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  • O VELHO E O FOGO

    Tudo começou com um cartaz rasgado, que ondulava ao sabor do vento e se agarrava com derradeira réstia de força a um poste de iluminação, algures na Rua Luís de Camões. Naquela tarde aguedense de 1936, quis o destino que ele passasse por ali, que debruçasse o olhar sobre o cartaz e que ficasse cativo do apelo lá inscrito. Até hoje.
    Setenta e três anos depois, José Laureano continua cativo do que leu, da frase que nortearia toda a sua vida, de um desígnio do qual não consegue, nem se quer soltar.
    Faz 96 anos em Setembro próximo. Mas não há idade ou enfermidade que esvaeça o orgulho que recheia cada letra, cada palavra, quando diz: “Sou bombeiro!”.

    Ainda não tinha feito um ano desde a inauguração da Corporação dos Bombeiros Voluntários de Águeda (15\12\1935), quando José Laureano reparou no pedido de alistamento. Com 20 anos, acabado de sair da tropa e impelido pelo fulgor do nascer da idade adulta, estava impaciente por dar um rumo à vida. A recordação ainda acesa de uma tragédia que tinha assolado a então vila de Águeda consolidaria o resto da sua motivação.

    Na noite de 2 de Dezembro de 1934 assistira, angustiado, a um enorme incêndio que devastara a casa de um familiar, o garagista Joaquim Canário. “O tio da minha falecida mulher”, recorda. As chamas, com origem no motor de um automóvel, rapidamente se propagaram a todo o edifício, que ardeu totalmente. Independentemente do esforço dos populares, “que acorreram de baldes na mão”, e dos bombeiros de Aveiro (e outras localidades do distrito), que “combateram com valentia durante duas ou três horas”. Apenas se conseguiu impedir o alastrar das chamas aos edifícios contíguos, na antiga Rua de Baixo (actual Rua Vasco da Gama). “Era um fogo infernal, via-se ao longe. As labaredas eram enormes”, relembra Laureano.

    Apelidado de “incêndio pavoroso” pelas manchetes do Soberania do Povo (edição 07\12\1934), a tragédia acabou por ter um efeito consciencializador na população e nas instituições, acentuando a premência de uma corporação de bombeiros aguedenses.

    O repto já tinha sido lançado, desde os confins de um longínquo 1904, por Eugénio Ribeiro. A ideia acabaria por marinar somente em intenções – “por motivos de ordem político-partidária”, acusaria Eugénio Ribeiro – até finalmente se materializar em actos, exactamente três décadas depois, com a fundação da Associação de Bombeiros Voluntários de Águeda (04\12\1934).
    O “Incêndio do Canário”, como os aguedenses o imortalizariam, acabou por ser o elemento catalisador. “E vá, vá, para a frente enquanto estão quentes os escombros da casa incendiada da Rua de Baixo”, aconselhava o referido semanário. Uma semana depois era eleito o corpo directivo da associação. Eugénio Ribeiro, o impulsionador da iniciativa, assumia as rédeas da direcção. Marchavam em direcção a Águeda, finalmente, os soldados da paz.

    A visão das labaredas – e do seu efeito devastador – mexeu com Laureano. O cartaz despertou-lhe a memória adormecida dos gritos de desespero da população, da solidariedade entre estranhos, da dança das fagulhas no firmamento nocturno, que pareciam desafiar o homem perante o poder daquele que muitos consideram o mais destrutivo e impiedoso elemento natural. E, acima de tudo, do altruísmo daqueles homens de capacete e mangueira que ousavam enfrentar o fogo no seu próprio território.

    Ele estava longe de imaginar que tudo isso seria o seu quotidiano. Não fazia ideia que iria viver a história de uma instituição; que, para muitos, o seu nome se tornaria indissociável da instituição; que iria contemplar o olhar gélido da morte várias vezes; que iria salvar uma vida humana; que iria passar mil e uma peripécias num carro que apelidava de irmão; que iria ganhar o respeito e a admiração dos seus pares; que iria enfrentar a ira de um boi no fundo de um poço; que iria fazer amizades para toda a vida; que iria chorar a perda de colegas tombados no cumprimento do dever; que iria integrar o Quadro de Honra dos Bombeiros; que iria receber um Crachá de Ouro (o único bombeiro aguedense, ainda vivo, a ostentar essa distinção).

    Não. Naquele momento, limitou-se a dirigir para o número 53 da Rua Ferraz Macedo.


    Retorno às origens

    “Aqui existia uma bela nespereira”. As palavras de Laureano direccionam o meu olhar para a prateleira ao fundo do balcão do bar, onde, ironicamente, se encontram diversos licores de frutos. Estamos no Café Palhota, local que outrora albergou, durante 25 anos, aquele que foi o primeiro quartel dos bombeiros de Águeda. “Lembro-me do sabor daquelas nêsperas como se fosse hoje”, complementa, com olhar saudoso.

    Recorda, com vivida lucidez, o dia em que aqui se alistou. A instrução, os simulacros efectuados nestas paredes ou na torre da igreja – usa o meu gravador e a borracha para exemplificar “os exercícios com escada de gancho” – a estrutura de metal que ainda existe no exterior, “onde pendurávamos as mangueiras a secar após as lavarmos no rio, no Cais das Laranjeiras, sempre que vínhamos dos incêndios”.

    Fico a saber que junto à entrada existia um poço em tijolo, de forma circular e com sete metros de profundidade, onde eram abastecidas viaturas e “se criavam boas enguias”. Que isto também já foi uma velha estrebaria, onde eram criados cavalos. “Ainda cheguei a ver alguns por aí, quando viemos para cá”, garante. E que durante muitos anos, muitas marcas do passado permaneceram neste edifício. Algumas até hoje.

    “Neste estrado de madeira, que cobre a pia de granito onde os cavalos comiam a ração, era onde estavam os nossos capacetes. Por baixo, ficavam os botins”. As palavras são de Alberto Pina, 78 anos, antigo colega de Laureano e também membro do quadro de honra dos bombeiros.
    Acompanha-nos também nesta viagem ao passado. Tal como o seu velho amigo, acedeu em destrancar o seu baú de recordações e deixá-lo à mercê da minha curiosidade.

    Com a permissão dos proprietários do café, faz-me uma visita guiada ao “quartel”. “Aqui era um telheiro onde ficava a ambulância”. Pina vai remodelando as divisões com a tinta da nostalgia. Saímos da cozinha e dirigimo-nos para o quarto de arrumos. “Oh! A casa do quarteleiro”, exclama! Onde está uma velha bicicleta e alguns caixotes, os seus olhos desvendam uma antiga cozinha e o quarto da filha do quarteleiro, cuja porta já não existe. Percorremos o corredor, onde o sol serpenteia por entre telhas rachadas ou pelas que sucumbiram ao tempo e cujo barro foi substituído pelo vidro. “Mas olhe que este telhado ainda tem bastantes traves e telhas da nossa altura. É incrível como resistiram”. De igual forma descortina, no armazém das bebidas, um grosso pilar de madeira que ele próprio ajudou a erguer. “Esta escora já existe quase há meio século. O carvalho antigo resiste a tudo”.

    À direita, uns degraus de madeira prendem o olhar de ambos. “Lá em cima ficavam os gabinetes de comando e da direcção”, relembra Pina. Laureano sorri. Olham um para o outro, com cumplicidade, e o sorriso estende-se aos dois. Nos recantos deste simpático estabelecimento familiar vão pairar para sempre memórias e histórias entre bombeiros veteranos. “Eu até tinha medo de ir lá acima. A instalação eléctrica era um perigo”, partilha Laureano. “Uma noite, as escadas ficaram às escuras e o meu amigo chefe Gil foi mexer nas lâmpadas. Apanhou um choque danado e ficou lá agarrado. Tive de lhe dar um pontapé. Rolou pelas escadas abaixo. Queixou-se, mas agradeceu-me”.

    Mas a mais sentida reminiscência estava reservada para o salão de jogos. Onde agora se ergue a mesa de bilhar, pernoitava o Fargo.


    Encontro de irmãos

    Ambos entraram na corporação na mesma altura. E ambos estão retirados do activo, participando só em acções cerimoniais. “Estás-te a acabar. És tu e eu”, desabafa Laureano, enquanto passa a mão pela carroçaria vermelha do Fargo, antes de se sentar para a sessão fotográfica. Ninguém diria, perante a chapa ainda reluzente, que aquela foi a primeira viatura de socorro dos bombeiros aguedenses (12 lugares), adquirida em 1935, com chassis encomendado directamente da Chrysler por uns “módicos” 19 mil e novecentos escudos.

    Por vezes dava problemas, mas Laureano, com paciência de irmão mais velho, solucionava-os como ninguém. “Quando aquecia, costumava parar. Eu tropeçava por cima deles todos, abria o capô e molhava a bomba da gasolina”.  Laureano arrefecia-a com desperdícios embebidos em água, que apanhava nas poças do caminho, com uma velha lata de tinta. “Ficava logo em ordem”.

    Numa madrugada em À-dos-Ferreiros, ficaram sem bateria. Laureano agarrou num alicate, cortou o arame de uma vinha e fez ligação directa com um autocarro. “Não os deixei acender a luz. Fomos por ali abaixo às escuras, para poupar bateria”. “Façam figas!”, gritava, não sabendo se com isso atenuava ou acentuava o medo dos colegas da viatura.

    O seu lugar era junto à sineta, ao lado do condutor. Foi para lá que se dirigiu, quase instintivamente. E ali permanece, imerso num momento só seu. A pose austera, a farda impecavelmente engomada, a placa com a inscrição sub-chefe, o crachá de ouro ao peito. O olhar perde-se na distância. Quem sabe se desorientado pelo orgulho, se norteado pela saudade.

    Quebra o silêncio: “Este carro era um autêntico irmão que eu tinha”.

     


    De volta ao “quartel”

    O estalar da casca do amendoim precede a resposta: “A polivalência”. Na opinião de Alberto Pina, essa é a grande diferença entre o passado e o presente. “Tínhamos de saber fazer de tudo”, assegura, salientando que “não havia a técnica, a especialização” dos dias de hoje. “E este era o homem mais polivalente que já conheci”, afirma, com uma palmada nas costas de Laureano.

    Já tinha ouvido o mesmo da boca do chefe Rui Alves, 57 anos, nos bombeiros há 29. “Era de uma raça! Fazia de tudo. E enfrentava os obstáculos com as ideias mais incríveis”. Na altura frisou os quilómetros que faziam a pé, nas manobras de contra-fogo (hoje ilegais) atravessando montes e vales, abrindo caminho com foices e roçadoras, em direcção à frente do fogo, com 20 litros de água às costas, num atomizador. “Quando chegávamos ao sítio calculado, desbravávamos o terreno com as enxadas e as pás e ateávamos fogo, para direccionar o incêndio para esse corte, onde enfraquecia”. “Da equipa dos sete ou oito que faziam essa tarefa, julgo que o Laureano é dos únicos, senão o único, ainda vivo”.

    Pina sublinha o manejar da moto-bomba, outra aptidão peculiar de Laureano.
    Antigamente, a viatura de socorro apenas transportava homens e determinação. A água, era preciso encontrá-la, na zona do incêndio, fosse num poço, lagoa ou rio. Só depois é que se podiam combater as chamas. “Mal chegávamos ao fogo, gritávamos – onde é que há água?”, relembra Laureano – direccionando a cabeça para ambos os lados, como se a busca ainda perdurasse. Dirigiam-se ao local com a moto-bomba, o mecanismo de extracção, à qual conectavam as mangueiras (ou “manga” na sua gíria). “Nem que fosse a dois quilómetros de distância, tinha de ir buscar água”, frisa Laureano. O Alberto Pina deve ter descortinado um ar de surpresa na minha face, pois acrescentou de seguida: “Tínhamos ‘mangas’ que iam do Rio Águeda à Estação dos Comboios”.

    Meter as moto-bombas a trabalhar era com o Laureano. Fartava-se de gozar com os colegas que não conseguiam. Falava com ela: “Porque não ferras tu minha menina?”. Fazia-lhe festinhas. De seguida puxava a corda e ela começava a trabalhar. “Dei com o truque desde cedo, mas nunca disse a ninguém”, confessa, entre gargalhadas, revelando que “tinha a ver com a injecção da gasolina…e um certo botãozinho”.


     

    A rivalidade e os rojões

    “Pergunte-lhe sobre os rojões.” Perdi a conta aos bombeiros que me fizeram alusões à famigerada história dos rojões. Rui Alves assistiu ao episódio e, melhor do que o próprio autor – por não estar agrilhoado aos condicionantes ferros da modéstia – contou a história, que traça bem o carácter e o companheirismo de José Laureano. “Algures na década de 70, na serra de São João do Monte e já na fase de rescaldo de um incêndio, fomos a casa de uma professora local, comer qualquer coisa. No final da refeição, rojões, o Laureano começou a chorar. Soluçava, as lágrimas escorriam-lhe pela cara. ‘Comi tão bem aqui e tenho os meus pobres colegas lá em baixo, mortos de fome’, disse ele. A senhora nem hesitou. Embrulhou tudo na toalha da mesa. E lá levámos o farnel para os nossos colegas. Ficaram todos contentes, a comer aquela comida tão saborosa, no meio da mata”.

    De volta ao balcão da Palhota, é Pina quem revive outro tema caricato. Algures no tempo, dirigiam-se para um incêndio numa serração em Eirol. Junto aos semáforos, avistaram outra corporação. “Olha os de Aveiro”. Laureano meteu-se em pé e vociferou ao motorista: “Aperta, aperta, aperta”. O motor roncava, o carro acelerava cada vez mais. “Morremos todos mas não faz mal”, gritava Laureano, eufórico. “Vamos cair”, diziam alguns. “Aperta!”, respondia Laureano. Ao chegar à recta de terra batida que ligava Requeixo à taipa, bate nas costas do motorista e informava-o que já podia tirar o pé do acelerador. “Já está. Vão ser eles a comer o nosso pó”.

    Era comum esta competitividade entre corporações. Mas era salutar, baseava-se na vontade de trabalhar, mostrar serviço e prestigiar a casa cuja bandeira defendiam. “O Laureano era muito aguerrido. Obrigava todos a trabalhar, queria sempre fazer melhor, que fossemos os primeiros”, recordou Rui Alves.

    Uma outra vez, num incêndio numa fábrica de resina, junto à linha da automotora, Laureano chegou ao local e gritou “alto”. Espreitou, analisou e cavou. Passou a mangueira por baixo dos carris. A corporação de Aveiro não perdeu tempo e meteu a mangueira sobre a linha. “O comboio das 08:30 cortou-lhes a ‘manga’. Mais um gozo”, diz Laureano.

    “E da outra vez, naquele incêndio em Aveiro, no quartel da Infantaria 19, em que os de Anadia andavam à nora, à procura de água, e tu foste meter a moto-bomba no lago dos patos?”, evoca Pina. Irrompem as gargalhadas, apenas afogadas pelo tinto da casa.


    Nas profundezas da vida e da morte

    Um tema recorrente nas histórias que conta aos netos, é o dos resgates nos poços. Perdeu a conta aos momentos dessa imersão solitária na escuridão, em busca de vida ou morte. Só ele e as entranhas da terra.

    Relembra uma chamada ao Brejo, onde dois trabalhadores tinham ficado soterrados a escavar um poço.
    Laureano desceu, com o cheiro a terra húmida a intensificar-se nas suas narinas e o lamento aflitivo da população a desvanecer-se nos seus ouvidos. Nada encontrou no fundo. Quando começou a escavar, sentiu a ameaça de novo desabamento. “A malta remediou um taipal com tábuas velhas e outros pedaços de madeira de um curral”. Já mais protegido, lá conseguiu encontrar os corpos. “Amarrei os cadáveres e subi, abraçado a eles, de frente para um”. E Laureano subiu, face a um olhar apagado, com pedaços de terra sempre a cair. Na superfície, deitou-se no chão, a rezar e a chorar. “Nunca mais vou esquecer aqueles olhos”.

    “Mas também há lembranças felizes”, atira, logo a seguir, recordando “o mais longo abraço” da sua vida. A mesma situação, mas apenas com uma vítima, na Piedade. No fundo do poço, Laureano ia perfurando o aterro com o cabo do machado, à procura de um corpo. Já passava algum tempo, as esperanças eram poucas. Sentiu algo. Escavou. E ouviu uma voz, ainda coberta com terra: “Estás a caminhar por cima de mim”. Já na superfície, a vítima resgatada demonstrou o seu apreço com um forte e longo abraço. “Larguem-me que estou abraçado a um amigo”, dizia ele. “Foi para aí uns 10 minutos”, diz Laureano.

    “E o boi?”, refere Pina. “Pá, do que te foste lembrar…”.

    Aconteceu perto da clínica de Oiã, “num poço seco que lá havia”. Um boi tinha caído e não dava sinal de vida. Amarraram as mangueiras e Laureano desceu por elas, a punho. À medida que se aproximava do fundo, começou a percepcionar a silhueta do animal, tenuemente recortada na escuridão. “Um animal portentoso, metia medo”. Ouviu algo. “Ele está a mugir. Está vivo”, gritou Laureano para a superfície. De lá, veio um aviso: “Tenha Cuidado! Não toque na barriga do boi”, alertou o dono.

    Mas quando as palavras desceram, já Laureano estava demasiado próximo. Só teve tempo de sentir o quente arfar do animal no seu rosto.

    Dizem que perante a fatalidade, a memória recua à infância. Naquele momento, a de Laureano viajou até Ponte de Lima.
    “Segura aqui a pata”. Quase conseguia ouvir as roucas palavras do velhote, dono da casa de ferraduras da sua terra natal, onde em pequeno passava muitas tardes, a brincar e a ajudar com os cavalos. Essa experiência revelar-se-ia fundamental na sua carreira militar. Numa das tardes no esquadrão da Cavalaria oito, em Aveiro, surgiu um cavalo branco, altivo, selvagem, indomável, “diabólico” – para alguns. “Aquele ronco parecia o brando do demónio”. Laureano não hesitou. Aproximou-se devagar, passou-lhe a mão pelo focinho e, com vários afagos, colocou-lhe a ‘cabeçada’ e o ‘arreio’. O espanto atingiu todos, excepto Laureano. Desde pequenino que sempre soubera o segredo: “Subtileza, meiguice”. “A força e a violência só os tornavam ainda mais ariscos”. A façanha valeu-lhe um posto no picadeiro e o respeito dos oficiais. “Nunca aqui agarrámos um soldado como tu”, confessara-lhe o seu tenente, durant…

    A lambidela na cara desperta Laureano da reminiscência. Não o esperava desta vez, mas a sua aptidão com os animais voltou a não falhar. “Só faltou o boi ronronar”. E, pacientemente, Laureano lá amarrou as mangueiras ao corpo daquele colossal felino cornudo, triunfalmente içado pelos companheiros.


    O ano negro de 1986

    Laureano contava 73 anos, quando o acordaram naquela fatídica manhã de 14 de Junho de 1986, e o informaram de uma tragédia com os bombeiros de Águeda. Já não estava no activo e já começava a padecer de alguns dos problemas de saúde que agora o martirizam. Mas, mais uma vez, não pensou duas vezes. “Havia fagulhas no ar. Que fogo, meu Deus!”, pensava, enquanto corria para o quartel.
    Havia mortos confirmados e sete desaparecidos na corporação de Águeda. Laureano arrancou num carro rumo a São João do Monte. A estrada parecia serpentear por um autêntico cenário de devastação. Onde não havia fogo, havia cinza. Travou bruscamente, na zona do Ramalhal. Lá estavam os sete, junto ao Land Rover “depósito amarelo”, que tinha avariado de madrugada. Laureano agarrou-se a eles, a chorar. Um dos jovens bombeiros era o actual chefe Sabino. “Ele abraçou-se à malta. Só gritava: Os nossos colegas morreram mas vocês estão vivos”, recorda o oficial.

     

     

    “Naquela altura não havia telemóveis, as comunicações não estavam a funcionar, foi um pandemónio”, recorda Pina. “Aquilo foi um autêntico tufão de fogo! Em 50 anos de bombeiro nunca vi coisa igual”, assegura.

    Nessa noite estava de serviço no bar do quartel, mas o apelo das chamas foi mais forte. Arrancou com o colega “canário”, na única viatura que restava no quartel, uma camioneta de carga com um tambor de 800 litros de água. Não era uma viatura minimamente adequada para um incêndio daquelas dimensões, Pina sabia-o. Mas ainda conseguiu acudir a um homem que, em desespero, “tentava apagar o fogo na sua casa com pipas de vinho”.

     

    Naquela noite arderam cerca de sete mil hectares de floresta, em zonas limítrofes ao Caramulo, naquele que é considerado o mais infernal incêndio de que há memória na região. E 13 soldados da paz – nove de Águeda e quatro de Anadia – imolaram os seus destinos em prol de um dever que só um bombeiro verdadeiramente sente.


     


    O nome perdura

    Nos serões em volta das histórias, um dos bisnetos nutria particular atenção das palavras de José Laureano. Sentia-se fascinado com aqueles relatos de coragem e arrojo. O fascínio maturou. Aos 18 anos decidiu-se. Hoje, três anos depois de se ter alistado, Bruno Laureano junta-se ao bisavô na sessão fotográfica, no quartel dos bombeiros. Nas suas mãos, o capacete Nº118 profetiza a continuidade de um apelido que marcou toda uma instituição.

    “Boas botas. Antigamente tínhamos era o cara#$%& é que tínhamos”, resmunga José Laureano, ao ver o bisneto encavalita-se no beliche.

    Bruno já perdeu a conta às conversas intermináveis que ambos tiveram, debatendo a abissal diferença de meios entre presente e passado. “É uma guerra caricata”, diz Bruno, a sorrir. “Todos sabemos que antigamente as intervenções dependiam mais do heroísmo do que de outra coisa. Não havia meios. Eram 12 num carro”. Hoje os tempos são outros, com a cidade a ser servida por “um quartel moderno e bem qualificado”.
    Em final de 2008, 163 bombeiros constituíam o quadro activo do quartel, servidos por 45 viaturas de socorro. Nesse ano foram realizados quatro seminários no distrito, três cursos em Águeda, e incontáveis formações internas. Mas Bruno não tem dúvidas que, independentemente de geração ou condições, é o mesmo altruísmo que corre nas veias de um bombeiro.

    O seu cargo principal prende-o na central. Mas nunca deixa de correr para os fogos, sempre que pode. Noites de sono, jantares, aniversários, já perdeu a conta às interrupções. Deixaram de ser interrupções. A sirene e o seu fatídico cântico de sereia já são parte de si.

    Da sua (ainda) curta carreira, já guarda um momento que o acompanhará para sempre. A assistência a um parto de emergência, nas traseiras da “sua” carrinha do INEM. “Temos de fazer o parto aqui”. Quando Bruno ouviu as palavras do médico, tremeu. “Eram duas vidas em risco”. Mas não demorou a suspirar de alívio. “Ouvir aquele primeiro choro é algo único”, recorda. Às 23h00 daquela noite, em frente a uma padaria qualquer de Recardães, certamente que foram muitos os que passaram e, confrontados com o aparato, deduziram que mais uma pessoa sucumbia ali. “Desta vez era o contrário”.

     


    A história perdurará

    As histórias sucedem-se, escorrendo com o tinto e com o entusiasmo de velhos camaradas.
    Neste balcão, já entoámos em voz alta o hino dos bombeiros, relembrámos palavras de Eugénio Ribeiro, viajámos ao passado. Já se descortinaram inconfidências, partilharam episódios inenarráveis, verteram emoções.
    O vinho trás a verdade. Mas também a saudade. Dos tempos em que era possível ver um bombeiro a correr, descalço e de cuecas pela Venda Nova fora, para se sentar a chorar na calçada – mesmo aqui em frente – porque o carro já tinha partido e ele não ia ao fogo. “Do que sentia cá dentro, cada vez que voltava de um fogo, descia do carro e dizia: Mais uma missão cumprida”, diz Pina. “Eu queria era água!”, esbraceja Laureano.
    Há coisas que não mudam. Outras sim. Mudaram para sempre o som da sirene no meu imaginário, quando estou nesta cidade. Sei que há um jovem frenético a correr em direcção às chamas. E há um velhote com olhar nostálgico, a sofrer por já não ir ao seu encontro, pelo corpo não anuir à vontade, ainda bem acesa.
    Há fogos que a água não pode apagar.

    Fotografias: Tiago Oliveira e Filipe Silva