AS FRONTEIRAS DA GUERRA (III – Amanhecer Violento)

Na antiguidade era diferente. Ouvia-se o rumor ameaçador dos tambores quando um exército invasor se aproximava. Por vezes, entoavam cânticos de guerra. Quando atacavam de noite, carregavam archotes e eram as labaredas que denunciavam a sua proximidade e o seu número ao olhar petrificado do povoado prestes a ser invadido. Sempre que viajo numa autoestrada de noite e vejo os milhares de pontos de luz de uma cidade próxima, lembro-me desses tempos antigos, onde o fogo acusava a progressão inimiga ou os seus acampamentos. As chamas eram uma necessidade mas, acredito, muitas vezes eram também estratégicas. Um exército ciente do seu número, usava-o como elemento intimidador. Uma forma de condicionar ou minar a confiança dos potenciais conquistados. Talvez se rendessem ao amanhecer, sem ser preciso desembainhar uma única espada. Hoje é diferente.

Estamos prestes a ser atacados e não há um único sinal sensorial que clarifique um pouco essa evidência. Não vejo nada, não ouço nada, não sinto nada. E no entanto, sei que eles vão aparecer. Somos só três homens nesta base russa e o inimigo sabe-o. É apenas uma questão de tempo. E o tempo custa a passar quando, à minha volta, só tenho a tranquilidade cínica da cabra desta noite.
Não dizemos nada uns aos outros. Há muito que desistimos de iniciar qualquer tipo de conversa. Estes rostos só exprimem apreensão. Pouso a máquina fotográfica no chão e esfrego o rosto, a tentar despertar ou aquecer, já nem sei. Sei que matava por um café. Um café a escaldar, cujo copo de plástico me queimasse ligeiramente as mãos ao ser envolvido. O fumo a elevar-se, o aroma a tocar-me as narinas geladas. Nem sei o que está em pior estado, se o nariz, se as orelhas. Este maldito silêncio é ainda mais frio do que a aragem da noite. Da cabra desta noite.

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Estamos numa das extremidades da base, posicionados junto a um camião militar estacionado perto da barreira de entrada. A tenda de campanha fica mais ou menos no centro. Tenho lá a mochila principal e decido ir lá buscar as luvas, um gorro e, especialmente, a credencial de jornalista, que pode vir a dar jeito no caso de uma rendição, para coagir os gajos a cumprir as Convenções de Genebra. “A não ser que executem também o jornalista, claro”, pensei, sorridente e com passada cada vez mais larga. “Bem, não se perde nada em tentar”.

Não é fácil vasculhar a mochila no escuro. Só me falta encontrar a credencial, que nunca devia ter saído do meu pescoço. No preciso momento que senti a fita nos dedos, pressenti um movimento na lona da entrada da tenda. Conformado, ergui os braços e virei-me devagar. Encontro quatro canos de M16 virados para mim. Um dos soldados aponta-me uma lanterna à cara. Repito insistentemente a palavra “press”, mas como resposta só obtenho um rígido: “No ti muevas”. É um pelotão espanhol da coligação da OTANA. “Tienes um cinturón bomba?”, perguntam, enquanto me revistam dos pés à cabeça. “Just a jornalist”, digo, instintivamente em inglês, enquanto ergo a credencial. Do pouco espanhol que recordo das longínquas aulas no liceu na Mãe Rússia, pareceu-me que um deles instruiu o outro a disparar sem hesitação caso eu faça algo suspeito.

Estou a sair com eles da tenda, preocupado com o paradeiro do Frix e do Ssnke, quando ouço um barulho proveniente de um arbusto próximo. Um dos soldados aponta para lá a lanterna e grita, autoritário, “OTANA! OTANA!”. A resposta é uma rajada de tiros. Reconheço a voz da supressora do Frix, antes de me atirar para o chão. Quando levanto a cabeça, há quatro corpos estendidos. Um quinto soldado debruça-se sobre um camarada prostrado com três orifícios ensanguentados na testa, alinhados e equidistantes, como reticências fatídicas. “Tres en la cabeza, tres en la cabeza”, grita insistentemente o sobrevivente, com os olhos muito abertos, perdidos num misto de angústia e estupefação. O Frix aponta-lhe a arma e dá-lhe ordem de rendição. Mas a única reação do pobre homem é apontar para baixo e repetir “Tres en la cabeza”. É assim a guerra. Quando não mata, enlouquece.

Há mais vozes na distância. Corremos em busca de abrigo, que encontramos na barreira blindada de uma antiaérea.

– E o Ssnke? – pergunto.

– Está escondido no mato, no perímetro exterior da base.

– Achas que se safa?

O Frix não chega a responder. O inimigo detectou-nos e os disparos voltaram. Fincadas no escudo da antiaérea, as minhas costas estremecem sempre que as balas esbarram naquela barreira de metal. Um centímetro de grossura a delimitar a fronteira entre a continuidade do mundo e o vazio. Tenho sangue no ombro. Não é meu. Escorre de um buraco escuro na farda do Frix, que está de pé a operar a supressora.

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– Estás ferido pá, temos de nos pôr a andar daqui…

– Antes morto que vencido! – Grita Frix, enquanto prime o dedo no gatilho com toda a raiva do mundo.

– ANTES MORTO QUE VENCIDO!

– ANTES MORTO QUE VENCIDOOOO!

O terceiro grito já é entoado em esforço. O ferimento é ligeiramente abaixo das costelas. Não faço ideia se é fatal ou não, mas sei que se morre devagar com ferimentos na parte de baixo do tronco. Está inclinado contra a barreira, com os oito quilos da PKM seguros no ombro direito. Esforça-se por manter a posição, as suas botas derrapam na terra. Olho para cima e o seu olhar está cambaleante como as suas pernas. Está na hora de sair daqui.

 

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Resolvo recorrer à arma mais potente que tenho no meu coldre. A retórica. Disparo inúmeros argumentos, como o seu cadáver não ser útil à pátria nem à filha recém-nascida que o aguarda em Moscovo, ou o facto da missão primordial estar ainda por cumprir. Ou os companheiros de armas, que podem precisar mais dele neste momento do que uma base vazia. Acrescento ainda algum tempero:

– Pá, eu não queria dizer nada para não lixar a tua concentração, mas quando estava a ser revistado na base ouvi uma transmissão de rádio dos espanhóis, onde mencionaram que estava em curso um ataque ao hospital de campanha onde está o resto do nosso pessoal.
Os olhos do Frix dilatam-se, como a veia que lateja na sua têmpora por baixo da alça do capacete. Larga a arma, retira uma granada do cinto e mete-a na minha mão.

– Estás a ver aqueles carros lá ao fundo? Está lá um dos jipes da nossa companhia. Não tenho a chave, mas sei onde eles guardam a suplente. Quando eu disser, vou começar a metralhar com força. Nesse momento, corres para aqueles caixotes e lanças a granada com toda a força para o flanco contrário dos gajos. Quero-os desnorteados. – Uma violenta tosse interrompe o seu discurso. Respira fundo duas vezes e prossegue:

– A explosão não nos dá cobertura suficiente para chegar aos carros, mas dá para chegar àquele amontoado de mercadoria. A partir daí, podemos contornar aquela tralha toda e chegar ao jipe. A volta é maior, mas estamos ocultos pela tralha e pela escuridão. Estás pronto?
Não espera pela minha resposta e começa a cuspir fogo com a sua PKM. Corro como nunca corri na vida e atiro-me para trás de um caixote do tamanho de um Fiat Panda. Olho para a granada. Esta merda nos filmes parece fácil. É só pressionar o gatilho, retirar esta cavilha… mas depois quanto tempo tenho? Cinco segundos? Menos? Porra para isto!
A cavilha solta-se com mais facilidade do que esperava. Lanço de imediato a granada. Os segundos passam. Começo a questionar-me se aquela porcaria vai arrebentar ou não. Tenho os ouvidos a zunir. Arrebentou.  O Frix passa por mim, cada vez mais ofegante. Amparo-o no ombro e arrastamo-nos pela escuridão. O plano está a funcionar. Falta uma última corrida.

– Só mais um esforço – digo, entredentes. Quando o faço, vem-me à cabeça um velho anúncio de televisão da Suchard Express, que não vejo desde a infância, onde um puto escala um beliche em busca de um São Bernardo e um copo de leite achocolatado. Já estou a ficar maluco com esta merda. O esforço é suficiente. Estamos no jipe. O Frix aloja-se na parte de trás e aponta para a caixa de ferramentas.

– Matrioska… matrioska.

Abro a caixa, remexo freneticamente as ferramentas e encontro a boneca da madeira. Desenrosco-a e encontro outra boneca. Só no ventre da terceira é que descubro a chave da nossa sobrevivência. Arrancamos a todo o gás, deixando para trás uma nuvem de poeira que se desvanece lentamente, tal como a voz do soldado russo.

– Antes morto que venc…

 

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Há uma revolução em curso no hospital de campanha. Sacos de soro arrancados, muletas partidas, frascos de comprimidos esvaziados na sanita. Os feridos russos exigem ter alta antes do tempo e estão dispostos a tudo para sair daqui. Desde que chegaram as notícias da base invadida que este hospital está em estado de sítio. Inevitavelmente, conseguem o que pretendem. Frix está bem. A bala entrou e saiu sem atingir nenhum órgão. Não houve fatalidades na 605ª nem no grupo paraquedista. Engessados ou remendados, todos saem daqui pelos próprios pés. Entoam o hino na carrinha de transporte e rejubilam quando sabem via rádio que as forças russas e o exército da ENA estão neste momento a tentar reconquistar a base.

– Acelera nisso! Não queremos chegar lá no final da festa – grita Fragatov aos ouvidos do motorista.

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– Passa-me o tabasco – diz Sturm, que recebe o frasco das mãos de King e o entorna para dentro da lata de chili com carne.

– Esta merda não sabe a nada! É como estar aqui nesta base reconquistada. Não sabe a nada!

– Calma Sturm – refere Spet – os outros camaradas também têm de ter os seus momentos de glória, ou não é?

– Era nosso dever estar cá! A culpa é dos médicos, atrasaram-nos a vida toda! – responde Sturm, nitidamente arreliado.

– Tranquilo meu tenente, eu já disse que lhe conto a história toda, com todos os detalhes e pormenores – riposta Ssnke.

Todo o grupo ri às gargalhadas, incluindo Sturm, resignado, após simular um gesto ameaçador com o punho cerrado.

Ssnke mantivera-se escondido no bosque durante a ocupação da OTANA e fora instruído, via rádio, a manter a sua posição furtiva e vigiar as movimentações inimigas até à hora do ataque, organizado por forças russas e abdulianas. Foi o único elemento da 605ª a participar na reconquista da base.

– Cão sortudo! – brinca Fragatov.

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A confraternização russa mantém-se animada no bunker durante mais alguns minutos, até ser interrompida pelo General Midlandov. Há mais uma missão pela frente, composta por dois objetivos. O primeiro é escoltar um elemento com ligações ao governo abduliano até Khali, onde vai efetuar um discurso político. A intenção é converter indivíduos com inclinações à causa rebelde e também dissipar eventuais focos de resistência. Consta que as suas capacidades de retórica são muito valorizadas no regime e foi sublinhada ao pelotão a importância de preservar a sua integridade física. Não temos informações sobre o seu nome. Vou apelidá-lo de “bol’shoy rot”, uma expressão típica russa que significa, literalmente, “boca grande” e figurativamente, “fala-barato”.
O segundo objetivo – que curiosamente vai ocorrer antes do primeiro – é garantir o negócio de compra de um chip de navegação – fulcral para o lançamento do míssil – a ter lugar num armazém abandonado a poucos quilómetros da aldeia. Para esse objetivo, segue connosco um negociador que será responsável pela transação.

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Os dois pelotões russos prosseguem apeados numa longa estrada de terra batida que atravessa o bosque e a madrugada abduliana. Passo a passo, avançam cautelosos e tensos, ainda com a recordação fresca da emboscada anterior.
Entre nós seguem dois jipes, ambos com as luzes apagadas. Um com o bol’shoy rot, protegido pelos russos e outro com o negociador, protegido por forças ENA. Olho para a silhueta deste último, no banco traseiro do jipe que segue mais adiante. Vi-o momentos antes a entrar na viatura com uma pasta nas mãos, que deduzo estar cheia de dólares, como é comum na maioria das transações clandestinas nesta região. Privilegiam a moeda do país que desprezam. Irónico.

Saímos da estrada principal e enveredamos por um trilho que leva a uma pequena clareira. Ao fundo avista-se a silhueta negra do edifício, ligeiramente mais escura do que o céu nocturno. O condutor do jipe da frente faz o sinal combinado: uma piscadela com os faróis. Se receber resposta, é porque os contrabandistas já estão lá. Após poucos segundos, um súbito e efémero clarão informa-nos que o negócio é para avançar.

Olho para a minha máquina, pendurada a tiracolo e solto um longo suspiro. Por motivos óbvios estou impedido de recorrer ao flash quando acompanho as missões nocturnas. É uma grande condicionante para o meu trabalho, mas é preferível estar condicionado do que morto por inadvertidamente denunciar a nossa posição ao inimigo. Como os outros artifícios para aumentar a luminosidade não são os mais adequados para situações de movimentação rápida no escuro, opto por registar mais com o olhar e gravações de voz.

O jipe com o negociador é o único a deslocar-se. Os russos permanecem imóveis, como a viatura que protegem. Resolvo acompanhar a ENA e assistir à negociação.
A clareira está envolta em alguma neblina. Como se a situação já não tivesse carga dramática suficiente. A cerca de 10 metros do edifício, dois vultos desvendam-se na escuridão. O negociador sai da viatura e dirige-se a eles. Saúdam-se. Conversam. Apertam as mãos. Não há nada a negociar, o preço já estava acordado. O negociador, juntamente com o oficial da ENA, inspeciona cuidadosamente a mercadoria, enquanto um dos contrabandistas se ajoelha no solo a contar o dinheiro. Um soldado da ENA – que fala inglês e a quem tirei algumas fotografias ontem – aproxima-se de mim.

– Se calhar é o teu dia de sorte, repórter.

– Porquê?

– Aqueles que tanto ansiavas encontrar…

– Estás a brincar? – questiono, com o entusiasmo a apoderar-se de mim.

O soldado assente com a cabeça, aponta para os dois elementos e assegura, frisando cada silaba da palavra:

– Karkarianos!

O soldado aceita abordá-los e, caso eles aceitem falar, servir de tradutor.
Troca algumas palavras com o elemento que aguarda que o parceiro inspecione o pagamento.
Regressa, encara-me dois ou três segundos com uma expressão séria, até se desmanchar num sorriso e dizer:

– Tens cinco minutos. Aproveita-os bem.

Tenho de pagar ao Karkariano. Duas notas de vinte. Divisas do diabo, claro. A única condição, para além das notas, é não tirar qualquer fotografia.
Sentamo-nos em dois caixotes. Observo-o por alguns instantes. Fotografo-o mentalmente. A sua pele é cor de caramelo e os seus olhos são completamente negros. Veste uma longa camisa caqui, que lhe dá entre a cintura e os joelhos, juntamente com um velho e desbotado colete militar abduliano, cheio de bolsos. Tem um shemag cinzento-escuro enrolado à volta da cabeça que lhe cobre todo o cabelo e outro à volta do pescoço, que deduzo usar quando precisa de cobrir o rosto. Aparenta estar tranquilo. Talvez demasiado tranquilo para a presente situação. Resolvo aproveitar o pouco tempo que tenho e começo a disparar.

– Descendes do antigo povo Karkariano, que se estabeleceu no local onde se travou a primeira grande batalha pela liberdade, onde 11 reis se uniram pela defesa da sua terra contra um invasor estrangeiro?

– Sim.

– Como te chamas?

– Chama-me Karkariano.

– Seria mais credível para o meu trabalho poder ter um nome.

– O meu nome é Karkariano!

– Qual é a tua principal ocupação, Karkariano?

– Sobrevivente.

Este gajo vai ser curto e críptico nas respostas – penso. Mais vale ir directo ao assunto.

– É verdade que serves ambas as facções desta guerra?

– Define facções, russo.

– A coligação defensora abduliana-sovodka e a coligação invasora OTANA?

– Acreditas em todas elas?

– Elas quem?

– Todas as palavras que te saem da boca.

Ainda estou a digerir a resposta quando ele complementa:

– Eu não acreditaria em todas.

– Há alguma em particular que te cause descrença?

– Defensora. Invasora.

– Não é verdade que o teu país está a ser invadido por um exército estrangeiro?

– Achas que sim?

Não lhe respondo de imediato, embora já tenha definido a resposta. Sei que vou brincar com o fogo mas se quero obter mais dele, tenho de o espicaçar.

– Eu acho que há um legado de honra com mais de dois mil anos de idade que deixou de ser o Norte nesse vosso instrumento – aponto para uma arcaica bússola que o Karkariano tem pendurada ao pescoço por uma fina corrente e que lhe cai até meio do peito.

Ele olha para baixo e abana a cabeça enquanto arrota um sorriso cínico, sinal que digeriu ambas as analogias implícitas. Solta umas palavras irritadas em árabe que o soldado da ENA se recusa a traduzir, aponta-me o dedo e depois leva-o à sua têmpora direita.

– Se calhar tenho mais coração do que tu tens miolos.

– Não sou eu que tenho dificuldade em distinguir o significado das palavras invasão e defesa.

– Não sejas condescendente comigo, russo. Os ocidentais estão cá porque querem invadir os nossos recursos naturais. Abdul há muito que invadiu os direitos do povo abduliano. E vocês, meus caros, estão cá porque querem partilhar essa invasão e a invasão dos ocidentais. Eles invadem pela força. Vocês, pelo aproveitamento da fragilidade alheia. E Abdul invade por essa noite que parece ter-se eternizado, onde dorme o sangue guerreiro deste povo. Todos invadem! Todos são invasores, russo.
É notório o desdém com que foi pronunciada a última palavra. Olho para o tradutor e sinto-o desconfortável com o rumo da entrevista. Vai piorar antes de melhorar, meu caro. Abro a boca, mas o Karkariano antecipa-se:

– Por isso não me fales em legados, nem em honra… e muito menos em invasores e defensores – afirma, enquanto retira um cigarro do bolso da camisa.

– Sentes orgulho no que o teu povo se tornou?

– Não somos nós que mudamos o tempo. Ele é que nos muda a nós.

– O tempo ou o que está dentro dessa pasta?

– Deixa-me que te diga uma coisa, russo.

Pousa o cotovelo na mesa, sustém o queixo com a ponta dos dedos e inclina-se para mim, com as pupilas dilatadas com cinismo.

– Só é possível fazer três coisas numa guerra. Morrer, matar e lucrar.

O karkariano solta uma baforada do cigarro recém-acendido na minha direcção, aguarda alguns segundos – como que à espera que a nuvem se dissipe para que eu lhe possa ver o olhar a desafiar o meu – e pergunta:

– Qual é que achas que eu prefiro?

– Gostaria que fosses tu a responder a essa pergunta. Qual das três?

– A que faz de mim o que eu sou. Um sobrevivente.

Escrevo algumas notas no caderno. Não porque precise de registar a informação, toda ela já está no meu gravador. Preciso é de alguns segundos para decidir a próxima pergunta.
Um zunido prolongado passa de rompante pela minha orelha esquerda e silencia-se após um impacto seco. Levanto a cabeça e já não tenho ninguém à minha frente. Há sangue a gotejar do meu rosto. Não é meu. Descubro a sua origem quando o fogo cruzado me obriga a mergulhar para o solo. Quando abro os olhos, estou cara-a-cara com o Karkariano, que tem um buraco enorme na cabeça. A sobrevivência esfumou-se dos seus olhos abertos, condenados a contemplar o seu eterno presente.

– Fogo aleatório – afirma Sturm. – Foi ele, podias ter sido tu, podia ter sido ninguém. Os rebeldes não têm disciplina nenhuma, parecem baratas tontas com armas nas mãos.
Foi, de facto, uma emboscada desorganizada. Ao todo eram seis rebeldes e foram rapidamente neutralizados. A única baixa do “nosso lado” foi, curiosamente, o “sobrevivente”. O outro karkariano conseguiu entrar no jipe e fugir agarrado à sua mala.
Continuamos a marcha pelo mesmo caminho escuro que atravessa o bosque. Botas russas, apenas. A ENA escoltou o negociador e o chip de navegação de regresso à base. Nós seguimos com o “bol’shoy rot” rumo a Khali.

 

Há neblina na aldeia. Dá-lhe um ar ainda mais tranquilo. – Demasiado tranquilo – afirma Spet.
O tenente Sturm agarra nos binóculos e inspeciona demoradamente cada recanto do centro de Khali. As ordens são muito claras. Estabelecer um perímetro de segurança, entrar na aldeia, revistar todos os civis que encontrarmos e, só depois, é que o “bol’shoy rot” poderá sair do jipe e cumprir a sua função. Posto desta forma parece simples, mas é uma missão muito mais complicada do que parece. Há uma forte probabilidade de emboscada à entrada da aldeia e nenhum destes homens ignora isso. Antes pelo contrário, estão a contar com ela.

– Se fosse eu, atacava por aqui – afirma Spet, com o indicador num ponto do mapa que assinala uma colina sobranceira à aldeia. Sturm e Frix acenam em concordância.
Definem a estratégia: Vão fazer a progressão por entre um conjunto de obstáculos – carros, árvores, muros, atrelados, etc. – preparados para se abrigarem da colina ao mínimo indício de contacto. Há riscos. Se o ataque tiver outra origem que não a colina, estarão expostos.
O tenente russo olha para os seus 11 homens. Um olhar que perdura alguns segundos. Nesse instante passam-lhe várias coisas pela cabeça, mas da sua boca apenas saem duas palavras.

– Spetsnaz… davai!

– DAVAI! – Responde o grupo, baixinho mas de forma uníssona.

A progressão é lenta e calculada. Cada movimento, cada passo, cada galho seco que se evita. Já estamos à entrada da aldeia e por enquanto tudo continua calmo. Cinicamente calmo.
Quando passarmos determinada esquina em segurança, será dada ordem para prosseguir ao jipe, que aguarda parado num local estratégico. A tensão é palpável.

Um estrondo na chapa de um dos carros estacionados abre as hostilidades. Os russos abrigam-se. Seguem-se alguns segundos de fogo intenso, proveniente da colina.
Estão a usar munições tracejantes. Os tiros arrastam-se na escuridão como estrelas cadentes, deixando um rasto verde florescente. Faz lembrar as imagens na Guerra do Golfo, embora nessa altura a tonalidade esverdeada se devesse apenas às câmaras de visão nocturna que transmitiam as imagens. Aqui, são os próprios tiros que têm essa cor. Deitado na terra, olho para cima, vejo-os cruzar o meu céu e perco-me no pensamento absurdo que me sussurra que ser metralhado é um espetáculo tão lindo quanto fatídico.

– Desta vez não são rebeldes – diz King, com um sorriso sarcástico, a Sokol. Ambos estão sentados e com as costas na carroçaria de um velho Fiat branco. Tal como os outros russos, aguardam a ordem para responder ofensivamente à emboscada. Algumas dezenas de segundos e milhares de munições gastas depois, surge o grito ansiado.

– SPETSNAZ… DAVAI!!!

Com rígidas manobras de cobertura e avanço, os operacionais russos vão ganhando terreno. Os seus movimentos parecem mecânicos. Disparam poucos tiros. Disparam certeiro. Disparam a matar. Pouco a pouco, vão limpando sectores e ganhando liberdade de movimentos. As forças circundantes são aniquiladas. Permanecem alguns focos de resistência na colina, por isso é formado um perímetro defensivo à entrada da aldeia. Os restantes homens prosseguem com o “bol’shoy rot” rumo ao centro nevrálgico de Khali.

Há mais movimento do que o esperado. Estão dezenas de pessoas na praça central da aldeia. Excelente para o discurso, péssimo para o esquadrão russo que tem de os revistar a todos. Os soldados dividem-se por sectores, mas os civis são imensos e o controlo é cada vez mais complicado. Numa das esquinas da praça há um café. É um espaço rústico, com uma enorme esplanada montada numa tosca estrutura de madeira rodeada por um toldo verde e branco. Spet entra lá dentro e consegue localizar dois elementos rebeldes escondidos. Estavam armados e com ferimentos ligeiros. O russo domina-os, prende-os com algemas de plástico (flex cuffs) e conduze-os ao exterior. Há um movimento súbito na esplanada. Uma cadeira que cai, um vulto que se ergue. Dois tiros são disparados e atinguem Spet. Um abduliano de turbante negro e shemag branco é prontamente abatido pelas forças russas e deixa cair a pistola que tinha oculta nas suas vestes. Há breves minutos tinha-o fotografado, enquanto aguardava a saída de Spet do interior do café. Disparei por instinto, intrigado com a sua expressão compenetrada e sisuda, que na altura até poderia ter sido suspeita, não fosse esse o semblante de todos os abdulianos residentes em Khali.

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Spet está bem, foi atingido no ombro e no braço e Felipov já está a tratar dele. A situação na praça está muito instável, há um sentimento de ameaça suspenso no ar. Podem existir mais civis com armas dissimuladas e a OTANA pode enviar reforços a qualquer momento. O tenente Sturm faz uma análise da situação, considera que a integridade do “bol’shoy rot” não está assegurada e decide abortar a missão. De forma tão célere e maquinal quanto entrou, o pelotão russo abandona Khali em poucos minutos.

 

Sturm abandona a tenda de comando com palmadas nas costas. O general Midlandov considerou acertada a sua decisão. Senta-se no chão junto aos seus homens e partilha as novas instruções.

Uma divisão é destacada para pernoitar ao relento no bunker, para defender essa extremidade da base. Os restantes russos levantam-se e deslocam-se vagarosamente para a tenda central da base. Poucos minutos depois, vejo-os a regressar, carregados com mochilas e sacos-cama, e começam a instalar-se na zona à volta do bunker. Frix, nota o meu olhar de espanto.

– Se ficam uns a dormir no mato, ficam todos – diz-me, com um rápido piscar de olhos.

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Observo-os naquele buraco de terra, animadamente a partilhar vodka, cigarros, mantas, histórias de guerra. Nestes momentos de confraternização em zonas de combate, entram numa espécie de sintonia colectiva que os parece envolver e deixar imunes a todas as circunstâncias exteriores. Já tivera essa sensação na noite em que cheguei a Abdul e convivi com eles no primeiro acampamento. Essa peculiar intimidade com a guerra, como aquele inimigo que se mantém próximo para controlar a sua nocividade, ou o veneno que se beberica aos poucos para ganhar resistência à sua toxicidade.
Ouvem-se tiros distantes, disparados algures neste imenso bosque. Olho para o fumo do cigarro que se eleva no ar gelado de Abdul. Já vai a meio e mesmo assim será uma noite longa.

 

O sol arreganha os olhos de Barna, que acorda junto ao corpo frio da sua Miss Vintorez. Pergunto-lhe sobre a alcunha. Ele sorri, com os olhos nela, e responde:

– Sexy, fatal e silenciosa!

A admiração é partilhada por outros olhos russos. A VSS Vintorez é uma arma de eleição nas forças SPETSNAZ. Desenhada para missões clandestinas, tem um forte silenciador, dispara munições que perfuram blindagem e desmonta-se em várias partes para ser transportada ou ocultada.

O grupo começa a reunir. Juntam-se junto ao fogareiro, atraídos pelo cheiro de café acabado de fazer. Não há chávenas para todos, há que improvisar. Barna tira um facão de mato da cintura e corta o fundo de uma garrafa de plástico.

– Já tenho chávena!

Durante esses momentos de convívio matinal, fico a saber que houve um ataque de uma patrulha da OTANA durante a madrugada. Bem organizados, conseguiram penetrar na base através de um ponto de acesso vulnerável, aproveitando o facto de 70% dos operacionais estarem a dormir. Porém, não conseguiam tomar a base devido a um pronto contra-ataque das nossas tropas. Perante a iminência de um reforço das nossas linhas, não tiveram outra alternativa que não retirar.

 

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Este sol matinal está particularmente quente. Há quem aproveite para estender equipamento, humedecido pelo orvalho e há quem esteja compenetrado com os olhos no horizonte. Um míssil nuclear vai ser lançado dentro de poucas horas.

Sturm é chamado ao posto de comando. Há imensa curiosidade e alguma especulação entre os seus homens relativamente à tarefa que terão pela frente. Regressa com alguma apreensão no olhar. Uma das unidades de combustível sólido para o míssil foi destruída durante a noite por uma operação inimiga. Para garantir as reservas, é necessário obter uma nova unidade, enterrada nos bosques de Abdul.

– E então, qual é o problema? – Questiona Ssnake. – Já resgatámos uma, resgatamos outra – complementa.

– O problema, meus caros, é que esta está localizada nas imediações de uma base da OTANA – elucida Sturm.

– Epá, mas quem foi o nabo que enterrou a unidade num ninho de vespas? – Vocifera Frix, nitidamente incomodado.

– Foi deixada aí por um erro de cálculo por parte da equipa responsável. Após ter-se detectado o erro, o comando esperava que nunca viesse a ser precisa. Afinal vai ser precisa e nós temos a responsabilidade de a resgatar.

O pelotão russo está de regresso à estrada. Ao mesmo caminho de terra que parece igual a tantos outros na imensidão deste bosque perdido algures no coração do Médio Oriente.

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Quando se aproximam do local, a estupefação é geral. A base está armada até aos dentes e o ponto de extração fica a apenas 30 metros da mesma. Mas não há tempo para queixumes. O relógio está em contagem decrescente, é preciso definir a estratégia e avançar. Os homens dispõem-se num terreno ligeiramente elevado, de forma dispersa mas apoiada e avançam. O contacto é inevitável e estala poucos instantes depois. A troca de tiros é incessante. Os russos posicionam-se estrategicamente, mas o avanço é lento. Exasperadamente lento. Sturm consulta o relógio de forma compulsiva. Os ponteiros não param.

 

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É durante este impasse que decido cometer a maior loucura de toda esta minha missão jornalística. A Oeste da base há uma pequena barreira defensiva com três soldados da OTANA. Não está na zona directa de fogo, apenas está a proteger aquele flanco, de onde eu sei, de antemão, que não advirá nenhum perigo. É a oportunidade de registar o outro lado da barricada. Se começar a racionalizar, não vou sair daqui. Levanto-me instintivamente e começo a percorrer esse caminho menos percorrido. Percorro-o com as duas mãos erguidas, uma com a máquina, outra com uma t-shirt branca que tinha no meu saco de reportagem. A cada passo, repito em pensamento: “se te fossem matar já estavas morto, se te fossem matar…”. Já estou próximo o suficiente para ver os canos da arma apontados na minha direcção.

– Press, press – aviso, agora com a credencial erguida.

Após revista minuciosa, permitem-me entrar na pequena trincheira. São dois soldados e um jovem, que deduzo pertencer às melícias rebeldes. Os soldados pertencem a um pelotão espanhol da OTANA. Talvez os mesmos que ontem invadiram o nosso espaço. Hoje, invado eu o deles. Um dos elementos está equipado com um lança-granadas e tem uma barba que, juntamente com os óculos escuros, faz lembrar o Chuck Norris. Pergunto em inglês se aceita falar comigo, acena que sim com a cabeça e oferece-me um cigarro. É natural de Vigo, no norte de Espanha e pertence a uma unidade militar chamada Terag. É veterano, com muitas guerras nas costas. Está nesta “de corpo e alma pela defesa da liberdade”.

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Consigo avistar a base da OTANA à distância. Pergunto se posso usar a teleobjetiva para fotografar a entrada da base, apenas em busca de pormenores quotidianos da vida militar, nada de natureza estratégica. Contrariamente ao que esperava, diz-me que posso tirar cinco fotos, desde que ele as possa rever e comprovar que não contêm informação privilegiada. Aproveito a oportunidade sem hesitar.

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Disparo, passo-lhe a máquina para a mão, recebo-a de volta, volto a enquadrá-lo, carrego no obturador, peço-lhe o endereço e digo:

– Se ambos sairmos disto vivos, esta fotografia chegará à tua casa.

Aperto-lhe a mão e inicio a caminhada para a colina russa, sem olhar para trás.

 

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O pelotão ainda está preso no mesmo local. A base inimiga permite ao inimigo continuar permanentemente a reforçar a zona de pressão, o que impede a progressão e está a impossibilitar a execução da missão. Sturm está reunido com alguns elementos a tentar reajustar a estratégia, quando é interrompido por um contacto via rádio. É o posto de comando. O aeroporto está sob ataque e na iminência de ser conquistado pelo inimigo. O general Midlandov dá ordem imediata de retirada e requer a concentração de todos os esforços no aeroporto. O pelotão arranca de imediato.

– Mas o míssil pode ser lançado sem a unidade de combustível que vínhamos buscar? – Alguém pergunta.

– Era uma unidade de reserva. Uma redundância de segurança – alguém responde.

– Tens a certeza?

Ninguém responde, porque ninguém tem a certeza. A única convicção que têm é a necessidade de proteger o aeroporto. É impreterível que o míssil seja lançado à hora designada, caso contrário, segundo indicações superiores, o efeito surpresa estará comprometido e será necessário abortar a missão primordial. A que trouxe esta força especial a este teatro de operações. Faltam 170 minutos.

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Quarenta minutos depois, o pelotão russo está posicionado no topo da colina de onde partiu em conquista do aeroporto no dia anterior. Terá de repetir a façanha, pois o aeroporto foi tomado pelas forças inimigas. O grupo reúne rapidamente. Vão tentar reeditar a manobra do dia anterior. Faltam 110 minutos.

Quando estão a parcelas as tropas, alguém alerta para a presença de um grupo de civis armados na retaguarda. Todas as armas são instintivamente apontadas para lá. Sturm ordena ao grupo que permaneça onde está. O líder da milícia aproxima-se. Sturm reconhece-o.
Lidera uma melícia anti-rebelde. Reúne com ele.

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– Vamos executar as nossas manobras, podem seguir atrás e dar apoio, desde que não comprometam a nossa operacionalidade – informa o tenente russo.

Nota-se um certo desconforto nos soldados russos por terem estranhos armados, lado a lado com eles. Spet avista um indivíduo a descer pelo flanco esquerdo, de shemag ao pescoço e pistola nas mãos, duas características que não lhe trazem boas recordações. Interpela-o.

 

 

O pelotão posiciona-se e começa a descer a colina.
Uso a teleobjetiva para espiar o aeroporto. Está cheio de forças inimigas. Numa trincheira na base da colina estão tropas da ENA, em nítida dificuldade. No bosque do outro lado do aeroporto está a força especial da ENA (Geada), a tentar a progressão por aí. O fogo inimigo é intenso e dificulta a descida dos russos. Faltam 80 minutos.

 

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A muito custo. Atingimos a trincheira. Há inúmeras baixas no exército abduliano. A progressão para o aeroporto é impossível a partir dali. Neste preciso momento, há um veículo de transporte a reforçar a presença inimiga no local. Faltam 60 minutos.

Sturm olha para o relógio e analisa a situação. Decide alcançar o bosque onde está a força especial da ENA. A ideia é limpar todo o sector desse bosque primeiro e depois poder atacar o aeroporto a partir do flanco sul, dividindo a atenção inimiga entre o exército da ENA a Norte e as forças especiais russas e abdulianas a Sul. O plano é arrojado e requer a travessia de um descampado na lateral do aeroporto. Dá a ordem, os soldados da ENA iniciam o fogo de cobertura e o pelotão russo avança, sem hesitar, em passo de corrida.
Faltam 50 minutos.

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O último russo mergulha para a caruma. Conseguiram atravessar sem baixas e já estão no bosque. Iniciam rapidamente a progressão em direcção ao som dos tiros. Numa zona densamente arborizada, encontram a unidade da ENA em acesa batalha. Posicionam-se, usam as árvores como escudo. Faltam 40 minutos.

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Sokol, o segundo médico de serviço, agoniza no chão com ferimentos. Felipov está desaparecido. E a chuva de chumbo continua. Um militar da ENA pede fogo de cobertura, dá uma corrida e consegue resgatar o russo. Não pára de chover. Gritos em todas as línguas ecoam pelo bosque. Espanhol, inglês, abduliano… e russo. Chove. Vejo a desesperança nos olhos de alguns homens quando colocam o último carregador na arma. Será ali o fim?

– Davai, tovarish. Davai!

Os russos injetam confiança uns nos outros. A chuva nunca mais pára. Alguns estão encharcados e mesmo assim progridem, arrastam-se pelo mato vertendo o sangue da terra mãe neste solo infértil. Cada metro conquistado é uma vitória. “Davai!”. Quando não se diz, pensa-se. Cada abertura para fogo é aproveitada, cada tiro apaga uma vida. Chove menos.
O último disparo troveja por todo o bosque como um relâmpago solitário. Segue-se o silêncio e uma nuvem de pólvora que se desvanece com todo o vagar do mundo, até permitir a Sturm um vislumbre do relógio. Um arrepio perfura-lhe as costas como uma bala.

 

As hélices do helicóptero têm um som tão cadenciado que quase surtem um efeito hipnótico. Ou será que quis dizer meditativo? Talvez seja meditativo. Já dei por mim a pensar em várias coisas desde que levantámos voo. A incondicionalidade do companheirismo, o baixo custo de uma vida perante a cotação de uma ideologia, as palavras do Karkariano, todos os órfãos desta guerra e o quão frívola é a ambição de carreira que empurra um jornalista para uma realidade destas.
Encaro a quietude desconcertante destes homens. Nenhum deles está aqui por ele próprio. Nenhum deles se submeteria a tudo isto apenas por ele próprio. Talvez seja imperativo para nós, jornalistas, interiorizar esse exemplo.
Sturm permanece calado, no canto do helicóptero. Acabaram por conquistar o aeroporto, após mais algumas horas de combate, mas a missão foi abortada. Contemplo a sua expressão taciturna e adivinho-lhe o pensamento. Todos os triunfos alcançados no Afeganistão, Chechénia, Daguestão, Ossétia do Sul, Georgia, Crimeia. Todas as medalhas que não pode exibir por serem Operações Clandestinas. Tudo isso esvaecido neste momento e um ego que só não está vazio por causa da determinação dos seus homens, os seus irmãos de guerra, a sua única família.

Provavelmente os seus superiores não vão tolerar o seu fracasso. Talvez até dissolvam a unidade, apesar de todos os sucessos passados. Resta-lhe então aproveitar em silêncio cada instante com os seus irmãos neste MI24 rumo a casa.

Alguém me interrompe o momento instrospectivo com uma palmada no ombro. Olho para o lado e vejo o Frix a estender-me mais uma garrafa daquelas cervejas estranhas com sabor a limão.

– Nadrovia, Viktov.

Não resisto e pergunto-lhe sobre o possível estado de espírito do seu tenente.

– Deixa-o estar. Ele está numa guerra interna neste momento. Parte dele está invadida por um sentimento de dever não cumprido. E isso é corrosivo para ele. É como mil estilhaços a ferver dentro do seu corpo. Mas depois há outra parte dele que sente alívio por voltamos todos para casa. Essa última parte vai acabar por arrefecer o resto.

– E achas que o desfecho vai ser positivo para ele, em Moscovo?

– É a sua extrema dedicação que o está a fazer sofrer. E vai ser ela mesma que no fim o vai proteger.

– E o resto? O futuro a partir daqui?

Frix encosta a cabeça ao pequeno quadrado na fuselagem do IM24 e observa o corrupio das nuvens que lá fora parecem passar por nós a correr. Tudo parece passar tão rápido. Responde-me, pausadamente, com o olhar ainda preso na janela:

– Vou pensando no que virá depois. Vou pensando como virá o depois. Mas agora só quero voltar a casa.

 

 

© 2016, Victor Melo. Todos os direitos reservados.

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