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  • EM BUSCA DA ALDEIA PERDIDA (Parte II)

    Os antigos falam de uma aldeia alojada na serra de São Macário, chamada Cova da Serpe. Deram-lhe esse nome pois existia lá perto uma gruta onde vivia uma serpente, tão grande que a apelidavam de serpente-dragão. O bicho espalhava o terror pela pacata povoação. À noite, os habitantes trancavam as janelas e sentavam-se no chão, de costas voltadas para as paredes, enquanto ouviam, aterrorizados, o pesaroso arrastar do seu corpo escamoso pelas ruas de pedra. Inevitavelmente, ouviam à distância o bramido abafado de um animal e benziam-se. O gado costumava ser a sua presa principal, mas por vezes também atacava humanos. Todos que a enfrentaram não terão sobrevivido para contar a história. Os habitantes, fartos de sofrer à custa do vil réptil, resolveram mudar-se para outro lugar, do outro lado da montanha, num vale profundo, protegido pelas fragas colossais que estreitavam o desfiladeiro que lhe dava acesso. Pedra a pedra, construíram lá uma aldeia e passaram a viver noites um pouco mais tranquilas, embora não fosse incomum abrirem a janela de madrugada e permanecerem alguns minutos a observar as montanhas, em busca de uma silhueta ameaçadora. Viviam com mais segurança, mas sentiam imensas saudades da terra dos seus antepassados, onde tinham passado toda a sua vida. “É uma pena”, costumavam dizer. E assim, desabafo a desabafo, os anos foram passando num compasso lânguido. Nunca aceitaram bem aquela nova aldeia, um lar bastardo que lhes fora impingido e que tinham dificuldade em amar. A Aldeia da Pena.

    Há mais de três horas que estamos naquele maravilhoso terraço, coberto por videiras e com vista desafogada para o vale. Já ali escutámos histórias sobre a aldeia, já comemos e bebemos, já libertámos o olhar para os confins das cordilheiras que se perdem no horizonte. Só nos dá vontade de permanecer ali.

    Ao chegar à Aldeia da Pena, tínhamos encontrado dois homens a restaurar uma das casas de xisto. Perguntei-lhes se havia um café por aquelas bandas. Estava a derreter e desejoso pela espuma fresca de uma cerveja, pelo que a questão soltou-se sem grande convicção. Se em Covas do Rio, que é uma aldeia muito maior, não há um único estabelecimento desses, era ainda mais improvável existir numa aldeia com seis habitantes.Para meu espanto, a resposta foi positiva. A menos de 10 metros, ao dobrar uma esquina, deparei com a placa “Adega Típica da Pena” e com aquele terraço espantoso.
    Foi paixão à primeira vista. Um papagaio chamado Chico que nos cumprimenta à entrada, uma paisagem assombrosa, lajes de xisto a fazer de mesas e um mundo de pequenas peculiaridades rústicas salpicadas pelo espaço, que apenas se encontram nestes encantadores fins-do-mundo.

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    O menu é feito em ardósia, com vários petiscos anunciados a giz e preparados na hora na churrasqueira mesmo lá ao lado. Como não fazíamos ideia que existia aqui um espaço destes, trazíamos o nosso farnel nas mochilas, para um piquenique improvisado num recanto qualquer da aldeia. Perguntámos ao dono se podíamos pedir bebidas mas comer as nossas previsões, que simpaticamente acedeu. Ficámos a saber que se chama Alfredo Brito e que é um artesão, que constrói réplicas em miniatura das casas típicas da região. Exibe-as no interior do bar, que está recheadíssimo de mil e um objectos típicos, incluindo uma cabeça de javali que, não sei porquê, me evoca um ambiente cinematográfico característico do Álex de la Iglesia.

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    O Chico é um papagaio que valoriza o estilo

    Ficamos também a saber que ele tem uma casa de xisto restaurada, mesmo em frente ao café, com dois quartos que aluga por preços muito sedutores (12,5 euros por pessoa). Rapidamente fazemos planos de lá regressar um fim-de-semana, apenas com o intuito de permanecer naquele recanto mágico e usufruir em pleno. Provar os petiscos da adega, ler com as montanhas como pano de fundo, conversar e conhecer mais histórias locais. Encanta-me a perspetiva de estar naquele sítio à noite, sentir a aragem morna de verão e os sons noctívagos da natureza, a beber uma garrafa de vinho em boa companhia e a conversar sobre temas que nos massajam as costas com arrepios e nos fascinam madrugada fora.

    Antes de me meter a caminho, tinha lido alguns artigos sobre a aldeia, em particular sobre o êxodo que ela sofreu nos últimos 30 anos. Quando nasci, viviam aqui meia centena de pessoas. Hoje, são apenas seis, incluindo duas meninas, irmãs, que desde pequeninas apenas têm a companhia uma da outra para brincar. Um local que outrora já fervilhou com vida e actividade de sol a sol. Hoje fervilha de encanto. O encanto dos que teimam em manter a aldeia viva; da lenda, da tradição, da identidade; do silêncio desértico apenas suspenso pelas memórias que nunca abandonaram o local e se fazem transportar com o rumor do vento; da eterna promessa de um regresso sem data.

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    Ainda entorpecidos pelo idílico terraço, debatemos o resto do trajecto. Calculamos que faltem entre 11 a 12 quilómetros. Os próximos quatro quilómetros serão percorridos em alcatrão, pela estrada que abandona a aldeia e serpenteia montanha acima, até voltarmos a apanhar o trilho, já perto do alto de São Macário. Não nos agrada particularmente esse troço, viemos em busca de trilhos, não de estradas. Alguém sugere que seria ouro sobre azul suprimir esse troço com uma boleia. “Há um senhor que parte com um tractor e um atrelado às 17”, informa Alfredo. São 17 menos 5. Cruzamos olhares, acenamos com a cabeça e começamos a arrumar tudo nas mochilas, desenfreadamente. Sempre prestável, o senhor Alfredo já tinha ido confirmar. A boleia é nossa, se a quisermos. O ruído do tractor já se ouve por trás das casas.
    Havia ainda muito para explorar na aldeia, recantos para descobrir, conversas para ter, incluindo com a menina que nos serviu as bebidas, que tardiamente descubro ser uma das meninas referidas no artigo que tinha lido. Mas o senhor do tractor já está à nossa espera. Pelo que percebi, vai com frequência à aldeia carregar entulho, que descarrega algumas centenas de metros acima, numa pequena ribanceira. “Desde que não me sujem a terra”, solta, sarcástico, quando pedimos permissão para saltar a bordo. Atiramos as mochilas lá para dentro e prosseguimos viagem, eufóricos com a caricata situação, a coincidência com ponteiros de relógio suíço, o inesperado desenrolar de acontecimentos, o nosso corpo, que vibra por todos os lados com o movimento do tractor e o vento que nos esbarra nos rostos.

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    Há batotas toleráveis

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    O senhor do tractor é uma simpática caixa de surpresas. Pára o tractor em pontos estratégicos para termos uma vista desafogada da aldeia ao fundo do vale, fala alemão connosco, manda piadas, debate as vicissitudes do turismo rural. Até que trava as enormes rodas numa bifurcação e aponta para o caminho que teremos de fazer a partir dali. Temos de subir até aos 1050 metros do topo da serra de São Macário, depois percorrer a crista de uma cordilheira que curva à esquerda e se estende, do outro lado do vale, para lá do que podemos imaginar, até começar a descer, serpenteante, em direcção ao vale de Covas do Rio. “Por 10 euros levo-vos lá”, diz, meio a sério, meio a brincar. “Não obrigado, isso já seria batota a mais”, replicamos.
    Um a um, damos-lhe um abraço e seguimos caminho.

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    Aldeia da Pena, afundada no vale. É possível ver a estrada de alcatrão que serpenteia pela montanha, percorrida até este ponto no tractor.

     

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    A linha branca que se vislumbra do outro lado do vale é o nosso trilho

    A dado momento, vislumbro algo reluzente de forma fugaz no meu lado direito. Deduzo ser um reflexo do sol no metal das torres de alta tensão que cruzam o topo de serra. Poucos segundos depois, um ressonante trovão faz-me perceber que a minha dedução estava errada. É o cúmulo da ironia. Cancelámos o plano da Serra da Estrela devido à trovoada e agora levamos com ela, no ponto mais alto desta montanha e com um trilho que segue a crista da cordilheira durante quilómetros. Resolvemos parar uns minutos num planalto alcatifado com erva fofa e analisar as nossas opções. À primeira vista está um ambiente agradável. O sol, parcialmente coberto, deixou de nos chicotear a pele e levantou-se um vento seco e morno. Não fosse o facto de isso ser clima de tempestade iminente, seria óptimo.

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    São 17:28. Regressar à Aldeia da Pena e pernoitar lá é uma das opções, mas a menos apetecível. É um longo regresso até ao vale, não trouxemos material de campismo e nem sequer sabemos se há alojamento disponível esta noite. Podemos descer até uma altitude mais aceitável e esperar que a tempestade passe, mas isso pode significar fazer o resto do longo trajecto de noite. Ou podemos avançar, em passo acelerado, cruzar a curva da cordilheira o mais rápido possível (que é sobrevoada longitudinalmente pelos cabos de alta tensão), até chegar à crista da outra montanha, onde já estaremos a menor altitude e onde as nuvens parecem puro algodão, comparadas com as que temos agora em cima.

    Começamos então a subida. A noroeste, o Fred avista os altos muros de granito que circundam a capela de São Macário, erguidos para proteger a capela dos ventos ciclónicos que assolam o cume da montanha.
    Conta-se que Macário, um jovem da região, tinha uma profissão que o obrigava a ausentar-se por longos períodos. Numa dessas ausências, os seus pais adoeceram e a sua mulher convidou-os para recuperar em sua casa. Cedeu-lhes o quarto e saiu, já ao entardecer, para procurar lenha pois pretendia manter a lareira acesa toda a noite. Macário regressou nesse momento, entrou no quarto com o candeeiro a óleo por acender e viu dois vultos na cama. Cego com ciúmes, matou-os à machadada. Quando a mulher regressou, deixou cair a lenha que trazia debaixo do braço, ao vê-lo com as mãos na cabeça, a chorar e a repetir vezes sem conta: “Ai que desgraça, matei os meus pais”. E viu-o a sair porta fora em direcção às montanhas, com essa frase a ecoar na distância noctívaga da serra. Consumido por remorsos, Macário resolveu viver como um ermita nas montanhas. Diz-se que matou a serpente que tanto afligia os habitantes da região e que passou a viver na cova dela. Gratos, os habitantes ter-lhe-ão construído esta capela, onde ele terá vivido o resto dos seus dias.
    Um sonoro relâmpago estala bem por cima da minha cabeça e desperta-me da reminiscência da lenda. Viro o rosto e olho para a silhueta da capela, recortada no céu tempestuoso. Gostava de a visitar, mas tenho de a deixar para trás. Tal como a gruta da cobra, que muitos juram a pés juntos existir algures na serra, juntamente como as ruínas da Cova da Serpe. E tudo a trovoada levou.

    Neste momento já chove. A máquina já está guardada na mochila e percorremos a curva da cordilheira em passo de corrida. “’Bora pessoal, está quase, só mais um esforço”, repito vezes sem conta. Estamos numa zona completamente exposta e por cima de nós estão os cabos de alta tensão, que não consigo deixar de imaginar a serem decepados por um raio e a contorcerem-se furiosamente, sangrando faíscas. “Bora!”.
    A chuva é bem-vinda. Refresca-nos o corpo e o espírito. Foram cerca de 30 emocionantes minutos, sempre em passo acelerado e com clarões a serpear por cima de nós, até alcançarmos a crista da outra montanha e finalmente conseguirmos enxugar o nosso riso, até então encharcado de nervosismo.

    Prosseguimos por esta recta interminável de terra e cascalho, que ainda vai contornar toda a encosta da montanha antes de começar a descer, em direcção à estrada de asfalto que acabará por nos levar ao derradeiro destino. A determinada altura, eu e o Fred descortinamos uma via trilhada que parece precipitar-se numa diagonal pela montanha e que nos poderá poupar alguns quilómetros e imenso tempo. Decidimos enveredar pelo atalho. Durante cerca de 20 minutos, conseguimos segui-lo com relativa facilidade, mesmo quando ele decide jogar às escondidas connosco. Até que, provavelmente farto de ser descoberto, resolveu caprichar no esconderijo. Procuramos em todas as direcções e não há qualquer vestígio dele.
    Há um eucalipto que se ergue solitário, a cerca de 30 metros. Resolvemos atravessar mato cerrado que nos dá pela cintura até ele, na esperança de o trepar e avistar o trilho. Após alguns arranhões, iniciamos a nossa símia tarefa. O Fred consegue subir até ao segundo ramo, a cerca de dois metros de altura, mas não há forma de descortinar qualquer trilho. A estrada avista-se lá em baixo, mas por entre este tipo de vegetação cerrada, as distâncias e respectivas aparências são sempre ilusórias. Decidimos seguir em frente. Eu e o Fred vamos abrindo caminho, a Teresa e a Xana seguem cerca de 10 metros atrás. Este trajecto é particularmente (e literalmente) espinhoso para a Xana, que enverga calções à Tombraider. Tenta cobrir as pernas com um lenço comprido, mas o efeito prático é nulo. Resta prosseguir, devagarinho e tentar ignorar os gatafunhos que a vegetação vai rabiscando na sua pele.
    O mato já nos dá pelo peito e é impossível ver onde pisamos. Tento tactear terreno em busca de pedregulhos soltos ou outros perigos escondidos e vou sempre anunciado bem alto a sua localização aos três que seguem atrás de mim. É difícil descrever o quão penoso foi este percurso. Ainda andámos cerca de uma hora naquilo até finalmente sair dali. Já diz o velho ditado, quem se mete em atalhos…

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    Damn shortcuts!

     

     

    Já sentado no alcatrão, tento esvaziar as botas de todos os picos, folhas e outros detritos que lá entraram. Não trouxe polainas, é o preço a pagar. A Teresa foi picada na face lateral da coxa e sente imensas dores. Tento aliviar-lhe a preocupação mais imediata: Naquela localização e com aquele tipo de ferida, não é de cobra. E mesmo que fosse, não era motivo para pânico.

    Só há duas espécies de víboras venenosas em Portugal e nenhuma delas é letal para um adulto saudável. A sua toxicidade pode causar alguns efeitos secundários indesejáveis (para além da dor e dos edemas, náuseas, vómitos, hipertensão e, mais raramente, paralisia parcial de alguns músculos) mas tem um efeito lento e geralmente dá perfeitamente tempo para obter socorro e o devido tratamento. O Fred partilha alguns truques que aprendeu nos escuteiros para lidar com mordidelas de cobra, a determinado ponto já mandamos piadas com os métodos que vemos nos filmes e a preocupação dela esvai-se por entre as gargalhadas.

    A estrada, essa sim, parece uma autêntica serpente e dá voltas e mais voltas até chegar ao vale. Por sorte, nesse preciso momento, surge uma carrinha de caixa aberta a descer a estrada. Sigo mais atrás, vão passar primeiro por mim, mas os meus calções têm um buraco maior do que o da camada de ozono, provavelmente ainda me confundem com um vagabundo demente, não posso ser eu a esticar o polegar. “Tem de ser uma das meninas”, grito. Acaba por ser a Xana a fazê-lo. E segundos depois, lá estamos novamente com a alegria e o vento estampado nos rostos.

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    A boleia é curta, dura cerca de dois quilómetros. A carrinha não segue para a Aldeia, seguimos nós, alegres e a relembrar os detalhes do longo dia. Entramos em Covas do Rio num entardecer anunciado pelo fumo que flui das chaminés de pedra e nos induz a preparação do jantar daquelas famílias que ali vivem em plena harmonia com uma tranquilidade dócil que só se encontra nas aldeias do nosso interior.
    Passamos pelo carro estacionado, mas há algo que nos impele a continuar, como se nos segredasse intuitivamente ao ouvido que o dia ainda não acabou. Caminhamos até ao centro e deparamos com um magnífico coreto, onde nos sentamos durante longos minutos a ver o entardecer verter a sua luz dourada pelas encostas coloridas da montanha. Já é de noite, quando abandonamos a aldeia. Ninguém o diz, mas vamos com pena.



  • EM BUSCA DA ALDEIA PERDIDA (Parte I)

    “Devo estar a ficar velho e responsável”, pensei, após desligar o telemóvel. Acho que era a primeira vez que cancelava uma expedição devido às condições meteorológicas. Tinha combinado um trekking durante dois dias na Rota do Vale Glaciar, na Serra da Estrela, que inclui a ascensão ao ponto mais alto de Portugal continental. Era algures nesses dois mil metros de altura que me imaginava a montar o acampamento. No entanto, há quatro dias que consultava as previsões do tempo na região e o símbolo da trovoada teimava em permanecer lá. Um acampamento selvagem àquela altitude, com as condições morfológicas daquela montanha e com trovoada à mistura, seria sinónimo de uma noite memorável ou de uma dança demasiado exótica com o perigo. E eu já tivera a minha noite memorável com raios e coriscos. Em New Lowell, um parque florestal no Sudeste canadiano, vivi a noite de tempestade mais temperamental que tenho memória em todos os meus acampamentos. Os relâmpagos pareciam entrar pela tenda adentro e os trovões eram ensurdecedores. O estrondo de um deles foi tão intenso que jurei ter sentido a terra tremer. Quando o dia clareou, descobri que provavelmente tremeu mesmo, mas com o corpo inerte de uma árvore, derrubada por um raio a cerca de 400 metros da minha tenda. Os meus 19 anos coloriram o episódio, ao ponto de o tornar atrativo. Hoje descobri que devo ter arrumado esses lápis de cera pueris numa gaveta distante. Não os vou procurar. Vou antes procurar uma alternativa. Faltam menos de 24 horas para o arranque.

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    Parte do tronco da árvore abatida por um raio na floresta de New Lowell, no Canadá.

    Sempre senti fascínio pelas aldeias-fantasma de Portugal. Esses locais cheios de silêncio e memórias que vagueiam pelas ruelas de pedra e espreitam pelas esquinas de xisto. Já percorri algumas das doze que salpicam a montanha da Lousã; Já estive em Vilarinho das Furnas; já fui a Drave, que é apelidada de “aldeia mágica”, mas não nas condições ideais (estava lá um acampamento de escuteiros e quero lá pernoitar com a aldeia totalmente deserta); Colmeal está demasiado longe para tão pouca antecedência; e depois há a aldeia da Pena, de onde sempre me chegaram relatos entusiasmados, ao ponto de ser classificada como “mítica”. Fiz a proposta aos meus três companheiros de viagem e eles receberam-na com agrado. Um trekking de um dia, durante 14 quilómetros e com desnível dos 500 aos 1050 metros.

    Arrancamos sábado bem cedo. Paramos em São Pedro do Sul para tomar um café e aproveitamos para pedir algumas informações sobre a aldeia onde começa o trilho, Covas do Rio. Uma das empregadas da padaria é de lá e indica-nos o melhor caminho a seguir. No entanto, diz que há “demasiadas voltas” mais lá para a frente, pelo que nos sugere voltar depois a perguntar. Certíssimo. À saída da cidade, atravessamos uma pequena povoação com meia dúzia de casas. Não há ninguém na rua mas no pátio da última casa há duas crianças de cinco ou seis anos a brincar. Paro lá o carro, abro o vidro e pergunto: “O vosso pai está em casa?”. “Feita a pergunta dessa forma, pareces um pedófilo a averiguar se a costa está livre”, dispara a Xana, sorridente. O miúdo riu-se ao ver-nos a rir e foi a correr chamar o pai, que surge segundos depois, simpático mas com informações nada simpáticas. Diz-nos que ainda estamos a 30 quilómetros da aldeia, o dobro do que imaginava. Contra a minha religião no que diz respeito a viagens não urbanas, lá resolvemos recorrer ao GPS da Teresa, nem que seja para controlar a distância. Um braço levantado de agradecimento ao pai e arrancamos.

    Após uma longa e vertiginosa descida que se assemelha a uma montanha russa de alcatrão, chegamos a Covas do Rio pouco depois das 11 horas. É uma aldeia típica da região centro portuguesa, com ruas estreitas e casas tradicionais de xisto e ardósia, embora existam também algumas habitações mais convencionais, de cimento e telha, que destoam ligeiramente mas não o suficiente para a descaracterizar. Visitamos a povoação, conversamos com alguns locais, enchemos os cantis na fonte do centro da aldeia e arrancamos para o trilho.

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    Minutos antes, um agricultor tinha apontado para um desfiladeiro alto e rochoso que se avista à distância, sulcado entre duas enormes montanhas, onde nada se vislumbra a não ser escarpas de rocha e densa vegetação. É difícil imaginar uma passagem por aquela via, mas ele garantira que o caminho para a Aldeia da Pena era por ali. Não questionamos e arrancamos na direção daqueles gigantes graníticos. A primeira meia hora de caminhada é feita num trilho fácil de seguir, ladeado por muros de pedras cobertas de musgo. Este percurso não está marcado, não existem as típicas riscas amarelas e vermelhas. Na primeira bifurcação que encontramos, seguimos a indicação da mariola, um conjunto de pedras sobrepostas em forma de pirâmide que são uma forma de sinalização centenária criada por pastores para se orientarem nas serras. Há uma espécie de código tácito de montanhismo que sugere ao caminhante que contribua para a manutenção desses sinais valiosos, ou reconstruindo os que sucumbiram às intempéries ou adicionando uma pedra a um já existente. Tenho o hábito de o fazer.

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    Pouco a pouco, o trilho começa a ficar cada vez mais estreito, primeiro começou a ser comprimido pela vegetação, depois pela ribanceira que nos acompanha do lado direito, juntamente com o som de um curso de água lá em baixo, algures sob a copa das árvores.
    Deduzo que estamos no trilho que os locais apelidam de “Caminho Onde o Morto Matou o Vivo”. A explicação é tão trágica quanto irónica: A Aldeia da Pena situa-se num vale profundo e antigamente não tinha um cemitério. Os mortos eram transportados até à aldeia mais próxima, Covas do Rio, por um trilho ingreme e sinuoso, tão estreito que só consegue passar uma pessoa de cada vez. O caixão era carregado aos ombros por duas pessoas, uma à frente outra atrás. Numa dessas travessias fúnebres, o carregador da frente tropeçou e o caixão caiu em cima dele, matando-o.
    Uns largos minutos à frente, é possível descer ao curso de água. Resolvemos fazer uma pausa para relaxar. Estão 32 graus, sabe tirar as botas e mergulhar os pés na água fresca, deitar na superfície lisa das rochas e desfrutar da sombra do arvoredo e do som bucólico do ribeiro e das suas pequenas quedas de água. Aproveitamos para hidratar e comer uma barra de cereais.

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    Em boa hora o fizemos, a partir daqui o troço aumenta consideravelmente o declive. O esforço é maior e a energia suplementar é bem-vinda. Por vezes paramos e olhamos para a montanha do lado direito, um maciço cinzento que enverga uma túnica verde de mato que se ergue tanto que quase sentimos uma ligeira tontura ao acompanhá-lo com o olhar até ao topo. Mais à frente, avistamos uma pequena piscina natural com água cor de esmeralda e longos ramos a abrigá-la do sol ardente de final de primavera. Os raios que trespassam a folhagem oferecem uma convidativa mistura de tonalidades à água. É bem mais ampla do que a “banheira” onde nos refrescámos minutos atrás, mas já estamos vestidos, de mochila às costas e com vontade de seguir caminho, por isso optamos por declinar o convite.

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    A meio da subida está uma pequena plataforma, onde se ergue um solitário, gordo e contorcido tronco oco. Daqui, é possível avistar Covas do Rio, que parece inacreditavelmente longínqua e inacessível. Quem diria que está apenas a hora e meia de caminho. Entro no ventre da árvore e registo a sua silhueta distante com uma fotografia, emoldurada pelo tronco rugoso.

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    Continuamos a subir por entre vegetação de um verde tão vívido que parece viscoso, o ondular das folhagens é pegajoso e cola-se aos nossos sentidos e à nossa imaginação. Curiosamente, o trilho prossegue por uma zona que evoca uma floresta húmida da América Latina, com corpos graníticos tatuados a musgo e líquenes e com lianas que descaem ocasionalmente, como madeixas despenteadas. Passamos pelas ruínas de um velho moinho, já sem telhado, portas e janelas, que em tempos mais áureos terá aproveitado as águas do ribeiro para dar sustento a alguém. A partir daqui o trilho sobe a pique, numa tosca escadaria de pedra que ziguezagueia pelo penedo acima. Custa imaginar um caixão a ser transportado por aqui. Mesmo com botas de montanhismo é fácil escorregar nos calhaus soltos, num momento de distração. E não há espaço para cair a não ser para baixo.

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    Os ponteiros marcam 14: 25 quando atingimos o topo. Aqui, na crista do desfiladeiro, é possível descortinar uma passagem, um corredor natural que serpenteia entre as rochas e que, depois de percorrido, nos permite ver finalmente o que existe do outro lado da montanha. Para além de vastos planaltos acastanhados que se misturam com o verde luxuriante da mancha florestal do vale, já é possível avistar os telhados de ardósia das casas da Aldeia da Pena, que brilham com o reflexo do sol.
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    Deixo os meus companheiros seguir viagem, retiro o cantil da mochila e permaneço ali uns instantes a saborear o momento. É impressionante a existência deste tipo de trilhos recônditos, que sulcam tranquilamente locais que à distância se considerariam inacessíveis e por onde se colocaria fora de hipótese qualquer possibilidade de passagem. Surge-me na memória o filme “300”. A parte onde Ephialtes – um grego acossado pelo facto dos espartanos não o deixarem integrar o seu exército devido às suas deformações físicas – cria uma aliança com o rei invasor, Xerxes, ensinando-lhe um trilho secreto por entre as montanhas que permite ao exército persa obter uma vantagem territorial que se revelaria fulcral no desfecho da batalha. Essa influência foi sempre sendo determinante ao longo dos séculos. Viriato usou a mesma vantagem sobre os romanos na Serra da Estrela, Pelágio sobre os mouros nas montanhas das Astúrias, os vietcongs sobre os americanos nas florestas vietnamitas, os mujahidins sobre os soviéticos nos desertos afegãos. Só no presente século é que a tecnologia alterou para sempre a forma como as guerras são travadas e despiu a significância desse precioso conhecimento territorial.

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    O trilho segue por um pequeno bosque à direita, mas os planaltos parecem apetecíveis para caminhar, resolvemos atravessá-los. À medida que nos aproximamos das árvores, ouvimos o tilintar das campainhas do gado, por vezes mais próximo do que as espessas ramagens verdes nos deixam observar. Numa pequena clareira num patamar acima, está a única passagem que nos permite regressar ao trilho que desce em direção da aldeia. O único problema é que entre nós e essa passagem está um enorme boi com olhar de poucos amigos. Ou enfrentamos o bicho ou retrocedemos seis ou sete centenas de metros até à curva do trilho inicial.  Resolvemos atirar uma moeda ao ar. Caras, não seguimos em frente e coroa, voltamos para trás. Saiu caras.

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    Já no trilho, passamos a ter a companhia de dois cavalos, que nos vão seguindo, paralelamente ao caminho, separados por uma rústica cerca com paus e estacas de madeira. A Teresa não resiste a fazer-lhes uma festa no focinho e o gesto encoraja-os. Saltam literalmente a cerca e passam a seguir-nos, mas desta vez atrás de nós.

    O caminho é estreito e os seus cascos são cada vez mais audíveis no cascalho, à retaguarda. São animais amistosos mas se acelerarem o passo, não há espaço para todos. Envoltos neste caricato momento, vamos descendo aquele caminho de cabras e soltando algumas risadas que talvez escondam mais nervosismo do que outra coisa. Até que atravessamos um pequeno riacho e eles ficam por lá a beber água.

     

     

    Entramos finalmente na mítica Aldeia da Pena, com as suas adoráveis casas pequeninas de xisto e telhado de ardósia. Paramos na fonte, para passar água fresca pelo cabelo e encher os cantis. Estávamos cansados e com a sensação de objetivo atingido. Finalmente naquele lendário vale perdido, longe de tudo, incluindo da noção que a verdadeira aventura estava ainda a começar.