Fui ter com o meu amigo Fernando Sousa, investigador em segurança alimentar e biologia de solos que estava a fazer uma pesquisa sobre segurança alimentar na zona e o caso da monocultura de caju”.
    Nessa viagem, Sara teve oportunidade de conhecer comunidades de etnias de agricultores em áreas muito remotas, mas todas elas dependentes da produção de caju para exportar para a Índia em troca de arroz. “É um país com uma grande fatia de população camponesa que vive de forma extremamente simples mas está a sofrer muito por não ter nem soberania alimentar nem recursos económicos que a colmatem”, refere Sara, acrescentando que a Guiné-Bissau “tinha já nessa altura mais de sete por cento da sua área coberta com monocultura de caju, uma extensão imensa para a escala de um país”.
    Dessa experiência nasce o seu primeiro documentário, «Hortas Di Pobreza», que venceu o prémio de melhor longa-metragem lusófona no FESTin em 2011. Durante o processo de edição, sentiu uma epifania que estaria na origem do «Seed Act». “Tive um flash, uma visão sobre um filme que ainda não existia, que se apresentasse em actos, como numa peça teatral, e cada acto aparecia isolado no seu contexto específico. Cada acto era uma situação concreta e cada situação era uma ideia para acção”.

    Esse desígnio é uma das origens do título, que faz um trocadilho com uma outra palavra, outra situação, que a inspirou por antagonismo: “Federal Seed Act foi a primeira lei sobre sementes que foi criada nos EUA, seguiram-se outras e elas abriram precedentes para que a indústria corporativa começasse a controlar o mercado de sementes, que antes era tão aberto (verdadeiramente, não no sentido neoliberal) quanto local, e fizeram com que os agricultores que seleccionavam e cuidavam as sementes fossem remetidos para um papel secundário”, refere, sublinhando um outro precedente mal-intencionado, o do registo obrigatório das sementes – em nome de individual ou de uma corporação – para que pudessem ser vendidas.
    “As sementes evoluíram por diversidade junto dos agricultores do mundo por milénios. Diversidade significa possibilidade de vida e adaptação, enquanto a uniformidade que se quer tornar normativa está associada à perda de diversidade e morte, particularmente porque esse critério foi criado para controlo industrial do sistema alimentar”. Acrescenta ainda: “Nos últimos anos temos visto uma tentativa de associar o registo de sementes à patenteação de sementes. Ora, as patentes foram criadas para registar autoria sobre invenções, as sementes não são invenções, são seres vivos e estes tratados foram os primeiros a abrir a possibilidade de registar patentes sobre a vida”. Um momento de pausa, o olhar longínquo no horizonte e uma convicção bem presente: “A Monsanto e as outras quatro megacorporações – que tentam controlar industrialmente as sementes e são basicamente derivadas da indústria química e armamento do século XX – não têm lugar num futuro em que as sementes serão um bem comum da humanidade”.

     

    Casualidade inspiradora

    Antes de partir para a produção de “Seed Act”, passou por outra experiência inspiradora. Visitou com os pais uma exposição de pintura de um amigo numa livraria do Bairro Alto e, por mero acaso, descobre que está a decorrer uma apresentação na sala ao lado. Intitula-se “Colher para Semear”. Foi aí que conheceu José Miguel Fonseca – que apelida de “o caçador de sementes português” – fundador de uma associação homónima à palestra. “Basicamente são um banco de sementes tradicionais agrícolas, cujos guardiões de sementes replicam as variedades antigas de sementes que descobrem país fora, mantendo-as vivas”.
    Sara adorou a experiência, o contacto com aquelas pessoas “incríveis, humildes e muito dedicadas a preservar esta frágil e importantíssima herança que são as sementes agrícolas tradicionais”. Ela própria tornou-se uma guardiã de sementes.
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    De volta aos campos férteis

    Quando meteu mãos à obra, percebeu que a ideia parecia megalómana para uma realizadora independente, sem produtora nem financiamento. Mas para além de uma força de vontade indomável, Sara não queria fazer o filme sozinha, mas em equipa. E a equipa foi aparecendo: “fui convidando algumas pessoas para fazerem parte do projecto. Um dos grandes desafios foi escolher quem e que estórias colocar no filme. A minha cabeça fervilhava de ideias e a cada dia me aparecia uma nova possibilidade. Escolher entre elas foi um processo longo de decisão, de construção de possibilidades complementares para criar um filme que é uma história cheia de histórias, cada uma a mostrar algo único, dentro do geral que é a multiplicidade de formas de fazer uma mesma coisa – salvar as sementes”.10928867_829234883814825_8323963324965732388_n

    Durante a produção conheceu “pessoas incríveis”, algumas que a acompanharam na “caminhada incerta”, outras que por falta de recursos económicos para conseguir pagar os custos de viagens acabaram por ficar de fora. Mas diversas vezes, quando confrontada com a adversidade, houve situações mágicas que se conjugaram e fizeram acontecer. Em 2014 pretendia filmar uma serie de situações mas não tinha orçamento para todas as viagens. De repente, surge a Caravana Internacional pela Liberdade das Sementes, que permite a deslocação a França – onde há uma associação de guardiões de sementes chamada kokopelli que há uma década luta em tribunal para poder continuar a vender as suas sementes – e à Grécia, onde os Peliti organizam o maior festival de dádivas de sementes do mundo, onde guardiões voluntários oferecem sementes e almoço a mais de seis mil pessoas, num povoado distante no norte do país, perto das montanhas de Rodopia.

    “Acho que foi uma conspiração sincrónica do universo a dizer – ‘bora, tudo é possível, mesmo sem budget! E assim tem sido, porque em três anos e com um terço do orçamento previsto conseguimos continuar a construir este projecto, mesmo sem ninguém receber nenhuma remuneração pelo trabalho”, assegura Sara. Os seus honorários têm sido as sensações de gratificação que vai sentindo ao longo do projecto, por estar a criar algo que possa inspirar as pessoas e que faça a sociedade mover-se um bocadinho mais para a soberania alimentar e para a agroecologia.

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    “Quando comecei este projecto tinha apenas a ideia de que queria fazer um filme que fosse uma dádiva, que fosse uma semente, livre, sem patentes e que se multiplicasse, tocando muitas e muitas pessoas ao longo do seu caminho”.

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    Decorre presentemente uma campanha de crowdfunding (http://tinyurl.com/kazoef9) para financiar a pós-produção de «Seed Act», tendo já angariado cerca de 5 mil dólares. A campanha termina dentro de três dias. Seja qual for o total do valor angariado, “o projecto irá florescer”, garante a jovem realizadora. Há sementes assim…



  • O PUTO QUE CRUZOU A EUROPA NO DORSO DE UMA SCOOTER «III – Espanha»

    ─ Los campings están cerrados en esta época del año.

    O puto não desanimou com a resposta do polícia. No fundo sabia que eram poucas as esperanças de encontrar um parque de campismo aberto numa madrugada de Janeiro na pequena povoação de Alcántara. No entanto, pareceu-lhe uma boa explicação à questão do agente, que o tinha mandado parar momentos antes, curioso com o que andava a fazer um rapaz português numa scooter cheia de tralha, no meio da noite às voltas no centro daquele pacato ‘pueblo’. A maior dúvida foi sobre a resposta à segunda questão, relativa ao seu destino. “Digo-lhe? Se calhar é melhor não. Ou digo?”, debatia-se, num divertido dilema mental. “Que se lixe, vou dizer”.

    ─ Vou para a Alemanha. ‘Concentración de motos’.

    O polícia arregalou os olhos e com a boca entreaberta numa expressão de espanto, limitou-se a fazer um gesto com o braço a mandá-lo seguir viagem. E o Puto seguiu, a rir-se desalmadamente dentro do seu capacete branco; a loucura do que estava a viver era palpável pela incredibilidade de todos os que encontrava no caminho.

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    Bem carregada, a Buxy descansa junto à estrada enquanto a noite já caiu sobre o país vizinho

     

    Esgotada a possibilidade do parque, é preciso encontrar uma solução para dormir. No dia seguinte precisa de meter gasolina, por isso resolve procurar umas bombas de abastecimento e tentar acampar lá perto. Após algumas voltas, encontra-as. Estão desertas. Contorna-as, as traseiras ficam viradas para um pinhal. “É aqui mesmo”. Retira a tenda e monta-a encostada à parede, com a motorizada à frente. Lá dentro, já despido do espesso e desconfortável fato de neve, escreve pela primeira vez no bloco de notas. O cansaço afeta-lhe a caligrafia, mas escreve pelo menos duas páginas. É a primeira noite da sua aventura, o saco-cama pode esperar mais uns minutos.

    Acorda às 9h00 com o ruído dos carros. Recolhe o material e entra no estabelecimento para tomar o pequeno-almoço. O empregado não toca no assunto do acampamento improvisado, por isso opta por também não dizer nada. Decide comprar um pote de cinco litros, para contornar a baixa autonomia do tanque da scooter e não estar tão dependente da necessidade de ter de encontrar postos de abastecimento de 100 em 100 quilómetros e conjugar os seus horários de abertura com os da sua rota. Atesta o depósito, depois o pote, perde alguns segundos a descortinar onde raio o vai carregar e arranca. Próxima paragem: Cáceres.
    Deixa Alcántara para trás, sem ter noção que algures durante a noite anterior passou por aquela que é a ponte mais alta construída pelo império romano. Um esplendoroso feito arquitetónico, erguido no ano 106, com seis arcos e 61 metros de altura. Junto à sua base, onde passam as águas do Tejo, está enterrado o arquiteto, Caio Júlio Lacer, que na altura profetizou que a ponte perduraria “ao longo dos séculos do mundo”.

    Replaneamento

    Compra pão, paio e queijo num supermercado de Cacéres. Mete tudo num saco plástico e conduz até ao centro histórico, à procura de um sítio agradável para comer. Almoça nos degraus da enorme Plaza Mayor. Aproveita para consultar o mapa e voltar a traçar a rota, voltando a amaldiçoar o facto de se ter esquecido do roadbook em Portugal. Trujillo, Madrigalejo, Piedrabuena, são algumas das povoações que vai atravessar, até alcançar Ciudad Real, bem no centro de Espanha, onde pensa pernoitar. São 275 quilómetros que pensa fazer em cerca de quatro horas de viagem, na sua média de 80km/h.

    Entra em Ciudad Real ao final da tarde. Olha para o relógio e constata, com alegria, que vai ter tempo para visitar a cidade. É sua primeira visita turística desde que deu início à aventura. Passeia pelas ruas, a sua Buxy consegue levá-lo até pelas mais exíguas ruas do centro histórico. Espreita a imponente torre da catedral, delicia-se com a fascinante arquitetura do edifício da Câmara, observa o entardecer a tingir de vermelho as paredes de pedra da Plaza Mayor. Tinha pesquisado sobre a cidade e sabe que é a capital da região histórica de La Mancha. Resolve pedir indicações para o Museu Dom Quixote. Por três vezes depara-se com olhares confusos acompanhados da frase “no te entiendo”. É entendido à quarta tentativa, mas encontra o museu fechado. Come umas tapas numa esplanada e resolve manter a tradição iniciada na noite anterior. Parte em busca de umas bombas para acampar.


    Rumo ao mediterrâneo

    Arranca de Ciudad Real às nove da manhã, rumo a Valência, na costa mediterrânica. Um esticão de 350 quilómetros. Está um frio de rachar no interior espanhol, tanto que tem dificuldade em mover os dedos da mão esquerda ao acionar o travão. Para além disso está nevoeiro. Percorridos cerca de 30 quilómetros, sente o nevoeiro cada vez mais cerrado, ao ponto de ter dificuldades em ver a estrada. Levanta a viseira do Capacete e constata que afinal não está nevoeiro nenhum. A viseira é que está congelada, cheia de gelo acinzentado. Tenta limpá-la em vão, a camada de gelo é espessa e está demasiado colada ao plástico. Vai precisar de água. Continua a viagem, de viseira aberta, em busca de um posto de abastecimento. Demora pelo menos trinta minutos até encontra um. Estaciona junto à mangueira da água e lava a viseira, que fica transparente outra vez.

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    Resolve ir tomar um café. Ao sair da mota, cruza com um casal e acha ligeiramente estranho o facto de se terem começado a rir após passarem por ele. Não liga, segue, abre a porta e deixa passar um tipo que estava de saída. Notou que o tipo levou a mão à boca a tentar controlar uma gargalhada. “Outra vez?”. Começa a ficar intrigado. Vai ao balcão e antes que pudesse pedir um café, já o empregado está engasgado de riso, atrapalhado e a tentar em vão pronunciar a palavra “perdon” no meio das risadas. “Epá mas que raio se está a passar?”, pensa, abrindo as mãos em jeito inquisitivo.

    – Sus cejas, sus Cejas! Un montón de hielo!

    – O quê?! – responde, enquanto pensa: “estes gajos andam passadinhos da cabeça!”

    O empregado sai do balcão e leva-o a um expositor de óculos escuros, onde existe um espelho.

    – Mira!

    É nesse momento que o Puto constata que tem as sobrancelhas e as pestanas completamente congeladas. Estão densas, grossas e cinzentas, como um Álvaro Cunhal das neves. Há pedacinhos de gelo a pender sobre as pontas, parecem minúsculas estalactites que brilham à luz das lâmpadas e ainda mais à do sol. Sai para a rua e imortaliza o caricato episódio com um auto-retrato.

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    Efeitos das manhãs invernais no interior espanhol

    Regressa ao seu expresso, troca umas palavras com o empregado e volta à estrada. Nesta zona de Espanha as retas são longas e rasgam planícies que se estendem para lá do olhar. Faltam algumas dezenas de quilómetros para chegar a Albacete, cidade cujo nome deriva do árabe ‘Al-basi’, que significa precisamente “planície”.
    Encontra um pequeno supermercado na extremidade oeste da cidade. É um espaço muito exíguo e rústico. Para além das prateleiras com os produtos, tem três mesas num canto onde é possível petiscar. Pede duas sandes ao proprietário, um simpático velhote com cabelo grisalho encaracolado e ar bonacheirão. Ao tomar conhecimento da sua natureza forasteira, não hesita em partilhar – enquanto corta o ‘jamón’ – que em Albacete “se hacen los mejores cuchillos de toda España”. O puto percebe instantaneamente que ‘cuchillos’ são facas ao ver o velhote brandir o objeto durante a sua exclamação.

    Compra alguns mantimentos suplementares e prossegue a viagem. Atravessa a cidade sem parar e segue pela estrada 322 para nordeste. O céu está pardo e caiem alguns chuviscos de vez em quando, mas a aragem está surpreendentemente morna. Após cerca de hora e meia, enquanto atravessa a povoação de Casas-Ibáñez, trava abruptamente a motorizada ao avistar uma placa. Desliga a ignição, dá alguns passos. Desde que saíra de Albacete sabia que ia ter de enfrentar esta decisão. Tem o olhar preso nos traços negros que destacam as palavras ‘Alcalá del Júcar’ no retângulo caiado que o direciona 19 quilómetros para Sul. Deixa que a chuva lhe escorra pelos longos cabelos loiros, talvez isso lhe refresque o ímpeto. O desvio não é grande, mas pretende chegar ainda hoje a Valência e ainda tem algumas horas de viagem pela frente. Olha para o céu, os dias invernais são curtos e já não falta muito para escurecer. Suspira fundo, coloca o capacete na cabeça com alguma pena, monta no seu cavalo mecânico e arranca sem olhar para trás. Sabe que ao longo desta aventura vai encontrar vários sítios que gostaria de visitar mas que terá de ignorar, pois o itinerário, os prazos estimados de viagem e o derradeiro destino são prioritários. Alcalá del Júcar é um desses sítios. Há alguns anos viu um postal com uma povoação de pequenas casas caiadas, aconchegadas umas nas outras e alojadas numa colina de pedra, com um imponente castelo árabe no topo. A visão, a partir de um riacho no sopé da colina, tinha-o deslumbrado e jurara a si mesmo que um dia ia testemunhar essa paisagem com os seus próprios olhos. Quando começou a traçar o mapa desta aventura, soube que ia ter uma oportunidade para satisfazer esse desejo. Optou por abandoná-lo e embora estivesse convicto da sua decisão, o ruído monocórdico do motor e a visão da chuva a cair no asfalto pareciam alongar a melancolia desse abandono.

    Sabe que ao longo desta aventura vai encontrar vários sítios que gostaria de visitar mas que terá de ignorar, pois o itinerário, os prazos estimados de viagem e o derradeiro destino são prioritários


    La ciudad fantasma

    “Mas o que raio se passa nesta terriola?”. É o terceiro posto de combustível que encontra fechado na pequena povoação de Requena. Não é tarde, são 21h30, mas toda a cidade parece ter-se deitado com as galinhas. Não são só as bombas, todos os bares e restaurantes que encontra pelo caminho estão fechados. É impreterível encontrar um posto de abastecimento, pois não tem combustível para prosseguir viagem. Farta-se de dar voltas e encontra outro, também fechado. Mentaliza-se que vai ter de pernoitar aqui. Deixa a motorizada nas traseiras mas não monta a tenda. É cedo, decide ir dar uma volta. Olha para a Buxy, cheia de tralha, com cordas e sacos plásticos por todo o lado e conclui que o seu aspeto desencorajará qualquer larápio de se aproximar. Mesmo assim, leva consigo os pertences de maior valor e parte para explorar a cidade fantasma. A expressão adequa-se, não encontra ninguém nas ruas e são poucas as luzes acesas nas janelas. Percorre algumas ruelas do centro histórico e desagua num largo, onde encontra uma enorme fonte redonda em pedra, sem pinga de água. Abana a cabeça e regressa às “bombas de campismo”, intrigado pelo silêncio de Requena e aborrecido por ter sacrificado Alcalá del Júcar em vão.

    O Puto desperta sobressaltado. Está cheio de frio. Olha para a manga direita, está branca. Todo o fato está coberto de geada. Dera-lhe a preguiça na noite anterior. Não lhe apeteceu montar a tenda e resolveu improvisar. Encostou a scooter a um metro da parede e deitou-se lá no meio, com a colchonete por baixo e dois dos sacos-cama atravessados entre o topo da scooter e uma saliência na parede, numa espécie de alpendre inventado. O fato de neve chegava para o abrigar e manter quente, pensara. Agora colhia, trémulo, os frutos da invenção. Sacudiu o fato, pediu ao empregado as chaves da casa de banho e secou-o parcialmente nos secadores das mãos. Bebeu um café, encheu o taque e o pote e apontou a bússola na direção do mar.
    Alcança-o a meio da manhã. Valência, finalmente. Tinha atingido um marco importante da viagem, Espanha estava oficialmente atravessada de Oeste a Este e agora era só subir a costa até à fronteira com França. Atravessa a cidade em direção à costa. O calor mediterrânico faz-se sentir. “Vou assar dentro disto”, pensa, desejoso por despir o fato térmico. Encosta num pequeno miradouro junto ao mar, aguarda por um momento mais solitário e muda de roupa mesmo ali. Há quatro dias que não despia o fato, que até ali lhe tinha dado um precioso conforto térmico mas agora o calor derretia a insignificância das suas inconveniências e deixava-as bem à vista. O peso, a prisão de movimentos, a transpiração excessiva das botas. Sentia-se agora outro, de sapatilhas, calças de ganga e casaco corta-vento. É assim que percorre a avenida Carrer de Pavia, inundada de sol e ladeada pelas palmeiras, a areia dourada e o azul do mediterrânio. Após vários dias enregelados e encharcados, é indiscritível a sensação de ter raios de sol que lhe queimam ligeiramente a pele. Atravessa a avenida Mare Nostrum e entra na N-340, que o levará até Barcelona. A diversidade paisagística da costa valenciana apaixona-o. São muitos os quilómetros percorridos com as montanhas a acompanhar o mar. Quando vislumbra a cordilheira de Desert de les Palmes à esquerda, fica impressionado com a sua proximidade ao mar, mas cerca de 15 minutos depois encontra o cenário oposto, à sua direita está a Serra d’Irta com os seus 500 metros de altitude que lhe ocultam o mediterrânio.


    Barcelona à Vista

    O Puto entusiasma-se quando avista, ao longe, a palavra Barcelona pela primeira vez numa placa. “Já não deve faltar muito”, pensa, ansioso por um dos seus pontos sublinhados no mapa. Nunca foi à capital da Catalunha e espera conseguir visitá-la, pelo menos minimamente. Fica ligeiramente desconsolado quando a proximidade lhe permite distinguir os três números à frente do nome da cidade: 333. “Ainda estás longe, mas nunca estive tão perto de ti”. Pára a scooter em frente à placa e regista o momento.
    Após algumas horas na estrada, resolve pernoitar em Tarragona, pequena cidade portuária a 100 quilómetros de Barcelona. O sol já se começou a esconder e o Puto faz questão de entrar na cidade olímpica durante o dia. Encontra um posto de abastecimento, estaciona a scooter e resolve ir pedir autorização ao empregado para acampar nas traseiras. A questão acaba por não ser colocada. Quando dá por ela já estão há três horas a conversar animadamente sobre aquele plano doido, já chegaram amigos do empregado, já se partilharam cervejas. Desde que partiu de Portugal o Puto apenas estabelecera conversas ocasionais de meros instantes, já sentia falta de um genuíno momento de convívio. Já a noite ia longa quando o empregado lança a pergunta:

    – E agora, vais dormir onde?

    Abana a cabeça quando o Puto lhe propõe acampar nas traseiras. Mete a mão ao bolso e retira de lá uma chave.

    – Estou a fazer o turno da noite, por isso podes ficar a dormir no meu carro até eu sair.

    Surpreendido e sensibilizado, o Puto dá-lhe um abraço. Sai para a aragem fria da madrugada, destranca a porta e aloja-se no banco de trás do Golf. Já não terá muitas horas de sono, mas vai dormir confortável. Retira o bloco da pasta e escreve durante alguns minutos. “Penso que amanhã o dia me vai correr melhor” é a frase que antecede o clique da lanterna e o ruído do fecho do saco-cama.
    Desperta às 8h00 com três pequenas batidas no vidro. Antes da despedida, é informado que junto às casas de banho há chuveiros que ele pode utilizar. 100 pesetas garantem-lhe cinco minutos de água quente. É o primeiro banho após quatro longos dias na estrada. Insere três moedas.


    Obstáculos olímpicos

    “Não acredito, outro?”. É o terceiro túnel que encontra para entrar em Barcelona, todos com acesso interdito a ciclomotores. Anda pelo menos duas horas às voltas até encontrar uma entrada. “Esta cidade é lindíssima, mas os acessos são complicados”. O pensamento é interrompido pelo toque do telemóvel. Reconhece o número, é de uma estação de rádio, para a entrevista diária. Está no meio do trânsito caótico de Barcelona, filas, buzinas, peões impacientes. Opta por subir uma rotunda e é entrevistado lá no meio, indiferente às centenas de carros que o contornam.

    Continua a perder-se no meio do quotidiano acelerado da metrópole. Por fim, desagua no Porto Olímpico, onde opta por parar. Senta-se num muro junto à marginal, na companhia de um Big Mac e uma Coca-cola. O tempo perdido às voltas deixou-o um pouco desgastado. Opta por permanecer uma hora naquele local, a relaxar o olhar e os restantes sentidos naquele mar sem ondas cuja serenidade se estende até ao horizonte.
    Deve ter permanecido ali mais tempo do que o previsto. Levanta-se com um salto. Alonga o corpo, respira fundo, sente-se revigorado, confiante. Senta-se na scooter e deixa que a brisa morna mediterrânica lhe agite os longos cabelos louros, antes de colocar o capacete na cabeça e arrancar, triunfante, ignorando o facto que irá passar as próximas quatro horas perdido a tentar encontrar a saída da cidade na direção de Girona.

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    No cansaço da estrada cada placa é um sopro de encorajamento

     

    Perdeu a conta às povoações que encontrou pelo caminho com a designação “Del mar”, até alcançar a cidade que os romanos batizaram de ‘Gerunda’. Já é de noite, mas França já está perto. Opta por encher o depósito e seguir viagem. A norte atravessa a vila natal de Salvador Dali, Figueres, convicto que os percalços do dia já tinham sido esgotados. Um enorme sinal indica-lhe que a estrada nacional está encerrada para obras e que a sua convicção estava errada. Está escuro como breu e o Puto está cansado, o dia foi longo, talvez o mais longo de todos. E agora, a meros trinta quilómetros de França, cortam-lhe o caminho. Enquanto deambula pela zona, vê uma placa com a indicação ‘AP – 7 La Jonquera’, a povoação fronteiriça que pretende alcançar. A placa é azul. É uma autoestrada.
    Sabe que essa via lhe é interdita, mas opta por seguir a seta, enquanto pensa no que fazer. Esse tempo para arejar ideias esgota-se num instante, pois a poucas centenas de metros depara com a barreira da portagem. Segue-se um momento de dúvida, de hesitação. Sabe perfeitamente que pode ser multado, rebocado ou, na pior das hipóteses, ter um acidente grave. Por outro lado, está farto de tempo perdido e voltas em vão. Retira o ticket, observa a cancela erguida à sua frente. Algures, um neurónio acelera um impulso eletroquímico que atravessa as células do seu corpo até chegar ao seu punho direito, que começa a rodar. Primeiro um bocadinho. Depois a fundo.



  • MANSON: CULTO DE PERSONALIDADE

     

    L ynette Fromme estava sentada no passeio de Venice Beach, na Califórnia, quando viu a carrinha aproximar-se. Tinha acabado de abandonar a universidade e tinha os seus pertences consigo, despejados em sacos e malas. Estava deprimida e confusa, não fazia ideia do rumo que iria dar à vida. Quando o vidro desceu e uma voz rouca lhe ofereceu boleia, Lynette hesitou. O silêncio durou meio minuto, até a voz rouca misturar a frase “não posso decidir por ti” com um sorriso malandro e com o arranque cadenciado da carrinha. Quando a carrinha já estava ao fundo da estrada, Lynette agarrou nas suas coisas, levantou-se e correu. Correu cada metro daquela estrada deserta que mergulhava num entardecer alaranjado, impelida pela mesma brisa morna que abanava as folhas das palmeiras e por um ponto de interrogação tácito que a seduzia e lhe completava a tela idílica exposta na galeria do pensamento. Corria impulsionada por uma emoção súbita de espontaneidade, uma vontade de ser livre e provar o fruto das possibilidades por desvendar, cujo sabor se imagina sempre doce. Corria em direção à carrinha conduzida por um dos ‘serial killers’ mais mediáticos da história, longe de imaginar que não seria uma das suas vítimas, mas uma das suas cúmplices. Uma de muitas.


    As mulheres de Manson

    Ao todo foram cerca de vinte as mulheres que se juntaram a Charles Manson nos anos 60 e que constituíram a famigerada “Manson Family”. Faziam tudo por ele. Cuidavam da casa, satisfaziam todas as suas fantasias sexuais, matavam por ele. Sim, Manson foi imortalizado na história da criminalidade como serial killer, mas na prática, nunca espetou a faca nem premiu o gatilho. Foi sempre a “família” a fazer o trabalho sujo. Curiosamente, eram na sua maioria mulheres instruídas e inteligentes, provenientes de famílias de classe média-alta e matriculadas em universidades de renome.

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    Alguns membros da família Manson no Spahn Ranch. Lynette Fromme em baixo, à direita.

    Mary Brunner era bibliotecária em Berkley com curso universitário; Leslie Van Houten provinha de uma família tradicional americana, foi coroada ‘home coming princess’ na mesma escola onde integrava o quadro de honra; Linda Kasabian era descrita pelos professores como “boa aluna”, “inteligente” e “incurável romântica”; Catherine Share era uma universitária, filha adotiva de um psicólogo; Patricia krenwinkel tinha sido catequista e estudava numa universidade jesuíta; Susan Atkins fora uma menina de coro; Lynette Fromme escrevia poesia e peças de teatro no colégio, onde foi eleita ‘Personalidade do Ano’. Outrora vivera numa casa pintada de branco, com relvado, sebes cortadas e uma bandeira americana hasteada junto à porta. No fim da viagem, iria morar num velho rancho (Spahn Ranch), propriedade de um idoso, que deixava a família Manson viver lá de graça, a troco de favores sexuais. Foi num desses favores que Lynette ganhou a alcunha pela qual se tornaria conhecida: Squeaky, que numa tradução literal significa “guinchinhas”. Fora batizada pelo idoso, devido aos sons que fazia quando ele lhe acariciava o corpo.

    Para todas elas, Manson personificava um génio, um vidente, um guru. Impressionava-as com a sua retórica e com a sua capacidade de argumentação e elas seguiam todas as suas orientações, cegamente, entusiasticamente. Manson divertia-se a testar ou até expandir os limites. “Vai-me buscar um coco fresco, não me interessa que tenhas de ir até à Jamaica buscá-lo”, instruiu a Susan. A jovem sorriu-lhe, levantou-se do tapete da sala e só se deteve na porta, quando ouviu Manson dizer: “Deixa estar”. Não tinha de se preocupar com dissidências do grupo, pois elas policiavam-se umas às outras. Se uma delas começava a denotar um comportamento irrequieto, a ter dúvidas ou receios, Patrícia metia-as em ordem. “Manda-as vir ter comigo que eu faço-as sentir melhor”, assegurava a Manson. E Squeaky era uma espécie de figura maternal do grupo, sempre disponível com os seus ouvidos compreensivos e um abraço confortante. “Havia uma relação muito próxima entre todas, havia muito amor lá. Antes de haver medo, morte e assassinato”, confessaria mais tarde Barbara Hoyt, que optou por abandonar o grupo quando o sentimento fraternal começou a azedar.

     

     

    Música, paranóia e a inseminação da convicção  

    Manson não atraia apenas jovens inseguras. A sua reputação de guru espalhava-se pela Califórnia e chegou a atrair a atenção de estrelas da música como Jim Morrison (Doors), Cass Elliot (The Mamas & The Papas) e Denis Wilson (Beach Boys). Este último, Manson conseguiu que lhe pagasse um tratamento à gonorreia e tempo de estúdio para gravar algumas músicas que também compunha.
    Numa tarde de Dezembro de 68, Manson ouve um disco acabado de estrear, o “White Album” dos Beatles. Nessa mesma noite, reúne a família à volta de uma fogueira e partilha com eles a sua visão do futuro. Prevê uma guerra entre brancos e negros que vai devastar o país. Esse confronto apocalíptico, assegura, é um mal necessário, pois irá purificar o país e terraplanar as bases para o emergir de uma nova sociedade, governada pela família Manson. Os Beatles – que apelidava de “parte do buraco do infinito” – tinham previsto esse acontecimento, daí o nome do álbum e as várias músicas que lançaram em código, em particular “Helter Skelter”. Alguns desses códigos eram dirigidos à família, como aviso para serem tomadas medidas de “preservação dos merecedores perante o desastre eminente”. Todas as jovens raparigas saborearam as palavras de Manson, sem sombra ou travo de perplexidade e aplaudiram em êxtase quando ele afirmou que o caminho a seguir seria gravar um álbum cheio de mensagens subliminares como o dos Beatles, que ao serem desvendadas iriam contribuir para o despertar do tão necessário conflito. Para esse plano, Manson contava com a colaboração de Terry Melcher, produtor musical que tinha conhecido através de Denis Wilson. Chegaram a ter uma data marcada para debater os detalhes mas Melcher faltou e acabou por perder interesse.

     

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    A célebre “gruta da família”, nos arredores de Spahn Ranch (Califórnia)

     

    A paciência de Manson não lhe permitiu esperar muitos dias até resolver ir tirar satisfações à casa de Melcher. Quando lá chegou, no número 10050 de Cielo Drive, descobriu que Melcher já não vivia lá e a casa estava alugada à família Polanski. Regressou ao rancho e alterou o seu plano. O tempo para a subtileza esgotara-se. Iriam matar um conjunto de personalidades brancas e iriam fazê-lo de forma a incriminar os negros. A seu ver, seguir-se-ia um ciclo vicioso de violência racial que iria eclodir no fenómeno apocalíptico que previra.

     

    O Sangue que tinha de ser derramado

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    “Morte aos Porcos”, escrito com sangue das vítimas na parede da casa da família LaBianca

    O plano estava traçado, mas Manson não forçou nenhuma das suas cúmplices a perpetrar os crimes. Apenas as influenciou, sublinhando a importância desse acontecimento e, consequentemente, da sua colaboração. “Não havia ordens, ninguém nos obrigou a nada. Fazíamos o que queríamos, acreditávamos, por isso fizemos”, confessaria Squeaky mais tarde. Todas elas participaram, direta ou indiretamente, nos nove assassinatos. Linda, Patricia, Susan, Leslie e dois raros cúmplices masculinos (Tex Watson e Greg Grogan) cometeram os assassinatos. Manson apenas instruía: “Destruam toda a gente que estiver dentro da casa da forma mais macabra possível”, referiu em relação ao célebre massacre em Cielo Drive que vitimou Sharon Tate (grávida de oito meses e meio) e mais três pessoas que estavam na casa, tal como um jovem de 18 anos que teve o azar de escolher aquela noite para visitar o seu amigo, caseiro da residência, e que estava de saída no preciso momento em que o grupo chegou aos portões. As instruções foram seguidas. Os crimes foram brutais, a mansão da estrada do céu amanheceu com um cenário macabro de violência extrema, corpos desfigurados, mensagens escritas em sangue nas paredes.

     

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    O Título da música dos Beatles, escrita com o sangue da actriz Sharon Tate no frigorífico da vítima

    Na noite seguinte, novas instruções, com uma novidade. Manson quis acompanhar, “para ensinar como se faz”. Conduziram até uma casa em Waverly Drive, que sabiam ser habitada por um abastado casal, proprietário de uma cadeia de supermercados. Manson mandou as cúmplices esperar no carro. Entrou na habitação, despertou o casal do sono com uma pistola apontada e amarrou-os com fio de candeeiro. Voltou para o carro e mandou entrar o grupo, com duas sugestões: Tapar a cabeça das vítimas com fronhas de almofada e diversificar o uso de armas brancas. Assim foi. Foram usadas baioneta, facas de cortar bifes, até garfos. As palavras “morte aos porcos”, “ergam-se” e claro, “Healter Skelter” foram escritas com sangue nas paredes.

     

     

     

     

     


    A Captura da Razão

    Nesse mesmo verão, Manson e algumas das suas cúmplices foram presos, não devido aos assassinatos, mas por suspeita de furto automóvel. A polícia só estabeleceu a ligação semanas depois, após Susan ter-se gabado a uma companheira de cela que tinha sido ela a esfaquear a atriz famosa cuja morte inundava todas as notícias e que, inclusivamente, “tinha provado o seu sangue”.

    Vieram as aberturas de telejornal, a indignação, a detenção dos principais intervenientes, agora com acusações de homicídio, o julgamento. Squeaky escapara à prisão mas isso não lhe aliviava a dor que sentia, parecia agudizá-la ainda mais. Sentia que tinha perdido a única família onde se sentira verdadeiramente em casa e sentia-se culpada. Estava livre e a família estava presa. Não fizera o mesmo sacrifício. Durante o julgamento, Manson cravou um X na testa (que anos mais tarde transformaria numa suástica, juntando-se à irmandade ariana na prisão para obter a sua proteção).

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    Leslie Van Houten, Pratricia krenwinkel e Susan Atkins a serem transportadas para o tribunal

    Na sessão seguinte, Leslie, Susan e Patricia ocuparam o banco dos réus com um x nas suas testas. Noutra sessão, Manson rapou o cabelo. O trio feminino fez o mesmo. Uma sucessão de pequenas mensagens que transmitiam que mesmo depois de tudo ter desabado, continuavam ao lado dele. Cá fora, o apoio e o simbolismo de apoio também marcavam presença. Squeaky organizava vigílias à porta do tribunal e junto aos portões da cadeia onde Manson pernoitava. Juntamente com outros membros da “família”, gritavam em plenos pulmões pela inocência de Manson, envergavam t-shirts onde exigiam a sua libertação. Raparam o cabelo, pintaram cruzes na testa e sentavam-se no chão durante horas, de mãos dadas a cantar músicas compostas por Manson. “Vamos ficar aqui até o Charlie sair”, dizia Squeaky às câmaras de televisão. Quando questionadas pelos jornalistas pelo facto de defenderem um potencial criminoso, relativizavam os seus crimes. Concentravam-se no homem e não nos seus atos. Os atos tornavam-se secundários, não interessavam, eram irrelevantes. O homem era maior do que as suas ações. “Ele é inocente. Sei que ele não matou ninguém. Definitivamente devia estar cá fora. Preferia estar eu lá dentro”, afirmava Squeaky.

     

     

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    Sandra Good, Ruth Ann Moorehouse e Lynette Fromme em protesto à porta do tribunal

     

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    As mulheres de Manson durante o protesto nas ruas do tribunal, já com a letra “x” marcada na testa

     

    E Manson, acorrentado e encostado num canto de uma cela ferrugenta, tinha assim parte de si libertada, que vergava paredes de cimento e barras de ferro e alcançava o exterior, sob a forma de um exemplo vivo do imenso poder do culto da personalidade.
    O que originava esse apoio cego? Esse incondicionalismo musculado e bramido ao vento, mesmo quando, apesar de ainda não haver uma condenação, as evidências serem flagrantes e acumularem-se umas em cima das outras, como corpos numa vala comum.

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    Leslie Van Houten, Susan Atkins e Pratricia krenwinkel a caminho da sala de audiências

     

    A psicóloga Nicola Davies traçou um retrato psicológico de Manson e avançou com uma explicação. Na sua opinião, o facto de Manson ser extremamente “carismático e charmoso” terá oleado o seu mecanismo manipulador, cuja intensidade fazia sucumbir até pessoas dotadas de pensamento lógico e racional. “Os seus delírios de grandeza foram tão enigmáticos e credíveis que os seus seguidores o meteram num pedestal. Tornou-se um deus em quem acreditavam e a quem obedeciam, acreditando que ele apenas pedia o que era necessário”, assegurou a psicóloga.

     

     

     

     

     

     

     

    Solidariedade em liberdade

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    As mulheres de Manson com o cabelo rapado em apoio a Manson

    Cá fora, Squeaky fazia de tudo para manter esse pedestal polido. Após a condenação de Manson, moveu-se para Sacramento para estar perto da prisão onde Manson fora transferido (Folsom State Prison), tentava manter a “família” unida, desencorajava as dissidências e fazia de tudo, até planear um envenenamento, para impedir membros arrependidos de testemunhar (Barbara Hoyt). Recebeu instruções para prestar favores sexuais a dois ex-condenados, recentemente libertados e membros da irmandade ariana, para garantir a proteção desse grupo a Manson dentro dos muros da cadeia. Até conseguiu contribuir para a realização de um sonho de Manson, ter o seu álbum musical editado. Contactou insistentemente um produtor (Phil Kaufman) que, ciente do mediatismo do homicida mais famoso do país, aceitou encontrar-se com ele na prisão, onde negociou a produção do disco. Intitulado “Lie – The Love and Terror Cult”, saiu em Março de 1970. A capa do álbum visava parodiar a capa da revista LIFE, que tinha sido dedicada a Manson três meses antes, com uma reportagem intitulada “The Love and Terror Cult”. Graficamente, as capas eram idênticas, com exceção das cores e da ausência deliberada da letra “F” no cabeçalho.

     

    Solidariedade em clausura

    Mas apesar de tudo isso, havia um vazio por preencher dentro de Squeaky. Não era apenas físico, era ideológico. Por mais que fizesse, sentia-se uma traidora. O núcleo duro estava preso e ela não. Encarava a sua liberdade como um sinal de deslealdade. Decide corrigir isso.

    Na manhã de 5 de Setembro de 1975, enverga um vestido vermelho e dirige-se ao Parque do Capitólio, em Sacramento. Sob o vestido, na coxa esquerda, tem amarrado um coldre com uma pistola semiautomática. Lera no jornal que o presidente americano, Gerald Ford, ia fazer aquele trajeto numa visita ao Museu do Capitólio. Aconchega-se junto a uma árvore e aguarda. Quando avista a comitiva do presidente, mete a mão debaixo do vestido. Com paciência felina, aguarda até ao derradeiro instante, onde, num gesto brusco, retira a mão do tecido escarlate e aponta a arma ao presidente. Antecipou-se aos serviços secretos, teve oportunidade para disparar, mas não chega a pressionar o gatilho. “A arma não disparou, não disparou”, gritou bem alto, em jeito de justificação, enquanto era detida pelo corpo de segurança presidencial. Na verdade nunca poderia ter disparado pois a arma não tinha nenhuma bala carregada na câmara. Nunca fora sua intenção assassinar Gerald Ford. O que Squeaky pretendia era ser presa com um crime mediático, que pudesse chegar ao olhos e ouvidos de Manson, de forma ao patriarca da família saber que ela estava solidária com ele.

     

    Squeaky Fromme 1975
    Lynette Fromme, detida pela tentativa de assassinato do presidente Gerald Ford

     

    Durante o julgamento, Squeaky recusa colaborar com o advogado nomeado para a defender. É condenada por crime federal. A pena: prisão perpétua, com possibilidade de liberdade condicional após 30 anos cumpridos, um direito que viria mais tarde a recusar durante vários anos. Em nenhuma das muitas entrevistas de que foi alvo Squeaky demonstra arrependimento. A imagem é antagónica. Olhos que brilham e lábios que sorriem quando pronunciam a palavra “Manson”. “ Tem mais coração e espírito do que alguém que alguma vez conheci. É verdadeiro. Nunca exprimiu desejo por poder ou por aceitação. Alcançou-o naturalmente por ser brilhante”, afirmou, entusiasmada, a um repórter.

    Em 1987, ouve um murmurinho nos corredores da prisão sobre Manson ter cancro testicular. Squeaky fica inquieta, não consegue conter a ansiedade. Poucos dias depois consegue fugir da prisão, com o objetivo de visitar Manson na sua penitenciária. É recapturada após 48 horas e vê a sua pena aumentada. Não contesta, antes pelo contrário. Respira de alívio quando toma conhecimento que se tratava apenas de um rumor. Enverga os trinta e quatro anos que passa na prisão como uma medalha, reluzente como o seu sorriso quando afirma: “Ele deu-me experiência de vida. Partiu a minha concha que nos protege de todos os sentimentos e emoções”.
    Após recusar liberdade condicional inúmeras vezes, Lynette “Squeaky” Fromme foi libertada a 14 de agosto de 2009. Resta saber se finalmente se conseguiu libertar.


    Epilogo: 

    Todo este relato sobrevive às suas próprias circunstâncias. Também ele é maior do que elas. Variam as proporções, os enquadramentos criminais ou as letras dos cânticos, mas mantem-se o poder perigosamente sedutor do culto da personalidade. Há mais Mansons e Squeakys no mundo.



  • O PUTO QUE CRUZOU A EUROPA NO DORSO DE UMA SCOOTER «II – A Partida»

     

    O Puto esfrega os olhos. Não acredita que a sua Buxy é a mesma. Para além de ter efetuado uma revisão geral a todas as peças, a Peugeot instalou um conjunto de modificações na scooter que prometem ser bastante úteis. Colocaram um painel de plástico com iluminação junto ao visor, onde poderia ser encaixado o roadbook. Acrescentaram uma saída de isqueiro no painel principal onde, para além da chama, poderia ser carregada a bateria do telemóvel, ligada uma lanterna ou até alimentado um compressor portátil, instalado na lateral da motorizada. O Puto foi ainda surpreendido com um fato térmico vermelho, com botas a combinar, ambos forrados a neoprene para fazer frente às temperaturas negativas dos Alpes. “Estou ansioso por meter isto na estrada”, pensou, quando desembrulhou o presente de Natal antecipado. Falta menos de um mês para o arranque.


    Rodagem

    Contrariamente à expectativa inicial, a máquina não vai ser inaugurada na partida para a Alemanha. O Puto é aconselhado por um técnico da Peugeot a fazer uma viagem preliminar de rodagem, para preparar a mecânica renovada da scooter à violência dessa distância. Consulta o calendário de concentrações. Uma semana antes da data estimada da partida (18 Jan), tem a concentração dos Pinguinos, em Tordesilhas. Decide voltar a ir lá. Mais uma vez, Tordesilhas volta a ser um teste, uma derradeira etapa antes do sonho.

    Tordesilhas volta a ser um teste, uma derradeira etapa antes do sonho


    A palavra teste adequa-se mais do que nunca. O Puto não vai poder passar os 40 KM/hora na primeira metade da viagem. Ou seja, 600 quilómetros por estradas secundárias numa estimativa de 15 horas de viagem. Um verdadeiro teste à paciência e à determinação.

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    O Puto e a sua scooter, renovada para a viagem

    – Siga – afirma, mentalizado. Prepara a viagem em tempo recorde, inversamente proporcional à sua duração recorde. Arranca quando os primeiros raios de luz rasgam a noite. Chega a Tordesilhas de madrugada. Está estoirado, monta a tenda mas não vai dormir. Um espanhol reconhece o símbolo do grupo motard nas costas do seu colete. Aborda-o, descobrem que têm amigos em comum. Bebem uma cerveja junto à fogueira a poucos metros das tendas. O tema da grande viagem acaba por surgir.

    – A los Elefantes verdes? Eres un tonto. La lambreta no llega allí.

    – Espera e verás – afirma o Puto, acenando com a garrafa de San Miguel.  Sorri perante a descrença, já se habituou a ela. Nunca a ignora, armazena-a num pote invisível, ao qual pretende recorrer nas horas de maior dificuldade, em busca de combustível motivacional. Recorda um artigo que leu numa revista do pai sobre a psicologia das cores. O laranja era a cor da descrença, do pessimismo. Sorri ao apelidá-lo, mentalmente, de “pote laranja”. Sabe que não terá dificuldade em atestá-lo.

    Contempla por breves instantes aquele quadro. Ambos os companheiros da estrada estendidos ao relento, com as pernas esticadas e os pés aquecidos pela fogueira, as fagulhas que se elavam na noite invernal, tal como a suave arrogância do desígnio inimaginável daquele puto, o sonho impossível que paira sobre todas as atenções e se debruça sobre todas as convicções. Apetecia-lhe emoldurar aquele momento, capturar aquela sensação, aquele entusiasmo preliminar que embriagava cada célula do seu ser. Foi ali, numa noite emprestada pelo país vizinho, ao correr o zip e cambalear para dentro da tenda, que tomou consciência que estava a menos de uma semana da partida.

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    Ricardo Rodrigues num convívio motard, antes da partida para a Alemanha


    Artilhar a mota

    Os últimos preparativos foram os mais intensos. Como decidir o que levar numa aventura de 30 dias – quinze de ida, quinze de volta – e que coubesse no assento de uma scooter? Começou por dispor material em cima da cama e rapidamente chegou à conclusão que eram coisas a mais. Ia ter de fazer concessões.

    Tem dois alforges – cosidos pela tia numa espécie de tecido rígido típico das coberturas dos sofás – onde ia levar a roupa. Decide levar quatro mudas completas, não sabe se terá oportunidade de lavar/secar roupa com o tempo cinzento que se faz sentir. Decide juntar uma quinta, não cabe, retira-a. Enrola duas toalhas de banho e força-as para dentro dos alforges. Já não cabe lá mais nada. Amarrados com elásticos no corpo da mota, leva o saco da tenda, uma colchonete e três sacos-cama, que impermeabiliza com sacos pretos do lixo. Uma mala castanha de tiracolo – carregada com máquina e rolos fotográficos, documentos, papéis, canetas – serve de encosto no banco da scooter.
    Os punhos da motorizada estão cobertos pelo mesmo material dos alforges, numa capa improvisada para proteger as mãos da chuva e do frio, presa ao guiador com várias voltas de fita-cola. Amarrado à tralha, leva ainda um cantil antigo em pele, “mais para o estilo do que para outra coisa”.

    Passou os últimos dias a desdobrar-se em entrevistas para jornais e rádios locais. A curiosidade era grande e facilmente se alastrou, primeiro pela cidade, depois pelo distrito. Mais tarde, pelo país.

    No penúltimo dia, sentou-se na sala de reuniões do Clube Motard do GICA e passou a tarde a organizar um dossier de viagem. Escreveu à mão todo o itinerário de ida e volta, com todas as cidades por onde ia passar e uma estimativa de todas as zonas onde iria atestar o depósito e passar as noites. Fez um levantamento dos parques de campismo das cidades espanholas, francesas, italianas, austríacas e alemãs que iria atravessar. Juntou ainda um mapa português, um ibérico, um francês e um de toda a Europa Ocidental. Por último, inseriu uma folha rasurada com vários contactos de amigos ou conhecidos que vivem ao longo do percurso.

    Deitou-se cedo mas dormiu menos horas do que previa. A ansiedade mantinha-o acordado. “Cum carago, onde me fui meter? 18 aninhos e vou fazer uma coisa destas”, pensava, envolto numa mistura de receio com emoção, mas com uma vontade superior a tudo.


    Dia D

    A partida está marcada para as 20 horas. Durante a tarde, o Puto faz os últimos preparativos na mota. O depósito já está cheio, em ambas as faces dos alforges está bordada a bandeira portuguesa, e há mais um saco para juntar aos cerca de 50 quilos de bagagem. Foi cedido pela Câmara de Águeda e tem diversos materiais relativos à cidade (pins, brochuras, bordados, galhardetes) para serem entregues à organização do evento. Foi com algum assombro que constatou que a carga amarrada com cordas e elásticos duplicava a altura do assento da scooter em relação ao chão. “Não há-de ser nada”.

    Deitou-se cedo mas dormiu menos horas do que previa. A ansiedade mantinha-o acordado.

    Seguiu-se um lanche ajantarado de convívio no GICA com família e amigos. São muitos os abraços e as palavras de encorajamento, tais como os conselhos e as advertências. Ao descer as escadas, já em direção à mota, apercebe-se de um murmurinho à sua direita.“Não vai conseguir, vai dar o berro a meio, é muito quilómetro”. Sem que o emissor se aperceba, agarra na frase e enfia-a no pote laranja. “Levo comigo todo o combustível que puder”.


    Arranque

    O Puto está sentado na scooter. Acelera, sente-lhe o rugido. Estica-se para trás, sente o aconchego das tralhas que serão o seu mundo durante 30 dias. Todos esperam que ele arranque mas ele não levanta a âncora à mota. Durante um instante deixa-se abraçar pelos olhares de companheirismo e pela incondicionalidade do apoio, saboreia a antecipação, empolga-se com o ponto de interrogação que o irá acompanhar dia e noite a partir do momento que a roda se mover. Roda o acelerador e levanta os pés do chão. Entusiasmado como sempre, ansioso como nunca.

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    O Puto, no dorso bem carregado da sua Buxy, atravessa a escuridão da primeira de muitas noites rumo ao sonho

    Para já ainda não segue sozinho. Ao todo são cerca de 30 motas e 10 carros que formam uma comitiva que o acompanham nos primeiros 20 quilómetros da viagem, até à Mealhada. É nessa cidade, com o som das buzinadelas e a intermitência dos sinais de luzes nas suas costas, que sente que a aventura começa verdadeiramente.

    Chega a Coimbra rapidamente. Está habituado a fazer esse trajeto, há três verões consecutivos que ruma à concentração de Góis. É na cidade dos estudantes que sente necessidade de parar, para acondicionar a bagagem, que não pára de baloiçar. Muda alguns sacos de sítio, estica os elásticos. Aproveita também para atestar o depósito. A partir daí atravessa Góis, Pampilhosa da Serra, Castelo Branco, sempre sem parar.

    Chega à pequena aldeia fronteiriça de Segura por volta das 23:30. Precisa de encontrar bombas de abastecimento. 600 escudos enchem o depósito, com seis litros de gasolina, que dão para percorrer cerca de 100 quilómetros. É fundamental que encontre as bombas abertas, pois a cidade espanhola onde pretende dormir, Cáceres, fica ainda a 84 km de distância.

    Até aí tinha feito o percurso de memória, mas agora era preciso recorrer ao roadbook que tinha redigido. Procura a pasta, não a encontra. “Que raio, pensei que tinha deixado isso à mão”, pensa, mentalizado que vai ter de revirar a bagagem toda. A cada saco que abre, o receio adensa-se. “Queres ver?”. Quando retira as mãos do último, um arrepio gelado sobe-lhe pelas costas. Tinha-se esquecido da pasta na sala de reuniões do GICA. Voltar para trás não era uma possibilidade, teria de encontrar uma solução.

    Mete-se a caminho, percorre a estrada silenciosa que atravessa a pequena aldeia e avista ao longe a luz do néon das bombas. “Estão abertas, óptimo”. Junto ao balcão do empregado estão três amigos, que lhe fazem companhia nestes momentos monótonos do último turno.
    Vasculha a secção dos mapas, o mais completo que encontra é um ibérico. Quando o apresenta no balcão e pede para abastecer a scooter, a curiosidade instala-se. Uma pergunta, uma resposta, três, quatro, cinco perguntas, todas em simultâneo. A surpresa é geral e a emoção instala-se naquele pacato fim de noite do último estabelecimento com luz acesa na pequena aldeia fronteiriça.
    O puto afasta-se, com essa pequena luz cada vez mais ténue nas suas costas, de depósito cheio e com o corpo aquecido pelo café que recebeu do quarteto seguro, juntamente com o voto uníssono de “boa sorte”.

    Reduz a velocidade quando vê a silhueta escura da ponte romana sobre o Rio Erges, que separa Portugal de Espanha. Trava, desliga a motorizada. Deixa-se envolver pelo silêncio da noite invernal, uma noite solitária, anónima, perdida no meio do nada. Os candeeiros de iluminação estão desligados e as nuvens cinzentas cobrem o luar. Escuridão, silêncio, uma aragem fria que lhe toca no rosto e um sentimento dividido que lhe toca na alma. Deu o passo e agora está ali, prestes a atravessar a primeira de cinco fronteiras que o separam do seu destino final.
    Por um lado está animado com esta primeira etapa, por outro está envolto em alguma nostalgia, por saber que assim que atravessar aquela fronteira, estará 30 dias sem avistar o território do país que tanto ama. Mete as mãos no bolso do casaco e retira um walkman. Avança a fita da cassete durante alguns segundos. Volta a reanimar a Buxy e atravessa a ponte, com a chuva que o seu fato térmico permite ignorar e com a voz de Paco Bandeira bem alta nos ouvidos.

    “Ó Elvas, ó Elvas

    Badajoz à vista.

    Sou contrabandista

    De amor e saudade

    Transporto no peito

    A minha cidade”.



  • OS JOVENS, A VELHA E O CIGARRO DELA

    Dois jovens desaguaram no Porto. Não se conheciam, mas ambos traziam a mesma aspiração nas malas: tornarem-se atores. Cruzaram caminhos com uma matrícula no ESMAE. Não seria o único cruzamento. O segundo foi quando partilharam um pequeno apartamento na baixa do Porto.  O local tornou-se um ponto de encontro para noitadas, regadas com copos, música, filmes e muita, muita discussão de ideias. Gerou-se uma cumplicidade que ultrapassou os anos da faculdade e perdurou no tempo. Vieram outras fases de vida, empregos, casais, caixas de cartão empilhadas em carrinhas de mudanças, novas moradas, novos quotidianos. Os encontros tornaram-se cada vez mais espaçados, os serões sacramentais a tocar guitarra ou a fazer maratonas de cinema foram-se diluindo e o hábito acabou por ser envergado pelo desencontro. Mas a cumplicidade permaneceu. Resistiu ao tempo, ao espaço, à distância, à erosão da memória. Talvez para a manter imune a essa erosão, talvez meramente inspirado, um dos jovens, António Parra, decidiu passar para o papel essas vivências e essas conversas e desconversas da vida. Começou a escrever de forma espontânea, sem saber o que ia sair dali. Podia ser uma peça de teatro, um conto, uma curta-metragem. À medida que as páginas avançavam, os desígnios iam-se clarificando. Acabou por adquirir a forma de curta-metragem.
    Reuniu uma equipa e meteram mãos à obra. No entanto, já na fase de pós-produção, concluíram que o formato não funcionava, o argumento era demasiado longo para uma curta-metragem. Decidiram reformular o projeto. “E porque não uma série?”, alguém terá perguntado. A questão agradou. Foi respondida, estudada, estruturada, colocada em andamento. A ideia era transmiti-la na internet, sem objetivos comerciais. O verdadeiro desígnio era criar algo que fosse inovador, diferente de tudo o resto, e partilhar com o máximo de pessoas possível. A criação aconteceu e a partilha começa amanhã, com a estreia do primeiro episódio de “A Velhinha que Fuma”, uma web-série completamente independente. O argumentista, António Parra, é também um dos actores e contracena com Afonso Santos, ambos nomes habituais nos teatros da Invicta. Francisco Lobo assume as rédeas da realização e a Anexo 82 a distribuição.

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    A série retrata um dia de ressaca entre dois amigos de longa data, Ivo e Mauro, que costumavam viver juntos quando eram estudantes. Estão com uma direta em cima, ressacados e ligeiramente embriagados por nostalgia. A ressaca é a dobrar. Para além da alcoólica, prevalece uma ressaca de quotidiano, uma espécie de saudosismo árido de algo que existia e que agora – embora ainda exista – está desvanecido, diferente, desbotado como a capa de um livro que permaneceu demasiado tempo ao sol. E é encantadora a subtileza como ambos tentam hidratar essa convivência antiga, seja com diálogos hilariantes, pretextos acanhados  ou desconversas construtivas. Até a forma como se insultam é recheada de cumplicidade. O trabalho de ambos os atores é notável nesse ponto, há uma química muito interessante que nos mantém colados ao ecrã, mérito dividido com a própria dinâmica dos diálogos, os episódios passam a correr e é frequente os sorrisos acompanharem a corrida. É agradável constatar que o desígnio da inovação foi atingido, é visível uma preocupação em apresentar, de facto, um produto diferente, divertido, enérgico, mas nem por isso desprovido de conteúdo e pequenos detalhes e significados que se vão descortinando à medida que vamos conhecendo melhor o duo.
    Desde o genérico, a fotografia, a qualidade das transições, à própria banda sonora (de autoria de uma banda portuense – Corona) que é absolutamente deliciosa e muito bem inserida na ação (todo o minuto cinco é sublime), tudo parece ter sido gizado de forma meticulosa, que se compatibiliza muito bem com a forma espontânea e descontraída como decorre série.
    Há cumplicidades cujas fronteiras são complicadas de definir, “A Velhinha que Fuma” não as tenta definir, mas exprime-as muito bem. Se a encontrarem, seja na rua, num miradouro ou no Youtube, não lhe cravem um cigarro, mas deixem que ela vos crave uma dezena de minutos. Grannies know best.



  • A SERBIAN INTERVIEW

     

    A Serbian Film foi o filme choque da edição 2011 do Fantasporto e vencedor do Prémio Especial do Júri. Banido em vários países, premiado noutros, não deixou ninguém indiferente. O The New York Times considerou-o “Horrivelmente inventivo e desafiante no seu significado oculto”, o Bloody Disgusting deixou uma sugestão: “Tu não queres ver este filme. Apenas pensas que queres”. E uma organização católica moveu um processo judicial ao director do Festival de Sitges, que resolveu exibi-lo apesar de estar oficialmente banido em Espanha. Desígnios e motivações partilhados na primeira pessoa por Srdjan Spasojevic, autor daquele que já se tornou num dos filmes mais polémicos de sempre.

     

    Qual foi a sua principal inspiração para realizar “A Serbian Film”?

    Senti o ímpeto e a necessidade de dizer algo sobre os problemas que enfrentamos quotidianamente na nossa região, na nossa problemática e turbulenta região. E mesmo no mundo em geral. Como disse na estreia do nosso filme no Fantasporto, o mundo de hoje está revestido numa doce camada politicamente correcta mas por dentro está muito podre, em muitos níveis.
    No fundo, tratou-se de uma espécie de combinação interior de um estilo fílmico que gostaria de ver ou fazer, com todas essas emoções e tensões para dizer algo sobre o que nos rodeia. Daí, resultou “A Serbian Film”.

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    O realizador sérvio Srdjan Spasojevic


    Considera que manter o obscuro fenómeno retratado no filme escondido e fora de vista é alimentar a sua continuidade?

    Absolutamente! Absolutamente! Infelizmente, as pessoas são incapazes ou não corajosas o suficiente para encarar estas problemáticas. Defini-las, diagnosticá-las e, mais tarde, combatê-las. Se nos habituamos a ignorar todas essas coisas que nos rodeiam, estamos, como referiu, a alimentar a sua continuidade. Estamos a tornar o terreno fértil para esses predadores. É um problema sério não encarar estes problemas.

    E a crueza das imagens, o choque da plateia, são formas de despertar a audiência para esses problemas?

    Sim, algo do género. A minha intenção foi colocar a audiência no meio desses problemas. Não queria que este filme estivesse ao nível de, digamos, notícias da televisão ou jornais. Onde vês algo mau, viras a página e a vida continua. Não. Tínhamos de mostrar essas cenas de uma forma tão desprendida, tão desalgemada, que não permitisse que alguém as ignorasse.

    Digo sempre que este filme é uma metáfora do nosso país, falo sempre sobre metáforas, mas infelizmente talvez aquelas coisas existam mesmo. Podem perfeitamente existir. Podem ser reais. O filme é uma reflexão da realidade. Não dizemos nada de novo. Todas aquelas coisas acontecem à nossa volta. Apenas as mostramos, as denunciamos ao mundo.


    Como se lembrou de criar as cenas mais pesadas, mais negras? Pesquisa, entrevistas no meio ou apenas imaginação e processo criativo?

    Essas cenas são desenhos literais dos nossos sentimentos. Só quisemos pintar de acordo com o que sentimos. É a resposta mais exacta que posso dar. São pinturas dos nossos pensamentos e emoções.

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    O actor Srđan Todorović numa das (várias) cenas polémicas do filme

    Quão dura foi a produção e todo o processo de filmagens?

    Primeiro, tivemos muita sorte com os actores, que adoraram o argumento e acreditaram verdadeiramente em toda a ideia de “A Serbian Film”. Eles queriam dizer o mesmo que nós.

    Reunimos uma equipa muito jovem, que incluía pessoas com ambição, pessoas com imenso conhecimento. [pausa prolongada, olhar introspectivo] Fazer um filme é uma coisa séria. Tem de ser meticulosamente planeado. Após alguns meses de preparação e pré-produção, o processo de filmagem foi, penso, igual a qualquer outro. No set, muitas vezes ninguém diria ou constataria muita da força, digamos, dessas cenas que mais tarde estaria bem presente no filme. Foi um processo muito técnico. Tivemos imensas dificuldades. No fundo, um processo normal, com dias bons e maus.

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    Srdjan Spasojevic no Fantasporto

    Qual  é o impacto da Europa de Leste neste tipo de fenómeno?

    Uma das coisas que quisemos fazer foi transferir a Europa de leste para este filme. De uma certa forma, o personagem Vukmir, é uma representação exagerada de um executivo do financiamento de cinema europeu. É um pornógrafo, um explorador.

    Na Europa de leste, e se calhar em toda a Europa, não consegues financiar o teu filme a não ser que sejas ajudado pelo governo ou outro fundo europeu. E eles têm sempre as suas regras, as suas ideias. O aspecto que um filme deve ter, a mensagem que deve passar, as fronteiras que o devem limitar. Enfim, eles têm sempre formatos e padrões sobre como um filme deve ser feito. Sobre qual deve ser a forma de contar determinada historia. É uma burocracia. Tens uma esquema formatado e deves segui-lo. A forma como este filme foi feito representa a nossa luta contra o politicamente correcto, que penso estar a sufocar toda a arte livre e a criatividade que ainda resta nos dias de hoje. 

    Se nos habituamos a ignorar todas essas coisas que nos rodeiam, estamos a alimentar a sua continuidade. Estamos a tornar o terreno fértil para esses predadores.

    Há vários relatos de episódios caricatos durante a produção. Pode partilhar alguns?

    Agora, alguns desses factos podem parecer engraçados [risos], mas na altura não foram. Tivemos diversos problemas na pós-produção. Filmamos em Red Camera (digital) e mais tarde tivemos que transferir para 35 mm. Fazíamos questão que tudo tivesse um aspecto muito profissional, por isso negociámos com um laboratório em Munique para a transferência do filme. Depois de o serviço estar concluído, eles apareceram com um monte de advogados e directores e disseram-nos que não iam entregar o material. Que não iam colocar o carimbo deles num filme destes. Até fizeram uma espécie de charada, onde contactaram a polícia para falar por eles, com várias acusações ridículas.

    No meio da Europa livre, fomos atirados para a rua sem o nosso filme. Eles queimaram o filme, destruíram-no. Aprendemos algo com isso. Fomos a um laboratório estatal de Budapeste e, para evitar passar pelo mesmo, mostramos-lhes o filme primeiro. Perguntámos – Estão dispostos a fazer este trabalho? Responderam que sim. No final, depois de tudo concluído, disseram-nos: “Não, não vos podemos entregar o material”.

    Foi um processo muito louco, muito frustrante. Mas deu-me força. E foi como se me desse uma certeza que estava a retratar coisas verdadeiras no meu filme. Foi como se tudo o que aconteceu ao personagem principal e à sua família, estivesse a acontecer ao próprio filme.

     Depois disso, fizemos um plano. Dividimos o processo de transferência em cinco diferentes laboratórios europeus. Se alguém levantasse problemas, só destruiria e atrasaria uma parte do processo. E assim, oito ou nove meses depois, para o bem ou para o mal, “A Serbian Film” veio ao mundo.



  • A SERBIAN CRONIC

     

    “Todos vocês que estão aqui, já sabem ao que vêm”. À medida que as palavras de António Reis ecoaram pelo auditório do Rivoli, senti-os estremecer pela segunda vez. O primeiro abalo, esse ocorrera minutos antes.

    Convidara um grupo de amigos para uma sessão do Fantasporto. Todos os anos, o festival apresenta um filme choque. Um filme que não deixa ninguém indiferente, que entra no âmago, revira emoções e desperta acesas conversas noite dentro. Ou seja, ideal para visionar em grupo. Nesta edição (2011), esse papel estava atribuído: “A Serbian Film”.

    A todos tinha sugerido que evitassem qualquer tipo de pesquisa sobre o filme. Que tal poder-lhes-ia amputar severamente a experiência de visionamento. Afinal, nenhum choque é genuíno se contamos com ele, muito menos os efeitos sensoriais que daí advêm.

    Atravessada a cortina de veludo da entrada da sala, felicitei os seis por terem acatado a sugestão. “Todos os outros convidados não estão aqui. Desistiram”. Doze pares de olhos cruzaram-se de imediato, fugazes como gazelas assustadas perante um súbito rugido emanado da selva. “Mas… tem muito terror? Não suporto filmes de terror”, disse um. “Mas, mas espera aí…” balbuciou outra. Por entre um sorriso rapinado a Jack Nicholson, soltei um matreiro “don’t worry”. Afinal, agora era tarde para hesitações. Estava transposta a fronteira. Estava ultrapassado o ponto de não retorno.

    À medida que o co-director do festival continuava a apresentar o filme à audiência, o nervoso miudinho crescia à minha volta. E nada o parecia atenuar, nem quando António Reis afirmou: “o bom cinema não é só feito de filmes fáceis”. Convenhamos, era impossível atenuar. Na mente deles ainda pairava – acredito – a gorda lista de países onde o filme tinha sido banido, proferida momentos antes.

    “Mas afinal para o que me trouxeste, Victor?”, pergunta Caldevilla. Na realidade, eu próprio não sabia responder a essa questão. Apenas conhecia a reputação do filme e não o seu conteúdo – excepto duas cenas isoladas, partilhadas casualmente por um amigo. Tinha sido essa reputação a levar-me ali. Estava convicto que ir ser o filme mais provocante do festival e que nenhum de nós lhe ia ficar indiferente. E tudo o que detona a indiferença deve ser vivenciado colectivamente, pois é desses estilhaços que surgem as conversas mais fascinantes.

    A sala escurece e o filme sérvio começa a rodar. A apreensão é espessa, quase palpável.

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    O tema, finalmente, apresenta-se. Retrata o submundo da produção de filmes reais onde se mistura pornografia com sadismo e violência. Numa das cenas, vislumbro a silhueta ao meu lado esquerdo de uma mulher numa espécie de convulsão a tentar libertar-se de um colete-de-forças, que são os braços do acompanhante, que tenta a todo o custo acalmá-la e mantê-la sentada. Caldevilla está ao meu lado e deixa escapar um sorriso nervoso, algo comprometido. Foi ele que convidou o casal.

    A cena assombra-se. A sombra apodera-se da sala, da minha cadeira, arrepia-me as costas. O espectador da frente contorce-se, Caldevilla mete a mão na cabeça e a rapariga do lado esquerdo já fugiu pelo corredor. Olho para trás e naquele movimento cadenciado da cortina da saída ainda a abanar, não consigo evitar um sorriso nostálgico.

    tudo o que detona a indiferença deve ser vivenciado colectivamente, pois é desses estilhaços que surgem as conversas mais fascinantes

    Como nas experiências de quase-morte, onde horas supostamente se reduzem a segundos, naquele instante vejo-me nos tempos de universidade, a preparar uma reportagem para o jornal universitário. Atarefado e desorganizado, imerso numa panóplia de material relativo ao tema do lado obscuro da internet, enquanto veículo de distribuição de um mercado de conteúdos audiovisuais macabros. Filmagens reais de violações, assassinatos, tortura, tudo o que a imaginação mais distorcida possa conceber. Vi vídeos, li relatórios de polícia, recolhi testemunhos de utilizadores, acedi a sites onde esse material é transaccionado. Os mais superficiais pois os mais densos são inacessíveis aos jornalistas, quanto mais a um estudante de jornalismo. Esse trabalho chocou-me, mexeu comigo. Mas nunca recuei. A minha fome de realidade era maior. Não era curiosidade que me movia. Era a fome de realidade.

    A Serbian Film 2Afinal de contas, esse mundo paralelo existe. É obscuro, sobrevive abaixo do radar da maioria das pessoas, mas existe. Como em qualquer mercado, havendo procura, existirá sempre oferta. E os fetiches e as parafilias são quase infinitas, tal como a capacidade de as satisfazer por um preço.

    A cortina ainda ondula e dá tempo ao sorriso de se estender também a uma caricata conversa com um amigo, fotógrafo de estúdio, sobre o lado gráfico do fotojornalismo. Ele defendia a semântica estética da fotografia e contorcia-se na cadeira do bar à medida que eu lhe ia mostrando fotos do World Press Photo, num portátil que tinha pedido emprestado por uns minutos a um desconhecido da mesa do lado. O monge budista em chamas no protesto contra a perseguição do governo vietnamita, a execução do vietcong, as crianças queimadas pelo napalm, o massacre dos refugiados no Líbano, entre muitas outras imagens que fazem parte de um conjunto de fotos que se tornaram icónicas porque, dentro do seu contexto sociopolítico, são cruamente reais. Retratam a realidade tal como ela é, sem filtros, que é como o jornalismo deve operar nessas circunstâncias. Nos acidentes, admito a preocupação eufemística, porque entra em causa a exploração gratuita de um acontecimento fortuito. O chamado sensionalismo. Mas nos casos onde a realidade deve ser denunciada, qualquer eufemismo usado para acalentar a sensibilidade do espectador – que se recusa a presenciar/reconhecer esse lado negro da realidade – entra no campo da censura e apenas serve dois propósitos: Obstaculizar a verdadeira percepção dessa realidade e fomentar a sua continuidade.

    Informar é dar a conhecer a realidade que se quer desconhecida. É apontar-lhe o dedo, denunciá-la. Se o espectador se sente incomodado com as imagens, basta imaginar o nível de incómodo dos que vivem a realidade fotografada/filmada, para constatar que esse exercício psicológico de autocensura é quase egoísta. Sei que é confortável não saber, não ver, não imaginar. Mas acho que a minha fome de realidade sempre foi mais teimosa e ultrapassou o meu conforto e o meu sentido de auto-preservação.

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    Em linguagens e moldes diferentes, o cinema também pode desempenhar esse papel denunciador, onde usa a hipérbole como forma de choque para alertar o espectador para determinada realidade. Se lhe der um ligeiro encosto eufemístico, o espectador permanece entretido, mas incólume. Se lhe der um encontrão, ele estremece e nunca esquecerá o tema e, em maior ou menor escala, é iniciado um processo de consciencialização.

    É por isso que estou farto de levar pancada deste filme visceral neste auditório do Rivoli. Estou chocado, desconfortável e até com alguns hematomas sensoriais, mas satisfeito por ter decidido enfrentá-lo, pois reconheço-lhe um propósito: Um bramido de alerta para a existência da realidade retratada, usando um encontrão para que ninguém lhe fique indiferente.

    Todos os fenómenos condenáveis do mundo sobrevivem na obscuridade. Vivem de forma reptícia no silêncio, alimentam-se da ignorância das massas em relação à sua existência.
    Desde as produções pornográficas com violações reais controladas pelas máfias russas, ao tráfico humano na Tailândia para esclavagismo sexual, às “escravas brancas” dos Balcãs, à pedofilia que não tem limites ou fronteiras, há todo um conjunto de fenómenos cuja abordagem eufemística não só prejudica a percepção das suas reais dimensões, como até pode servir de adubo passivo, que fertiliza a sua continuidade.

    As lambadas continuam a emergir do negrume da sala, mas não arredo pé. Permaneço no ringue, teimoso e ensanguentado, e digo, entredentes, “Ok Serbian…. give me you best shot”.
    E neste momento ainda não faço ideia que horas mais tarde vou entrevistar o realizador e que este ia ficar entusiasmado por constatar que a minha visão sobre o desígnio do filme correspondia à sua, enquanto criador, que simultaneamente o concebeu como uma alegoria e uma denúncia. Não fazia ideia que o filme ia vencer o Prémio Especial do Júri do festival. E não fazia ideia que o casal que abandonou a projecção estava num primeiro encontro e que o meu amigo Caldevilla, amigo do rapaz, o tinha convencido a ver o filme por causa da minha sugestão.

    “Podes ir às cegas”, ter-lhe-á dito.



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